O ‘não-carnaval’ da pandemia: trabalhadores de desfiles e blocos sonham com 2022 épico para compensar cancelamento da folia | Rio de Janeiro – [Blog da Solange Pereira]

“Em 2022, vamos ter um carnaval inesquecível”. A frase poderia ser de qualquer um dos milhares de profissionais que vivem do carnaval – ou de um dos milhões de ansiosos foliões. Mas fica ainda mais representativa na voz de Pedro Ernesto, presidente do Cordão da Bola Preta, bloco nascido no Rio no fim do ano da pandemia da gripe espanhola (1918) e que teve o seu primeiro carnaval em 1919 – considerado o “maior carnaval de todos”.

A esperança por uma aglomeração saudável, sem risco de Covid, foi o que restou em 2021 para quem trabalha com o “maior espetáculo da Terra”. O G1 conversou com pessoas diretamente envolvidas com a festa que, segundo a Riotur, atraiu 2 milhões de turistas e movimentou cerca de R$ 4 bilhões em 2020 – um estudo da Fundação Getúlio Vargas estima que este ano seriam até R$ 5,5 bilhões.

Sem questionar a necessária decisão de se cancelar a folia diante da pandemia que matou mais de 31 mil só no estado, eles falam sobre dificuldades, superações e expectativa da realização do espetáculo de forma segura no ano que vem.

  • Fique em casa: veja a programação carnavalesca em lives e na TV

Superação e falta de dinheiro

Uma estimativa do G1 com base em entrevistas com diretores de escolas aponta que cerca de mil trabalhadores atuem em cada escola de samba do Grupo Especial para fazer um desfile.

São ferreiros, pintores, aramistas, eletricistas, costureiras, aderecistas, passistas, ritmistas e muitos outros profissionais trabalham o ano inteiro para dar vida a um espetáculo de, no máximo, de 75 minutos na Sapucaí. Gente que teve que se virar para pagar as contas com o cancelamento da festa.

Evelyn Bastos, rainha da Mangueira, fala sobre o Rio sem carnaval — Foto: Jorge Soares/G1

A rainha de bateria da Mangueira, Evelyn Bastos, contou que teve sua estabilidade financeira e emocional abalada. Formada em educação física pela Universidade do Estado do RJ (Uerj), viu contratos publicitários sumirem, mas conseguiu se virar: aproveitou para intensificar suas consultorias de atividade física.

“A pandemia atinge drasticamente a nossa vida profissional (…) Na época de carnaval, as mulheres procuradas para fazer uma propaganda ou publicidade são as rainhas de bateria. E esse ano não teve (…) Esse ano, eu intensifiquei as consultorias, peguei mais alunas e eu quis me entupir de trabalho de um outro lado meu, já que a Evelyn rainha de bateria vai ficar off no carnaval de 2021.”

“É um ano assustador para a gente (…) A gente teve ausência de ensaios, fecharam todos os barracões. A gente vê que afeta a todos. Desde o rapaz que é segurança, a costureira, o aderecista, desde alguém que trabalha no administrativo da escola, até a porta-bandeira, mestre-sala. Afeta o carnaval de uma forma geral, os bastidores e artistas. A pandemia deu um soco na gente”, disse a rainha mangueirense, de 27 anos.

Cerca de mil pessoas trabalham para fazer uma escola brilhar na Sapucaí — Foto: Infográfico: Anderson Cattai/G1

Desespero para se sustentar

Costureira Ana Aparecida lembra momentos de dificuldade na pandemia — Foto: Jorge Soares/G1

As dificuldades foram ainda maiores para a costureira Ana Aparecida Ferreira Silva, de 57 anos, que trabalha há mais de 20 anos produzindo fantasias. Após a suspensão dos trabalhos na União da Ilha, ficou sem fonte de renda e começou fazer o que podia para tirar seu sustento.

“Foi muito difícil. Até então, eu achei que a pandemia não ia nem chegar aqui, mas acabou chegando e modificando tudo. Eu não sabia o que fazer. Fiz umas faxinas, passei roupa, trabalhei até na casa da minha irmã e comecei a fazer máscara em casa”, contou Ana Silva.

“Uma amiga trabalha com sublimação e falou ‘vamos fazer máscaras personalizadas?’. Eu topei. Foi aí que eu fui saindo do buraco. Foi muito difícil. Atrasou conta de luz, conta de água, alimentação estava precária. Eu tive que ser inscrita no ‘Ritmo Solidário’ para ganhar cesta básica”, disse a costureira, explicando como conseguiu se reerguer e mencionando um projeto social que distribuiu alimentos para trabalhadores do carnaval.

Além de ações solidárias, os profissionais das escolas e blocos podem ter ajuda financeira da prefeitura, que já anunciou um edital para auxílio de R$ 3,2 milhões ao carnaval de rua, e prometeu anunciar em breve uma ajuda para as escolas de samba.

‘Supercarnaval de 4 meses’ após vacinação

Pedro Ernesto fala sobre superação no carnaval do Bola Preta — Foto: Jorge Soares/G1

O drama vivido pelas escolas de samba se repete para quem faz carnaval de rua. O presidente do Cordão do Bola Preta, Pedro Ernesto, disse que o tradicional grupo – que já arrastou mais de 2 milhões de foliões pelo Centro do Rio – teve que suspender uma obra estrutural na sede do bloco e cancelar os ensaios musicais.

“Estamos com nossos músicos parados desde então. Os músicos trabalham o ano inteiro em eventos, aniversários e confraternizações. Para piorar, o melhor período de receita é o pré e o carnaval. E a gente não vai ter nenhum dos dois”, disse o presidente do bloco, que completa 103 anos de existência.

Marinho projeta um “supercarnaval” assim que a imunização for concluída. Para isso, reforça a fé diariamente na distribuição da vacina para a população.

“O único caminho que nós temos para afastar esse vírus da sociedade, para a vida voltar ao normal é, justamente, a vacina. Essa é nossa esperança. Eu digo sempre: vacinem-se, aproveite o momento que você estiver no período de vacinação. Vai ser dessa forma que a gente vai voltar ao normal. Em 2022, vamos ter um carnaval inesquecível. Se a imunização for feita até outubro, vamos ter um supercarnaval de quatro meses. A gente vai estar festejando não só o carnaval, mas festejando a vida.”

Respeito pelas vidas perdidas

Após adiar a comemoração para julho, o prefeito Eduardo Paes anunciou o cancelamento do carnaval de 2021 por causa do coronavírus. Apesar das dificuldades enfrentadas, a decisão foi tida como “certa” para grande parte dos envolvidos na grande festa.

“A gente vai precisar dar um passo para trás, a gente vai precisar recuar. Com tanta gente que morreu por causa da pandemia, as dores de todas as famílias. Infelizmente, a gente não teve o que fazer. Não teve saída, para onde correr, não teve jeito. A gente está falando de saúde, de perdas de vida. A gente precisa ter esse conhecimento, esse respeito. Existe gente ainda que está morrendo”, afirmou Evelyn Bastos.

A retomada das atividades após a imunização é aguardada ansiosamente por Ana Aparecida, que trata seu ofício como uma terapia.

“Estou muito ansiosa para o próximo carnaval. Queria dormir hoje e acordar amanhã já fazendo os protótipos. Não é só pela parte financeira, é por tudo. Sua mente abre, você vê pessoas diferentes. Você dá bom dia para o porteiro e já entra feliz no barracão. Você não vê ninguém triste”, disse a costureira.

A pandemia interrompeu um ciclo secular de carnavais do Cordão do Bola Preta, que nunca deixou de desfilar desde a fundação. Para Pedro Ernesto, a retomada em 2022 representará um “novo ciclo”.

“De um lado, a gente fica triste por interromper essa trajetória. De outro, a gente prefere manter nossa saúde e voltar muito forte em 2022. Será um novo ciclo de vitórias e glórias para nosso eterno Cordão da Bola Preta. A gente nunca deixou de fazer carnaval. (…) O Bola Preta nasceu na época da pandemia da gripe espanhola, mas mesmo assim, em 1919 o povo foi para a rua festejar o carnaval”, disse o presidente do bloco.

Prejuízo de R$ 2,4 bilhões à cidade

A folia de 2020 movimentou a economia carioca em cerca de R$ 4 bilhões de acordo com dados da Prefeitura do Rio. Segundo a Riotur, a cidade recebeu 2,1 milhões de turistas – 77% brasileiros e 23% vindos do exterior.

O dado representou um crescimento de 8% em comparação com a festa de 2019, quando a cidade teve uma receita de R$ 3,7 bilhões – tendência de aumento de ano a ano seguida desde 2016 e que a pandemia interrompeu.

Na opinião do economista e professor do Ibmec Ricardo Macedo, a movimentação econômica de 2021 no Rio não deve valor ultrapassar 40% do total de recursos que circulou na cidade no ano passado. Ou seja, um prejuízo de cerca de R$ 2,4 bilhões.

“O turista interno gasta menos e fica menos tempo na cidade. A falta dos eventos acaba também desestimulando esse turista. Não é que você não tenha uma movimentação econômica, mas ela vai cair bruscamente. Pode cair muito mais do que a metade. Talvez seja 30% ou 40% da movimentação de 2020. A arrecadação (do governo) vai ser muito pequena”.

O economista aponta como a principal preocupação a arrecadação do Imposto Sobre Serviços (ISS), que pode ter queda de 50%.

“A cadeia produtiva parou. Os camarotes, os blocos, os ensaios, os eventos não estão acontecendo. E todos os trabalhadores que seriam contratados e iriam contribuir com impostos para o governo foram para a informalidade”, explica.

Números dos carnavais passados no Rio — Foto: Infográfico: Elcio Horiuchi/G1

O G1 pediu também à Riotur uma expectativa de movimentação econômica no carnaval, mas a pasta informou que só vai medir os números após o feriado.

“Como não houve situação parecida em outro ano, não há parâmetros para qualquer previsão. Vale ressaltar que os equipamentos turísticos e a rede hoteleira estão trabalhando com um bom número, algo em torno de 50 a 60% do público do ano passado, o que nas condições atuais pode ser considerado bom”, diz a Riotur.

Mais de 90% de turistas brasileiros

A rede hoteleira, de fato, trabalha com a expectativa de que a ocupação atinja 65%.

Até a última prévia, de 1º de fevereiro, a média de ocupação dos hotéis do Rio de Janeiro era de 41%, levando em consideração as reservas feitas para o período entre os dias 12 e 16 de fevereiro. De acordo com o Sindicato dos Meios de Hospedagem do Rio de Janeiro (Hotéis Rio), no ano passado a cidade registrava ocupação prevista de 78% no mesmo período antes da festa.

Entre os turistas que já reservaram hotéis, 92% são brasileiros – quase todos vindos da própria Região Sudeste, principalmente São Paulo, outros lugares do Estado do Rio e de Minas Gerais. Apenas 8% são estrangeiros – a maioria norte-americanos, argentinos e chilenos.

A taxa de locação de imóveis de temporada no Rio também nunca esteve tão baixa como neste carnaval – apenas 35%. É a menor registrada neste período, segundo o Conselho Regional de Corretores de Imóveis do Rio de Janeiro (Creci-RJ).

A expectativa é que, durante o carnaval, a taxa chegue a, no máximo, a 50%. Os preços das diárias caíram 30% em média.

Com a pandemia, muita gente optou por alugar um imóvel para o carnaval fora da capital. Em cidades como Angra dos Reis, na Costa Verde, e Petrópolis, na Região Serrana, a taxa de ocupação está em quase 100%.

O impacto da falta de carnaval também é grande no setor de serviços. O Sindicato de Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro (SindRio) não estimou o prejuízo, mas informou que anualmente o carnaval é responsável por um incremento de R$ 25,97 milhões no faturamento do setor apenas no município do Rio. No estado, esse valor alcança R$ 51,73 milhões.

Durante o período do evento, os bares e restaurantes do Rio geram cerca de 1,2 mil vagas temporárias para garçons, cozinheiros e outros profissionais do setor.

A Associação de Lojistas do Saara, maior shopping a céu aberto do Centro do Rio de Janeiro, prevê uma redução de até 40% no volume de vendas de produtos de carnaval em 2021.

As lojas do local atendem a demanda de muitos foliões com produtos no varejo e vendem também no atacado, para as escolas de samba. As lojas já enfrentavam problemas desde o começo da pandemia.

Por , em 2021-02-12 04:00:00


Fonte g1.globo.com



Clique aqui e saiba mais sobre o Super Kit de Moldes + Curso de Costura do Zero. Clicando agora você ganha mini kit gratuito para imprimir + aula grátis.

Deixe um comentário