O preço do progresso – [Blog da Solange Pereira]

Era uma vez uma sociedade que vivia sem medo. Todas as pessoas tinham emprego: o sapateiro, ou remendava as botas que precisavam de tombas, ou fazia, para os mais abastados, os sapatos por medida; a tecedeira batia no seu tear a lançadeira que dava feitio e forma à manta de farrapos; a costureira fazia a roupa interior, a modista tirava dos figurinos os modelos que confecionava para as freguesas mais abastadas; o alfaiate, entre primeira e última prova, lá se iam uma a duas semanas. Mas pouco a pouco a industrialização substituiu o sapateiro e o calçado apareceu nas grandes sapatarias, mais catitas e prontos a calçar; as roupas apareceram aos milhares e os provadores dispensavam as provas e contraprovas da modista ou do alfaiate; o artesão ficou desempregado, assim como o latoeiro, o guarda-soleiro, o compõe loiças e guarda-sóis; e assim foram acabando os sapateiros, os alfaiates, as tecedeiras, como profissionais e apenas, como breves lampejos do passado, aparecem como artesãos que se olha com curiosidade e bonomia. São resistentes a desistentes de uma sociedade que o progresso matou. Não matou apenas, matou também Marx ao substituir o braço do homem pela destreza da máquina, isto é, ao transformar o trabalhador agrário em operário fabril. A estas mudanças se chamou revolução industrial. Revolução porque revolucionou o trabalho. O mesmo vai acontecer com as energias renováveis: vão acabar com os trabalhadores das atuais refinarias. Os fósseis e seus derivados são cadáveres adiados. O progresso tecnológico fez, e continuará a fazer aos empregos e aos empregados, o que a mecanização fez ao artesanato. Isto é inevitável, isto é o desenvolvimento, isto é o progresso, e progresso significa sempre uma revolução no trabalho. Isto é mau para os mais velhos. Não se trata apenas duma substituição trata-se de uma extinção de postos de trabalho. Cria-se um novo chão e nele só os mais novos sabem caminhar. Por isso, entendo os medos dos trabalhadores da Refinaria de Leixões; têm razão de ter medo porque a extinção é real e inexorável. O progresso é um empurra dos mais velhos pela geração mais nova. Os trabalhadores das refinarias sentem e pressentem, como gripe que dá sinais, que estão em risco de ficar sem emprego, como ficaram os portageiros das autoestradas ou os empregados das alfândegas com a livre circulação de bens e serviços. Havia um pai que disse ao filho para se empregar numa alfândega porque as fronteiras nunca acabariam e assim ele teria emprego para toda a vida. Enganou-se com o Acordo Schengen. São evidentes e constantes os apelos à tecnologização empresarial. Compreende-se porque a máquina não recebe terceiro mês pelo natal, nem subsídio de férias e não tem aposentação, não tem gripes, epidemias, nem precisa de lares da terceira idade. A nossa civilização está a desumanizar-se? Ainda não. Basta haver um apelo e a resposta solidária aparece de imediato.

DESTAQUE

A nossa civilização está a desumanizar-se? Ainda não. Basta haver um apelo e a resposta solidária aparece de imediato.

Por , em 2021-02-07 21:28:29


Fonte www.diariodominho.pt



Clique aqui e saiba mais sobre o Super Kit de Moldes + Curso de Costura do Zero. Clicando agora você ganha mini kit gratuito para imprimir + aula grátis.

Deixe um comentário