Trabalho manual é um luxo procurado – [Blog da Solange Pereira]

Estamos confinados e sem termos para onde ir, mas não é isto que faz parar os ciclos da indústria da moda, nem a quintessência das marcas de luxo. Por estatuto próprio, muito acima das Semanas de Pronto-a-Vestir, a Semana de Alta-Costura de Paris propõe sonhar com peças únicas e à medida, artesanais e com materiais preciosos. Neste momento, sonhar é também o que nos resta, para além da desgraça pandémica.

Tempos difíceis despertam um desejo instintivo por autenticidade, dizia Coco Chanel, a fundadora de uma das ‘casas’ de alta-costura que se apresentou em Paris, entre 25 e 28 de janeiro. Alargando o conceito de autêntico para aquilo que é precioso e único, o desfile digital da Chanel para a primavera/verão que se avizinha preenche ambas as características. O Grand Palais é o local escolhido, transformado numa cena de casamento, em que os convidados estão representados pelas três dezenas de manequins que desfilam. A audiência física, essa, resume-se a embaixadoras da marca, como as atrizes Penélope Cruz, Marion Cotiilard, Alma Jodorowsky, Vanessa Paradis e a filha Lily-Rose Depp, bem como a princesa do Mónaco, Charlotte Casiraghi (que desde janeiro integra o grupo de porta-vozes) e Caroline de Maigret.

Charlotte Casiraghi é embaixadora da Chanel desde janeiro e protagoniza a nova campanha, fotografada no Mónaco

D.R.

O que mais salta à vista na coleção é a evidente aproximação do conceito de alta-costura ao vestuário mais prático, em linha com o caminho que a moda em geral está a seguir, com a ausência de eventos formais. Calças largas com boleros e coletes abotoados com saias em tweed, com sapatos baixos ou rasos, são uma parte considerável das propostas, às quais se somam os vestidos bordados (compridos e curtos) e as saias compridas em tule e organza, por exemplo. No final, a inevitável noiva, que chega num cavalo branco. À parte o romantismo da situação, o que prende a atenção é o vestido (tipo casaco-camiseiro ajustado, em crepe de cetim cru, cauda, gola e punhos de camisa). Ou melhor, os acabamentos (bordados de borboletas em strass e pérolas).

Nos desfiles de alta-costura, os detalhes dos ornamentos são tão ou mais importantes do que as formas e os cortes dos tecidos. No caso da Chanel isto ainda é mais válido, porque é a única na alta-costura que tem uma empresa subsidiária que agrega todos os ateliers e manufaturas que materializam a imaginação de Virginie Viard, diretora criativa. As ditas borboletas em strass e pérolas têm origem na Lesage, lendária pelos bordados opulentos que cria para casas de alta-costura, desde 1924. O desfile no Grand Palais é um reflexo da estratégia da Chanel na preservação do que é precioso e único, que passa pela aquisição dos melhores ateliers franceses em cada um dos saberes manuais. Isto, aliás, é um legado da própria Coco Chanel e das peças de referência da marca. Os sapatos bicolores, em bege e preto, são feitos pelos sapateiros da Massaro desde 1957, enquanto a Lemarié dedica-se às icónicas camélias, há cerca de 60 anos.

Os bordados em strass e pérolas, no vestido de noiva da coleção primavera/verão de alta-costura da Chanel, são da autoria dos artesãos da Lesage

Os bordados em strass e pérolas, no vestido de noiva da coleção primavera/verão de alta-costura da Chanel, são da autoria dos artesãos da Lesage

D.R.

Sapatos, chapéus, luvas, plumas, botões, bordados, bijutaria e joias, mais os tecidos, caxemiras, tweeds e couros – e tudo o que está presente no desfile – têm origem nas oficinas e fábricas manuais que integram a Paraffection, empresa criada pela Chanel em 1997. À primeira vista, assumir o controlo de cerca de 30 fornecedores, imprescindíveis a um sector, soa a abuso de posição dominante. A realidade, no entanto, não é essa porque nenhum deles tem exclusividade, continuando a produzir de forma autónoma para outros clientes, inclusive marcas concorrentes. Além das consequentes economias de escala, o interesse da Paraffection, tal como a denominação indica, é por amor às técnicas de produção manuais e ancestrais, em particular às oficinas e atelieres que representam a herança artesanal associada ao luxo francês.

A grande maioria de integrantes da Paraffection tem origem em França. Ao longo dos anos e em particular na última década, porém, a Chanel tem agregado em outras geografias (todas na Europa) fornecedores, que passam a ser parte integrante da holding que detém a mais reconhecida marca de luxo e de alta-costura. Até à data, Portugal não faz parte do grupo, apesar do histórico nacional na produção para insígnias internacionais, em termos de calçado e têxteis. Esta é uma hipótese que pode estar em aberto, porque o coronavírus não para a busca da Chanel por mais produtores. Na verdade até parece acelerar, com o crescendo de novas aquisições de empresas que se dedicam ao trabalho manual e fabrico artesanal. Só em 2020, a Paraffection é reforçada com a integração das italianas Vimar 1991 (fios de fantasia), Conceria Gaiera Giovanni (transformação de peles) e Ballin (calçado).

A Desrues produz os botões da Chanel, bem como as bijutarias

A Desrues produz os botões da Chanel, bem como as bijutarias

D.R.

Parece, portanto, que a Chanel não tem receio das consequências da pandemia, talvez por saber que em períodos de crise agudizam-se os fossos sociais e o consumo de luxo tem tendência para crescer, em particular nos produtos mais exclusivos e ainda com mais qualidade. A matriz da alta-costura é o fabrico por encomenda e em quantidades limitadas, em oposição ao pronto-a-vestir massificado. É um nicho dentro da indústria do luxo que representa uns parcos 4.000 clientes a nível mundial, maioritariamente na Ásia e no Médio Oriente, mas também nos Estados Unidos e na Rússia, por exemplo.

Os perfis de clientes são em linha com os preços (um vestido pode custar a partir de €100 mil e ultrapassar um milhão). São aqueles que podem e querem preciosidades únicas e encontram-se entre as famílias reais, os herdeiros de magnatas históricos e outros tantos ultra-ricos, sejam lá quais forem as suas origens. Para satisfazer as expectativas destes compradores, a Chanel precisa de ter a garantia da existência e sustentabilidade dos ateliers e das manufaturas. Karl Lagerfeld, diretor artístico da Chanel de 1983 até morrer em 2019, chegou a afirmar que sem eles não saberia como materializar as suas criações.

A carteira de noite em acrílico e ferragens em ouro, do desfile Métiers d’Art de 2010, foi leiloada na Christies em 2018 por 35 mil dólares (€30 mil), cinco vezes mais do que o valor máximo estimado

A carteira de noite em acrílico e ferragens em ouro, do desfile Métiers d’Art de 2010, foi leiloada na Christies em 2018 por 35 mil dólares (€30 mil), cinco vezes mais do que o valor máximo estimado

D.R.

A reverência em relação ao papel determinante das profissões artísticas leva Lagerfeld a criar, em 2002, o desfile anual Métiers d’Art, que declina todas as áreas envolvidas na concretização das suas peças. Da roupa aos acessórios, passando pelo calçado, carteiras e joias, incluindo componentes como atacadores, botões, ferragens, fios e plumas. Objetos tocados por mãos e com a magia da alma. Pessoas e saberes às quais a Chanel quer assegurar a continuidade nas novas gerações, ao financiar cursos de formação em cada uma das disciplinas. A atribuição de vários prémios em França tem distinguido o contributo económico e social da Paraffection, ao longo dos anos. Os mestres artesãos e os seus discípulos agradecem. E a alta-costura também.

Chanel

https://www.youtube.com/watch?v=1GzwIzGwk_k (desfile de alta-costura primavera/verão 2021)

https://www.chanel.com/

Por , em 2021-02-05 11:13:00


Fonte expresso.pt



Clique aqui e saiba mais sobre o Super Kit de Moldes + Curso de Costura do Zero. Clicando agora você ganha mini kit gratuito para imprimir + aula grátis.

Deixe um comentário