Anos 1980 ganham novo revival (sim, mais um) e mostram sua força em séries, filmes e músicas


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O cantor Leo Jaime conta pelo WhatsApp que seu filho adolescente achou o álbum “Plastic hearts”, de Miley Cyrus, lançado em novembro, “muuuuuito bom”. “Vou ver/ouvir”, escreve o músico, de 60 anos. Quando conferir o clipe mais recente, “Prisoner”, um dueto com Dua Lipa, ele vai entrar num túnel do tempo diretamente para os 1980. E ver imagens recortadas e sobrepostas em gravações tipo VHS e Miley com cabelo à la Debbie Harry e sonoridade que diz ser influência de Billy Idol.

O trabalho da estrela pop é um dos sinais reluzentes de que a estética e as referências dos anos 1980 estão com tudo. De novo. Mais uma vez. Agora, consumida e referendada por uma nova geração, como à que pertence o filho de Leo Jaime — ele próprio um ícone da época.

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Os ecos vêm de toda parte. Na música pop, The Weeknd é outro jovem com pegada oitentista. Dua Lipa, no álbum “Future nostalgia”, do ano passado, também bebe nessa fonte, chegando a usar um sample de “Need you tonight”, hit de 1987 do INXS, em sua principal música de trabalho, “Break my heart”. No cinema, em dezembro, o teletransporte ficou a cargo de “Mulher-Maravilha 1984”, com um título autoexplicativo de suas origens. Já o streaming apostará na parte 2 de um clássico da “Sessão da tarde”, “Um príncipe em Nova York”. Programado para estrear em março no Prime Video, Akeem (Eddie Murphy), agora rei de Zamunda, retorna aos Estados Unidos e promete usar os mesmos buttons da primeira versão e visitar o mesmo barbeiro, ainda com propagandas dos produtos Soul Glo, ótimos para domar os mullets. O penteado mais controverso de todos os tempo, aliás, conseguiu a proeza de ser descancelado, graças ao look de jovens cantoras como Billie Eilish e Miley.

Nas séries, a influência também assume cores vibrantes. “Cobra Kai”, cuja nova temporada é uma das mais assistidas da Netflix neste início de 2021, transporta o universo de Karatê Kid para os dias atuais. “The crown”, em 2020, levou a Era Diana e Thatcher ao público e marcou um golaço. Segundo a Parrot Analytics, empresa de análises de dados de entretenimento, esta quarta temporada é a de maior sucesso no mundo. Isso sem falar na expectativa dos fãs com o lançamento dos novos episódios de “Stranger Things”, série pioneira em trazer o universo oitentista para o streaming.

No Brasil, o Globoplay vem apostando em sucessos como “Vale tudo”, “Brega & chique” e “Tieta”, esta última um sucesso estrondoso de público, ficando no top 10 de novelas mais vistas da plataforma.

As hipóteses para este revival do revival, que vem com força 20 anos depois da primeira grande explosão nostálgica no início dos anos 2000 (lembra da Festa Ploc e do “Almanaque dos anos 80”?), são diversas. As principais exaltam a qualidade e diversidade da produção daquele período e o esforço de pais, os adolescentes de outrora, em plantarem nos filhos as sementes daqueles tempos.

— As pessoas olharam para trás e viram que teve coisa boa, que até hoje é referência. A cada três, quatro anos, vemos a exaltação de uma década antes injustiçada — diz o editor Luiz André Alzer, autor do “Almanaque dos anos 80”. — A geração atual se identifica porque vê que foi um mundo mais real. E os pais dessa galera, que têm entre 35 e 55 anos, estão trazendo referências para os filhos.

Uma prova palpável disso? O sucesso de jogos de tabuleiro e outros brinquedos daqueles tempos. De ícone para ícone, Paulo Ricardo conta que, antes do Natal, comprou um “Jogo da vida” para brincar com a família. Bruno Gouveia, do Biquíni Cavadão, é dono de um Pogobol desde pouco antes da pandemia. O que se reflete nos números divulgados pela marca de brinquedos Estrela. Tanto a venda de jogos de tabuleiros quanto a do Pogobol (esgotado, inclusive) mais que dobrou em 2020 se comparada a 2019. Mas as brincadeiras nem precisam ser totalmente analógicas. O game on-line Among Us está aí para provar. Com gráficos simples que lembram os jogos de 8-bits, ele atingiu a incrível marca de meio bilhão de jogadores no mundo em novembro.

As muitas razões por trás do eterno revival

Os anos 1980 são um baú de fundo falso. Quando se pensa que todas as referências estão esgotadas, há sempre algo (res)surgindo. O primeiro “aqui me tens de regresso” foi por volta de 2004, com fenômenos como o surgimento da Festa Ploc, com hits da época, e o lançamento do “Almanaque dos anos 80” (Ediouro). De lá para cá, foi um revival do revival atrás do outro.

O que explica esse ioiô cultural, que vai e volta com tanto vigor? E o que aconteceu nessa época, de passagem do analógico para o digital, que seduz tanto a ultraconectada geração Z?

— Diria que a causa desses retornos é a variedade. Acontecia muita coisa boa naquele tempo — diz Leo Jaime. — Ainda vamos ouvir falar muito sobre esse tema.

O produtor Luciano Vianna tem certeza disso. Até porque viu uma clara renovação do público quando organizou lives diárias da Festa Ploc na pandemia (“Nossa audiência era de 20 anos, gente que não curtiu os anos 80”, diz ele). Bruno Gouveia via algo semelhante também nos shows do Biquíni Cavadão antes da Covid-19. O músico acredita que a primeira onda, aquela do início dos anos 2000, veio para saciar a sede nostálgica dos adultos outrora adolescentes oitentistas. Mais estabilizados financeira e emocionalmente, puderam curtir a década com maturidade. Seus filhos viram esse movimento, mas eram pequenos demais para curti-lo em sua plenitude. Quase 20 depois, chega a vez dessa turma.

— Os jovens do primeiro retorno tinham 14 anos e estão com saudade — reflete.

A hipótese pode ser aplicada a Miley Cyrus, de 28 anos, e a seus principais produtores em “Plastic hearts”, Andrew Watt, de 30, e Louis Bell, de 38. Ela e Andrew eram crianças no início dos anos 2000, ou seja, espectadores pouco participativos na primeira onda, mas puderam senti-la de alguma forma. Já o segundo foi uma criança dos anos 80 e pôde viver plenamente a volta. Certamente está feliz em vê-la de novo.

Professor de Comunicação da Universidade Federal de Minas Gerais e especialista em narrativas e experiências, Bruno Leal acredita que há muita fantasia neste eterno revival.

— São anos idealizados, mais afetivos do que históricos — diz ele, salientando os momentos difíceis do período, como a hiperinflação, a epidemia de Aids e todo um movimento conservador. — Não foi uma década santa, por isso decantam-se os anos a partir de referências amistosas.

Para ele, outro componente que ajuda a explicar este fenômeno é a esperança, ou a falta dela:

— Vivemos uma dificuldade em projetar o futuro. Há alguns anos, ele tem se tornado ameaçador. O passado, então, é um lugar de segurança, principalmente quando limpamos o que ele teve de ruim.

Paulo Ricardo, por outro lado, acredita que este resgate traz uma energia que talvez falte aos movimentos mais recentes. O músico é consumidor voraz das músicas de Miley e The Weeknd (“Ele é puro A-ha”) e outrora dono do mulllet mais cobiçado do país(“Deus me livre, não consigo imaginá-lo reciclado”).

— Esse músicos estão buscando referências estimulantes, sons para que as pessoas se divirtam. Querem trazer o melhor daquela euforia — diz.

Por Talita Duvanel , em 2021-01-10 04:30:09


Fonte oglobo.globo.com

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