A reinvenção do bordado à mão – [Blog da Solange Pereira]

Seja para uso individuol, para presentear alguém, por terapia ou fonte de renda, o bordado é uma arte universal que não se limita apenas à aplicação em peças de vestuário ou toalhas e roupas de cama. A personalização com o bordado está em alta e pode ser utilizada das mais diversas formas, em acessórios, objetos e itens de decoração; basta apenas ter uma agulha e linha e usar a criatividade. Além disso, vários materiais e diferentes habilidades podem ser agregados. Apesar de a forma manual ser a mais tradicional, pode também ficar por conta da tecnologia e das máquinas integradas a softwares.

Porém, mesmo com o passar do tempo e com a modernização que tem tornado praticamente tudo tecnológico, o estilo favorito continua sendo o bordado feito à mão, que passou a ser muito mais valorizado atualmente, já que durante a pandemia muita gente resolveu aprender ou voltou a praticar, e isso impulsionou as tendências de moda.

Para a consultora de moda Ana Carolina Arroyo, o uso do bordado nunca esteve tão em alta. “Os meses trancados dentro de casa refletiu muito na nossa maneira de se comportar, comprar e vestir, e os hobbies de quarentena se tornaram reais quando grandes marcas também resolveram investir em produções artesanais. O ‘craftcore’, que é a junção de trabalhos manuais com peças de roupas e acessórios, é fortemente visto nas blusas de tricô e até crochê, assim como a customização de jaquetas”, declara.

Ela destaca que não só as mulheres, mas também o público masculino tem aderido ao uso de roupas com bordados. “Muitos homens também amam essa tendência, pois deixa a peça exclusiva e única”, observa. Outro ponto interessante mencionado por Ana é que as temáticas mais exploradas nos bordados são as flores e a natureza, demonstrando assim a preocupação com o meio ambiente.

É nesse contexto ambiental, mas saindo do universo fashion, que uma simples folha ao vento se torna uma obra de arte incrível pelas mãos da talentosa paranaense Laura Dalla Vecchia, que borda à mão espécies de aves brasileiras em folhas secas que caem das árvores e são recolhidas do chão em praças de Curitiba e Guaratuba. Inspirada pelo trabalho da genitora, a jovem artesã tem como proposta de vida o incentivo à conservação do meio ambiente e à arte. “Em todas as coisas da natureza há algo maravilhoso”, destaca em seu perfil no Instagram (@levezaart).

Laura fez uma simples e despretensiosa postagem durante a pandemia exibindo o seu trabalho, e isso despertou a curiosidade e interesse dos seguidores, atingindo um maior número de individuos que fizeram sua demanda aumentar, e, consequentemente, fez com que ela inovasse e começasse a vender online. Ao todo, 86 espécies já foram bordadas por Laura e encantam os olhos de quem tem a oportunidade de aprenderseu trabalho artístico.

A rio-pretense Ana Maria Gomyde de Oliveira confessa que, de alguma maneira, o bordado sempre esteve presente em sua vida. “O bordado, para mim, é história. Quem borda, conta uma história, mesmo que não tenha consciência disso: sobre si mesma, sobre o globo, sobre sensações, e é por isso que tenho tanto interesse pelo ofício. Ele traz memórias da minha infância, de quando via minha avó revirando os fios e, quando bordo, minhas memórias ficam vivas, muito perto de mim. Daí a importância”, relata.

Graduada em artes manuais, ela atua como coordenadora pedagógica e esclarece que o bordado não é sua fonte de renda, apesar de às vezes vender alguns de seus trabalhos para amigos e conhecidos. Ana borda fotos, histórias que lê e suas próprias, e expõe sua arte nas redes sociais. Revela que tem um projeto chamado “Uma Saia para Marina”, que surgiu há dois anos ao ler contos da escritora Marina Colasanti, que tem o bordado como fio condutor da narrativa, e teve a ideia de propor a um grupo de mulheres bordar uma saia para a autora a partir de suas próprias histórias. Por conta da pandemia, o projeto está parado, mas ela pretende retomá-lo assim que possível.

Para Ana, bordar traz calma em um globo cada vez mais veloz e automatizado. “Quando bordo, a ansiedade fica adormecida e parece que os fios se entrelaçam a mim e eu me torno mais presente aquele momento, ao ato de bordar. Acredito que seja também um ato de resistência a essa sociedade que, cada vez mais, nos desumaniza”, desabafa.

De geração em geração

A produtora de eventos Lilian Garcia Luz afirma que sua profissão foi uma das primeiras a ser afetada pela pandemia e que, por essa razão, uma alternativa encontrada foi transformar algo que aprendeu ainda na infância em fonte de renda. Com isso, passou a comercializar seu trabalho com bordado em março do ano passado. Ela faz quadros com escritos e imagens diversas, e emoldura em bastidores de madeira, que enfeitam as paredes e dão um toque a mais de personalidade no ambiente. “Venho de uma família onde as mulheres são, em sua maioria, ligadas a algum tipo de artesanato, e isso me incentivou e levou a bordar desde criança.”

Lilian é praticante do bordado livre, conhecido também como contemporâneo, que pode ser feito em vários tipos de tecido, com pontos que não precisam necessariamente ter o mesmo tamanho ou distância. Para ela, o bordado não só virou uma fonte de renda como também uma terapia. “Bordar é tirar o foco do problema usando linha e tecido”, ressalta.

Juliana Joia Simplicio trabalha há quase 20 anos com o bordado digital, que simula uma produção manual, utilizando máquinas eletrônicas. A grande diferença em relação ao feito à mão é que, enquanto o artesanal possui um acabamento mais rústico, o eletrônico oferece pontos mais precisos e fixos, sendo indicado para artes mais padronizadas e em série, além, é claro, do tempo de elaboração, que é muito mais rápido que o bordado manual. A empresa rio-pretense onde ela trabalha é a Bordados.com, fundada por sua genitora, especializada em enxovais, uniformes, paramentos litúrgicos e robe para noivas e madrinhas com bordados de brasões, entre outros, que segue com essa outra vertente mais tecnológica.

Formada em Engenharia, ela conta que nunca atuou na área e sempre esteve envolvida com o bordado desde pequena. “Venho de uma família que sempre teve confecção, fui criada neste meio. Eu estudava à noite e durante o dia ajudava minha genitora na empresa. Terminei os estudos e continuei lá, com os meus bordados”, destaca.

Engana-se quem pensa que bordado é apenas coisa de mulher. Homens também bordam e com maestria. Esse é o caso do fotógrafo Fernando Cândido Ribeiro, que reside em Catalão (GO), e cria retratos utilizando habilidades mistas com bordado e outros elementos, sempre com a narrativa construída a partir da figura humana, ambientes, palavras e cores que se harmonizam, misturando temas como solidão, melancolia e questões existenciais.

Em seu perfil no Instagram (@borda_do_homem), ele divulga seus trabalhos e confessa que raramente aceita encomendas. “Antes de tudo faço pela minha satisfação e expressão. Prefiro essa liberdade de produzir e deixar que a arte toque outras individuos. Quando isso acontece, quando minha arte toca a alma de alguém a ponto dela querer pagar para ter a obra junto dela, faço a venda com muita satisfação”, declara.

Fernando cresceu observando a avó, que era tecelã, e a genitora, que bordava e costurava, e esse foi o gatilho para despertar seu interesse pelo artesanato. No entanto, era uma atividade considerada exclusiva para mulheres, portanto, nenhum ensinamento prático lhe foi passado nessa época.”“Onde já se viu isso? Menino bordando ou costurando?”, se recorda do ouvia. “Só em 2018, com minha maturidade, entendi que isso era possível, e hoje, bordando, posso revisitar minhas origens sem nenhum pudor”, afirma.

Ao ser questionado se já sofreu algum preconceito, a resposta não surpreende. “Sim, e não só por outros homens, mas por mulheres. Quando eu estava começando, tentei me inscrever num curso que uma loja de aviamentos da minha municipio promovia, mas fui imediatamente recusado de participar, com a alegação de que os maridos das mulheres não deixariam elas participarem se soubessem que havia um homem na turma. Tentei argumentar, mas foi em vão. E se tem uma coisa que me incomoda na minha condição de bordador é que o fato de eu ser um homem, às vezes, chama mais a atenção do que minhas criações em si”, revela.

O artesão e educador Paulo de Medeiros, que mora na capital paulista, também é um bordador. O artista faz parte de um coletivo chamado “mínimo diário”, fundado em 2014, em São Paulo. “Nosso primeiro projeto foi a publicação de um livro artesanal, o ‘Costurando Contos Narrados’, uma produção autoral no qual o livro foi feito de modo caseiro, desde a impressão até a sua costura”. Além disso, Medeiros trabalha o bordado em panos, roupas e telas, juntamente com a pintura e apliques, onde costuma retratar rostos, corpos humanos e elementos da natureza.

Medeiros revela que nunca sofreu preconceito por bordar, e acredita que isso se deve ao fato de estar em um ambiente ou círculo que isso não é um problema. “Por ser LGBT, não preciso provar minha heterossexualidade, algo que pode afastar homens do bordado por medo que questionem sua sexualidade. Será que é preciso ter medo? Já orientei uma oficina de bordado em foto para uma turma de capoeira, em um centro cultural na periferia de São Paulo, no qual a turma era composta em sua maioria por meninos, e não houve nenhum tipo de resistência ou preconceito por parte das crianças”, reforça.

Ele aconselha aos homens que desejam aprender a bordar, fazendo da atividade um hobbie ou até mesmo uma profissão, que experimentem o bordado sem intenção de acertar ou medo de errar. “Se bordar fizer sentido, continue”, finaliza.

Manual e milenar, bordado vem da pré-história

Várias lugares do globo têm participação na história do bordado e colaboraram para aperfeiçoá-lo. Seus primeiros registros históricos remontam à Pré-história, há cerca de 2,7 milhões de anos, e, desde então, esteve presente em diversos momentos, conforme explica a docente da área de moda do Senac Rio Preto Aline Eloá Crespi Bernardi de Souza, que cita como exemplo o registro do artesanato em um fóssil encontrado na Rússia, com data estimada de 30 mil anos a.C., que possuía suas vestes adornadas com aplicação em grânulos de marfim, e também em vestes e utensílios utilizados pelos Romanos.

Segundo ela, a habilidade foi aprimorada no Oriente Médio, e no Ocidente se tornou comum a partir do século VII, com mosteiros incentivando e cedendo seus espaços para a prática. “O bordado foi se espalhando e sendo utilizado das mais diversas formas. Ganhou um perfil diferenciado em cada país, resultado das influências de suas culturas e valores, servindo como uma forma de reproduzir sua tradição e como referência à sua história”, explica.

O paulistano Paulo Medeiros pertence 
ao coletivo 'mínimo diário' (Divulgação)
O paulistano Paulo Medeiros pertence ao coletivo ‘mínimo diário’ (Divulgação)
Produtora de ventos, Lilian Cruz resgatou o bordado durante a pandemia (Divulgação)
Fotógrafo Fernando Cândido Ribeiro pratica o bordado desde 2018 (FERNANDO CANDIDO)
Bordado na folha seca de Laura Vecchia (Divulgação)

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Por , em 2021-07-10 04:00:00


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