Brumadinho: bairros viraram vilas-fantasma após rompimento de barragem – [Blog da Solange Pereira]

Sob o sol escaldante que deixa a paisagem contraditoriamente muito viva, a vegetação teima em crescer no solo tomado pelos rejeitos da mineração após o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, na região metropolitana de BH, ocorrido em 25 de janeiro de 2019. O trajeto pelo Parque da Cachoeira – bairro que teve as partes mais baixas tomadas pelo mar de lama –, a partir do fim da rua Doutor Iraci Laurindo Pereira, tem apenas casas que, antes cheias de vida, estão abandonadas e destruídas. É o que mostra a segunda reportagem da série que O TEMPO publica sobre a situação no local.

Uma das poucas moradoras que ficaram, a costureira Gecilda Moreira Rocha, 64, vê todos os dias da varanda de casa a área atingida pelo minério. “Meus netos estavam todos aqui, eram férias. Eles viram a lama chegando e destruindo tudo. Parecia barulho de tiroteio, depois achamos que fosse fogo. Nos primeiros dias, eu tinha a sensação de ouvir gritos e fiquei um pouco atordoada”, reflete.

Praticamente todas as casas da rua foram compradas pela Vale. Restaram o mato alto nos terrenos, depredação e poucos objetos pessoais deixados para trás. Piscinas e caixas-d’água se tornaram criadouros de dengue. “Só tenho um vizinho, e tem uma moça que não mora aqui, mas vem sempre. Todo mundo ficou desolado, muito triste. Antes tinha muita casa, mesmo sendo uma rua pacata, as pessoas passavam e cumprimentavam”, conta.

 

O irmão dela, que morava ao lado, deixou o bairro para construir nova vida em Mário Campos, na mesma região. “Com a gente, a Vale ainda não acertou. Já enviamos toda a documentação”, garante Gecilda. Apesar da angústia, ela tem esperança em dias melhores: “É uma vida toda. Fomos fazendo tudo de pouquinho em pouquinho, mas é assim mesmo. Precisamos jogar o barco para frente e remar”.

O marido dela, João Carrilho Rocha, 75, lembra-se bem de ter salvado um cão dos rejeitos. “Estava amarrado e não conseguia fugir. Horas depois, veio correndo em minha direção, com aquele olhar de gratidão. Muito triste tudo o que aconteceu”, recorda. Um dos netos do casal, que na época do desastre tinha 8 anos e estava no imóvel, perdeu o gosto de visitar a casa. “Quando vem, pede para ir embora antes de escurecer”, lamenta Gecilda.

Córrego do Feijão: cinco mortos a cada rua

No bairro que deu nome à mina da Vale, o futuro continua incerto e moldado pelo maior desastre do país. Dos quase 600 moradores na época do rompimento, restaram pouco mais de 200, conforme o presidente da associação de moradores, Jeferson Custódio Santos Vieira, 22. “Fui criado aqui e, de repente, tudo desapareceu. Só do bairro, morreram umas 27 pessoas. São quase cinco por rua”, diz.

Segundo ele, a Vale comprou diversos terrenos e casas na região, mas largou as estruturas. “Eles compram por comprar, deixam elas (as áreas) paradas. E lugares que eram muito bem-cuidados vão enchendo de mato. Têm lixo, foco de dengue”, reclama.

A família dele ainda não foi reparada pela empresa. “A Vale tem dificultado bastante (as negociações)”, reclama. Ele também se queixa de que a mineradora se nega a reparar danos psicológicos, diferentemente do que acontece na sede. “Deixa de lado aqui para fazer em grande quantidade e ganhar destaque”, critica.

 

Antes bucólico, local está abandonado

Córrego do Feijão, bucólico e próspero antes do desastre, se transformou em vila- fantasma. Poucos dos comércios permaneceram. “Era um lugar de pessoas trabalhadoras que ficou vazio e triste”, descreve Jeferson Vieira, presidente da associação de moradores.

Ele perdeu a avó, Diomar Custódio, que morreu no desastre, aos 57 anos. Responsável pela criação dos netos, ela trabalhava na Pousada Nova Estância, a menos de 3 km do Córrego do Feijão e no caminho da lama. “Ela foi encontrada em 26 de janeiro e sepultada em 14 de fevereiro. Por conta do estado do corpo, a identificação demorou muito. Nem pôde ter velório direito”, lamenta ele, que deseja refazer a vida em outro lugar.

Acostumados com a vida pacata de antes, idosos sofrem mais com os reflexos do desastre. O vazio passou a tomar conta da rotina. “Com o rompimento, tivemos o adoecimento mental deles, e muitos morreram”, lamenta. A bisavó dele faleceu em 2020. “A única filha mulher que ela tinha era minha avó (que morreu soterrada pela lama). Com a perda, ela piorou bastante”, lamenta.

 

Empresa diz que assiste atingidos

Procurada pela reportagem sobre as queixas de moradores, a Vale respondeu, em nota, que disponibilizou gratuitamente aos indenizados, por dois anos, o Programa de Assistência Integral ao Atingido, com “apoio psicossocial e educação financeira”. Conforme a Vale, mais de 3.000 já aderiram à iniciativa.

Sobre as indenizações, a mineradora alegou que segue critérios do Termo de Compromisso firmado com a Defensoria Pública do Estado, em abril de 2019, e que está à “disposição para esclarecer o motivo da não conclusão de demandas”.

A empresa negou que os imóveis adquiridos em Córrego do Feijão e Parque da Cachoeira estejam abandonados.

 



Por , em 2021-01-26 03:00:00


Fonte www.otempo.com.br



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