Estilista trans que atua em Campinas, é reconhecida no Brasil e no mundo – [Blog da Solange Pereira]

As máquinas vão costurando as ideias que nascem e circulam de maneira abundante naquele pequeno ateliê, sem luxo, mas rico de acolhimento. A matéria prima, formada por retalhos de descarte, é lixo para muitos. Mas em mãos criativas ganha novo significado e se empodera para desafiar os estereótipos da moda e o consumismo. É assim, em meio a reflexões e artes, que é feito o trabalho coordenado por Vicenta Perrotta, uma estilista trans que atua em Campinas, mas é reconhecida no Brasil e no globo pelo ativismo nas passarelas. Seu trabalho já influenciou a criação de aproximadamente 30 núcleos – de costureiras e multiartistas – em diferentes estados como SP, RJ, RS, AM, PB entre outros.

Há cerca de 10anos Perrotta atua na produção de uma moda questionadora e subversiva. Autodidata, percursora em moda sustentável no Brasil, produz suas roupas com a habilidade de transmutação têxtil e compartilha seus conhecimentos em oficinas e cursos pelo País. É estilista, artista e ativista que se desdobra em diversas atividades, todas carregadas de? vivências e? mensagens que informam, conscientizam e educam as individuos sobre a realidade e a cultura trans. Enquanto cuida da produção e do e-commerce de sua marca – a Use VP – e participa de eventos, encontra tempo para capacitar outras individuos trans na costura, para que possam se sustentar de maneira independente.

Reuso, reintegração, ressignificação

Upcycling: o nome é difícil, mas o significado está na moda. É o movimento que propõe o reaproveitamento de objetos antigos, com muita criatividade e respeito ao meio ambiente. Essa é a essência da criação de Perrotta, a ressignificação de peças e tecidos antigos, descartados, ou como ela mesma diz, jogados no lixo. “O lixo é um estereótipo de algo que não se encaixa mais a normas sociais, é descartado pela sociedade. O corpo trans também é lido como esse estereótipo que não se encaixa. Nosso trabalho é no sentido de potencializar, deslocar os materiais e as individuos do lugar de resíduo, de não-função, para o protagonismo de um projeto de vida”. Ela denominou esse processo de Pedagogia do Lixo, com três prioridades: dar novo significado às roupas e questionar o consumismo, reformular os meios de produção e dar as individuos liberdade e habilidade para costurar com baixo custo.

Só quem já sentiu a dificuldade de encontrar roupas que sirvam em corpos transformados entende a importância desse trabalho. O seu ateliê TRANSmoras, localizado dentro da moradia da Unicamp, se tornou ponto de encontro para troca de informações, conhecimento e pesquisa. É onde nascem os projetos, alguns financiados por leis de incentivo. Como o projeto Arte, Cultura e Costura realizado recentemente em parceria com o Instituto Tomie Othake, onde ela ensinou corte e costura a 20 mulheres (trans e cis), moradoras de abrigo. Mas o conteúdo se expandiu para uma rede de apoio e empoderamento a mulheres que vivem em situação de vulnerabilidade.

Foi a necessidade de sobrevivência – sustento, respeito e arte – que a motivou a criar também o projeto Semente, que organizou mulheres trans e travestis costureiras no ano passado, para geração de renda emergencial na pandemia. Com sua equipe (as manas, como chama suas companheiras de trabalho e luta), convidou outras estilistas e artistas para desenvolverem peças em parceria com a UseVp, que podem ser compradas pelo e-commerce da marca. Em agosto, reenfrentou também o curso de Costura e Transmutação Têxtil na TransCooper, uma cooperativa de costura que funciona dentro da Casa Sem Preconceitos, uma moradia coletiva que acolhe e apoia individuos trans e travestis em vulnerabilidade, mas que querem reconstruir suas vidas.

Das ruas para a costura social

A reinvenção de corpos e roupas praticada pela estilista sempre cria conexões e articula novas formas de produzir que, somando forças, age de maneira ativa e política para propor mudanças. Ela comenta que sempre teve um processo movido a encontrar soluções, algo que atribui em parte a suas duas avós, que costuravam para vestir as suas famílias. “Não era algo romântico, nem de busca pela beleza. Era para resolver uma necessidade primaria, de vestir e aquecer os corpos.” Essa observação interferiu profundamente em seu trabalho de transformar peças descartadas em itens desejáveis, tirando os corpos trans da invisibilidade.

Ela conta que a questão da transexualidade sempre a acompanhou, convivendo desde criança com a violência e a intolerância. Optou por construir um outro ponto de vista, usando a arte e a moda, sem deixar de questionar. “Quando comecei precisava de material para me desenvolver como designer, mas eu não tinha dinheiro para comprar tecidos, então procurei alternativas. Eu percorria as ruas das confecções do Brás, em São Paulo, recolhendo os sacos descartados com retalhos de sobras da produção. Sabia que não poderia competir com a indústria, mas que poderia me colocar em outra posição, e foi o que eu fiz”, conta.

Nascida em Campinas, precisou procurar seu rumo bem jovem, quando a família se desfez. “Quando o corpo não se encaixa, o processo de alienação começa na escola, e ainda criança comecei a procurar a arte como referência. Mas para me profissionalizar passei por várias buscas, como a biologia (a vida), depois a arqueologia (a história), mas meus processos se tornaram o que sou hoje, uma estilista que trabalha com meio ambiente. Já penso o corpo como parte do ambiente e o que tem de impacto reverberando nele”, comenta. Antes das roupas, passou pelo artesanato com sementes.

Reflexões na passarela

Um desfile de Vicenta Perrotta nunca é só um desfile. Pelas inúmeras passarelas que já passou – entre elas várias versões da Casa de Criadores em SP, Mundo Mix e Brasil Eco Fashion Week – a estilista sempre defende causas e usa esse espaço para questionar. Ela acredita que, para discutir consumo, não basta questionar as práticas da indústria, tem também o estereótipo de gênero.

“O consumo no geral é sexista. O de moda, especificamente, é opressor, a individuo tem que ser magra, branca e cis. Não existe roupa para outro corpo que não seja esse. E, para mim, gênero não existe, quero tirar essa opressão da roupa. Então não acinturo e nem faço numeração, mas crio peças que servem a vários tamanhos’.

Ela muda peças e conceitos para construir nova história na moda brasileira. “Todos os nossos desfiles vêm com essa proposta de ser ícone, de produzir para nosso entorno, com processo de mudanças, pensando na roupa como dispositivo que vai trazer uma outra referência, outro ponto de vista da corporalidade.”Ela considera a questão da exclusão bem delicada e afirma que o corpo trans quebra e subverte esse processo, porque não se deixa alienar, faz um discurso político na roupa. Antes da pandemia os cursos, palestras e desfiles eram presenciais. Agora são lives, cursos on-line, oficinas virtuais, aulas no Sesc, muitas atividades nas redes sociais. Ela não para. E seu trabalho ganha visibilidade.

 



Por , em 2021-09-21 19:00:00


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