O valor do estilo – Feminino & Masculino – [Blog da Solange Pereira]

(foto: arquivo pessoal)

 

Antnio Diniz faz parte do time de estilistas que viram a moda mineira nascer e sabe contar como esse movimento evoluiu para chegar at hoje. Muita bagagem e um olhar sempre contemporneo so o arsenal que dispe para garantir atuao constante em um mercado voltil e ligeiro, que flerta com a sazonalidade e com o efmero.  A vocao para o fashion se materializou, primeiramente, como modelo da lendria agncia Neneca Moreira; logo aps, se tornou produtor de moda, marcando presena em publicaes especializadas e eventos importantes na cidade. Com a experincia de um curso de modelagem no currculo, chegou alfaiataria de Hermano Alves, o alfaiate dos homens elegantes da cidade – na poca trabalhou com ele e, depois, com o filho, Marcelo, na marca Blade Runner, tambm especializada em moda masculina. Com ambos aprendeu todos os segredos da boa modelagem e a preciso da alfaiataria. 

 

O encontro com a moda feminina se deu com o convite para trabalhar na DTA, que lhe deixou como legado o conhecimento de todos os meandros do universo do jeanswear. Da pra frente, o nome de Antnio Diniz est ligado a empresas de sucesso, algumas delas muito queridas – como a Skunk, na qual dirigiu as colees por 18 anos, e a Padronagem, parceria que vai pra l de duas dcadas. Agora, em 2021, Toninho, como conhecido, est colocando em ao um projeto que vem acalentando h algum tempo e ganhou fora com a pandemia: a criao da A.Criem, uma associao de criadores e estilistas que chega para fortalecer a profisso, os profissionais, incentivar as colaboraes e aes conjuntas. Para alm da concorrncia de mercado, ele conhecido no s por arregaar as mangas da camisa no trabalho, mas, particularmente, pelo seu temperamento amigvel e agregador.

 

“O estilista hoje precisa ter um felling comercial apurado, o ndice de acerto tem que ser de 95%, pois ns somos responsveis por uma cadeia produtiva”

 

 

O que o levou ao universo da moda? Qual foi o primeiro insight nessa rea?

Desde criana, sempre gostei da moda. Ela me fascinou tanto que era eu quem fazia os vestidos das bonecas da minha irm, adorava vesti-las de noivas, madrinhas, sempre com muito luxo. Tive uma tia costureira e era ela quem me dava os retalhos de tecidos que sobravam das roupas das suas clientes. Foi ela tambm quem me ensinou a cortar as miniaturas para as bonecas. Meu maior insight foi quando conheci a modelo Ariah, com quem eu fiz um curso de modelo; aps isso, a moda virou rotina para mim.

 

Quais foram suas primeiras experincias profissionais no setor?

Alm de modelo e produtor de moda, fui professor do curso de manequim da agncia Script, de Mrcio Machado. Como produtor, atuei como assistente de produo da jornalista Moema Tedesco em um trabalho incrvel: a Femina, uma feira de beleza da empresa Tecnitur, dirigida por George Norman. Na poca, 1982, foi um evento de vanguarda para Minas. Fiz tambm vrias capas para o Jornal de Casa com grifes e modelos famosas da cidade. Meu ltimo trabalho como produtor foi no programa Portflio de moda, na rede Bandeirantes, com patrocnio do grupo Ferreira Guimares, no qual Margareth Marinho entrevistava os estilistas e havia um minidesfile da marca. Comeamos com o Grupo Mineiro de Moda e, aps, vieram outras marcas de expresso no cenrio mineiro.

Voc teve algum que o incentivou no momento inicial?

As duas pessoas que mais me incentivaram a ser estilista foram Moema Tedesco e a Ariah, para quem eu j fazia vestidos.

Quais eram seus sonhos no incio e quais so os de agora com relao moda?

No incio, era me tornar conhecido e a moda reconhecer o meu trabalho. Meu sonho, agora, ver colabs, coletivos. Cada vez mais sonho com a unio de criadores para colaborar, no s com a montagem de colees, mas tambm em eventos de moda. Percebo que, quando temos um coletivo nessas reas, os resultados so gratificantes. Os frutos colhidos ou produzidos tm maior sucesso do que um trabalho solo. O brilho no s de um, mas de todos. Isso est acontecendo, cada vez mais, mundialmente, como o caso da marca italiana Gucci, que vem seguindo essa linha.

Voc comeou a trabalhar nos anos 1980 e continua atuante no mercado. Qual a frmula para isso?

No fcil, mas ser responsvel, ser humilde e ser disciplinado so requisitos para continuar trabalhando por tanto tempo, alm de muita leitura, pesquisa, estudo e reciclagem sempre, seja fazendo outros cursos de extenso ou trabalhando com recm-formados. Estilistas mais jovens renovam a cabea da gente.

Para se manter, um estilista precisa trabalhar para duas, trs marcas de estilos diferentes a cada estao. Como isso?

O cenrio atual requer isso, mas depois da reforma trabalhista esse modelo acontece em vrios setores, so poucas as empresas que tm estilistas fixos e trabalhando em regime CLT. Ns, que somos PJ, nos enquadramos nessa possibilidade. No fcil trabalhar para duas ou trs marcas, desgastante, pois temos que montar, s vezes, trs colees ao mesmo tempo, com perfis diferentes. Nada pode ser igual, mas gratificante quando vemos essas colees prontas, fotografadas e vendidas. O estilista hoje precisa ter um felling comercial apurado, o ndice de acerto tem que ser de 95%, pois somos responsveis por uma cadeia produtiva, vendedores, gerentes, consultores de moda, costureiras, cortadores e terceirizadores.

Como o seu trabalho de pesquisa?

O meu ponto de partida o DNA da label, quem a mulher que ir vestir a coleo, depois vem muito trabalho de pesquisa de shapes, cores, tema e tendncias e, finalmente, o mood. Gosto muito de contar uma histria, por isso sempre recorro histria da moda, dcadas etc.

Voc esteve frente do estilo da Skunk durante muitos anos, de forma integral. O que o levou a voltar para Belo Horizonte?

Estive na direo criativa da Skunk por 18 anos. uma empresa mpar, fizemos colees memorveis, alm do reposicionamento da marca no mercado com as participaes no Minas Trend, com uma nova viso de coleo e matria-primas de alta qualidade, estamparia exclusiva e acabamento impecvel. Infelizmente, o cansao da viagem de Belo Horizonte a Juiz de Fora, alm dos problemas na coluna cervical, me fizeram repensar e tive que sair de l.

Teve dificuldades para se integrar ao mercado?

No tive. Como a Skunk sempre teve um trabalho impecvel, j tinha assdio de outras empresas de Belo Horizonte para trabalhar. No deu tempo nem de umas minifrias.

Voc tem sido agregador no sentido de imprimir um conceito de unio entre os colegas. Como isso est caminhando?

Em janeiro, teremos a eleio da A. Criem – Associao dos Criadores e Estilistas de Minas Gerais. Essa foi uma necessidade que comeou junto com a Covid, pois vrios criadores ficaram sem emprego, ainda temos muitos que esto com seus salrios reduzidos e alguns sem trabalho. A ideia principal a colab entre os criadores em relao s nossas necessidades. J estamos desenvolvendo aplicativos atravs dos quais o criador associado vai ter acesso a fornecedores de todos os setores: txtil, acabamentos, representantes… Estamos olhando tambm para o plano social, acesso aos planos de sade, seguros etc.

Pretendem criar uma associao representativa? isso?

Sim, estilistas renomados ocuparo cargos na diretoria na primeira gesto, 2021-2023. Estarei na presidncia, Renato Loureiro na vice-presidncia, Fernanda Mendes na secretaria, Vivente Fernandes na tesouraria. A diretoria de relaes pblicas ser assumida por Victor Dzenk, a acadmica por Heloisa Amncio e a de inovao e negcios por Thalita Rodrigues. Para completar, Andrea Aquino ocupar a diretoria de marketing e eventos, Ana Paulo Sudano a de economia circular, e Celso Afonso a de calados e acessrios. Alm disso, teremos um grupo fortssimo de conselheiros ligados ao setor, pessoas que vo nos ajudar muito na caminhada. Agradeo desde j nossa mentora, Wanessa Cabidelli, e ao Rogrio Vasconcelos, que nos acolheu no Sindivest-MG – Sindicato da Indstria de Vesturio de Minas Gerais.

H pouco tempo, voc fez curso de especializao no Rio de Janeiro. Gostaria de se tornar professor?

Fiz uma ps-graduao no Senai-Cetiquet do Rio de Janeiro em design e produto de moda. Gostaria muito de ser professor, repassar o meu conhecimento de 30 anos no setor.

A seu ver, qual a principal carncia das escolas de moda dentro da realidade do mercado profissional?

A principal realidade posicionar o aluno no mercado, o que ele realmente vai viver e presenciar trabalhando dentro de uma empresa. Temos restries nas criaes, o criador no executa tudo o que ele cria e isso pode gerar frustraes, a no ser que ele v ser autoral, ter a sua prpria marca.

Voc um crtico das blogueiras e influencers que tomaram conta da moda. Por qu?

Sou um pouco cido nessa questo, porque sempre achei que moda um negcio muito srio. Em Paris, as crianas j aprendem, na escola, a importncia da moda para o seu pas. Mesmo que elas no ingressem no setor, sabem da responsabilidade de defend-lo e apoi-lo. No Brasil, raro ver uma empresa com esse conceito e conscincia. Gostaria at de fazer um desafio de montar uma exposio com duas ou trs peas de todas as colees de uma empresa desde sua fundao. No temos ainda esse conceito de que precisamos guardar arquivos, fotos, desenhos etc. Um dia, poderemos recorrer a eles para revisitar e criar outras colees, o ciclo assim. Ento, no posso acreditar em pessoas que no tm o mnimo de histria, que nunca estudaram moda, de gosto muito duvidoso na maioria das vezes, movidas apenas por valores. Anunciam produtos em que no acreditam e no usam. Vendem mentiras para uma legio de consumidores sem informao, sem leitura. isso que a falta de cultura e educao provoca. No acredito tambm em quem nunca fez um curso de modelo, que no sabe ser fotografada, que acha que tudo tem que ser muito over para dar certo e que precisa de muito photoshop para dar certo. fcil ser paga para postar dentro desse parmetro. Elas vestem at o que no combinam com elas, mas agregam com acessrios de marcas internacionais em que uma bolsa custa 10 mil euros.

Tem jeito de mudar a cultura?

A Covid veio para selecionar isso, vo permanecer as verdadeiras, as que so muito prximas da realidade. Mas, na verdade, no acredito que  consigam substituir as modelos e, muito menos, as jornalistas de moda. Hoje, j vemos um aceno nesse sentido, labels contratando quem realmente est ligado cadeia, o consumidor no aguenta ouvir mais a expresso “look do dia”.

Se voc fosse dono de uma marca, criaria colees para que perfil de mulher?

Uma mulher chic e minimalista, o que o momento pede.

Com qual designer internacional se identifica na moda, atualmente?

Anthony Vaccarello, da Saint Laurent, e com o prprio Yves Saint Laurent.

Est de olho no trabalho de algum jovem talento?

Sim, o Caio Martins, atualmente na marca Victor Dzenk.

O que ficou em voc da dcada de 1980, de que no abre mo?

O brilho.

O que o inspira alm das, digamos, tendncias da moda?

Histria, cultura, poltica, viagens e escapismo.

Com a pandemia, a moda um dos setores que mais esto sofrendo. Acredita em uma retomada?

Sim , somos guerreiros, e ela est colocando os pingos nos “is”. 

Por , em 2021-01-10 04:00:00


Fonte www.em.com.br



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