A vida secreta do saquê, obsessão nacional do Japão – [Blog da Solange Pereira]

Eu o conheci em Shinjuku, ao lado da famosa estátua de Godzilla que ruge para os bares de karaokê abaixo dela.

Shinjuku é o centro da vida noturna de Tóquio, repleta de armadilhas turísticas para uma clientela confusa e perdida com o fuso horário. Felizmente, Ryuzo conhece a região e — seguindo uma regra tácita para encontrar os melhores bares de Tóquio — evita o óbvio: me conduz até um prédio corporativo comum, onde abrimos uma porta aparentemente banal. Uma placa contém os dizeres “SEM SAQUÊ, SEM VIDA”.

O Mercado de Saquê Kurand integra uma pequena rede de especialistas em saquê na capital. Ryuzo e eu compramos ingressos que nos permitem nos servirmos de saquê à vontade por 90 minutos. Observo a clientela — jovens profissionais inteligentes bebericando satisfeitos — e tento imaginar a devastação que ocorreria caso um estabelecimento comercial semelhante com tempo de consumação à vontade para bebidas fosse aberto em outro local.

A história recente não tem sido clemente com o saquê. Após a Segunda Guerra Mundial, o Japão abriu os braços (e sua adega) para o globo. Cerveja e vinho logo viraram moda. O saquê foi deixado esquecido e o número de fábricas de saquê caiu quase pela metade em 30 anos. Somente recentemente o saquê passou por um ressurgimento que Ryuzo compara à recente expansão global das cervejas artesanais. Embora a produção em escala industrial tenha diminuído, os produtores artesanais, muitas vezes conhecidos por seus rótulos divertidos e infusões incomuns, estão em ascensão.

Há muitos deles no Mercado de Saquê Kurand. A porta do refrigerador se abre com uma lufada de ar frio, e sinto que estou entrando em um globo etílico polar. Existem saquês de sabor umami e saquês frutados. Saquês para iniciantes e saquês para apreciadores. Há um rótulo que proclama solenemente que “o cachorro vende saquê, e o gato que faz o saquê”.

Nossos 90 minutos começam e partimos em uma excursão rápida pelo Japão: saquês suaves e agradáveis de Hiroshima; sabores limpos e terrosos das montanhas geladas de Tohoku. Depois de 45 minutos, experimento saquês brancos viscosos, com uma textura tão espessa quanto iogurte. O saquê oferece um universo de sensações: frias, quentes, doces, salgadas, todas proporcionam um ardor caloroso por dentro.

Nossa sessão de degustação logo termina e vamos para Shinjuku, a partir daí a sequência de eventos passa a ser melhor interpretada ao conferir os recibos de pagamento na manhã seguinte. Com ou sem uma noite de saquê, Tóquio é um lugar inebriante. É uma municipio de um bilhão de decibéis e outdoors de um bilhão de pixels, e é mais efervescente à noite.

Por , em 2021-08-15 07:07:30


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