Trabalhadores de comunidades perdem renda sem o Carnaval deste ano | Rio de Janeiro – [Blog da Solange Pereira]

Trabalhadores envolvidos com o Carnaval estão preocupados com a não-realização dos desfiles das escolas e do blocos neste anoArquivo Pessoal

Por RAI AQUINO

Rio – Com uma atividade diversificada, o Carnaval tem se tornado uma das principais datas do estado em termos de arrecadação. No ano passado, a festa do Rei Momo movimentou cerca de R$ 4 bilhões apenas na capital. Mas sem a folia deste ano, a situação será bem diferente.

Muitos trabalhadores serão impactados pela não-realização do Carnaval. Vários deles estariam na linha de produção das escolas de samba. Isso sem falar nos ambulantes que faturam com os blocos de rua. E muitos desses profissionais são moradores de favelas.

“Estou sem chão. Tenho orado sempre para ver se Deus dá alguma luz na minha vida. Peço a um e a outro por serviço, mas está difícil para todo mundo. Minha esperança é conseguir alguma coisa não só para mim, mas para todo mundo que depende do Carnaval”, lamenta Cida Gomes, de 42 anos, que é aderecista da Grande Rio.

Moradora do Parque Centenário, no Complexo da Mangueirinha, em Duque de Caxias, Cida é viúva, sustenta três filhos, de 18, 20 e 21 anos, e ainda paga aluguel. Ela vive do trabalho de costureira, principalmente na época do Carnaval. No início da pandemia, conseguiu complementar a renda ao ser chamada pela Grande Rio para fazer cerca de 32 mil máscaras que foram distribuídas pela comunidade da Baixada Fluminense.  

“Eu faço bico quando não tem Carnaval, mas não tem sido fácil achar alguma coisa. Recebi um dinheiro para fazer as máscaras em março, abril e maio, mas depois não teve mais nada. A escola ainda ajudou a gente com uma cesta básica, mas agora fico na esperança do Carnaval do ano que vem”, conta.

MUTIRÃO DE CESTA BÁSICA

Quem está à frente das escolas de samba também tem enfrentado dificuldades financeiras por causa da não-realização do Carnaval deste ano. É o caso de Plínio Santos, 28, carnavalesco da Mocidade Unida de Jacarepaguá, da Cidade de Deus, na Zona Oeste do Rio.

“Por não ter Carnaval, a gente não consegue movimentar patrocínios, que ajudam a escola. Então, a gente acaba ficando sem renda e nós profissionais que trabalham não vamos ter salário”, relata Plínio, que também é carnavalesco da Bambas da Alegria, escola de samba que desfila no Grupo Especial de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul.

Para não ficar sem renda, o morador da Cidade de Deus faz assessoria para festas. Mas com a diminuição dos eventos por causa da pandemia, ele tem feito uma espécie de kit de festa para conseguir algo. 

“Fui para o lado do artesanato, que é o que está me dando uma renda. Se eu tivesse o Carnaval, não precisaria estar me esforçando”, afirma, dizendo que tem se preocupado também em fazer mutirão de doações para não deixar os outros integrantes da escola sem nada. “Por ser carnavalesco, carrego toda uma equipe. Não posso deixar essas pessoas que estão sempre me acompanhando na mão”.

‘TUDO FOI PREJUDICADO’

Carnavalesco há seis anos do bloco de enredo Acadêmicos do Vidigal, Júnior Ohara, 55, também acaba se preocupando com os outros integrantes da agremiação, além dele. E a situação de quem está à frente de um bloco de enredo é ainda mais difícil.

“Bloco de enredo tem uma verba mínima. Não existe um pagamento mensal, não existe um cachê. É sempre uma ajuda de custo”, diz.

Ohara também é professor de balé e durante a pandemia perdeu o emprego em uma academia de dança de Copacabana, que fechou as portas. Por causa da não-realização dos desfiles deste ano, o morador do Vidigal também vê mudanças no ânimo da favela da Zona Sul.

“A alegria, os ensaios que não têm mais, os encontros… tudo foi prejudicado. A gente perdeu muito essa coisa dos encontros, das amizades”, pontua.

CANTORA VIVE DE FAXINA

Também à frente de uma escola de samba, mas como intérprete, Lena Alves, 63, está passando por dificuldades por causa da falta da renda que vinha do Carnaval e também fora dele, já que é cantora. Moradora do Complexo do Caramujo, em Niterói, ela está com o trabalho reduzido desde o início da pandemia, há quase um ano.

“Eu cantava sexta, sábado e domingo, às vezes até quatro vezes na semana, e hoje não estou fazendo mais nenhum show. Meu marido também está desempregado e faz biscate, mas dinheiro de biscate não rende”, conta a puxadora da Combinado do Amor, escola de samba do Grupo Especial do Carnaval de Niterói.

Lena também é uma das integrantes do carro de som da Acadêmicos do Cubango, escola da Série A do Carnaval carioca. Para não ficar sem dinheiro em tempos tão difíceis, a cantora tem feito faxina.

 “Agora no Carnaval, era um dinheirinho que a gente recebia, mas não vai ter nada”, lamenta. “Não fujo de trabalho. Estou correndo atrás igual uma louca e estou desesperada. Só não estou passando fome por causa do meu marido, que bota o grosso dentro de casa”.

CARNAVAL COMO 13º

Fora dos barracões, o ambulante José da Cruz, 54, vai passar pelo primeiro Carnaval sem a renda que conseguia nos dias de folia. Morador de Manguinhos, na Zona Norte da capital, ele conta que sempre trabalhou nos blocos de rua do Centro do Rio.

“A situação está difícil porque os eventos pararam. Tenho trabalhado pouco, a praia está fraca, não há eventos, quando tem é afastado. A gente quebra um galho aqui e ali, mas tem passado muita dificuldade”, relata.

O ambulante diz que consegue faturar, em média, R$ 5 mil durante o Carnaval. Sem o ganho das ruas, ele tem apenas os R$ 89 que recebe do Bolsa Família.

“O Carnaval é considerado o 13º do camelô, principalmente para aquele que trabalha o ano todo, que rala o ano todo, com sol e chuva. Então, perdi o meu 13º”, afirma.

Por , em 2021-02-12 05:00:00


Fonte odia.ig.com.br



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