Livro narra saga de espião morto por grupos de extrema-direita no Brasil


Clique aqui e saiba mais sobre o Super Kit de Moldes + Curso de Costura do Zero – entrando agora ganhe Moldes grátis para imprimir + aula de teste.

Que relação pode ter a morte de um agente secreto brasileiro e organizações radicalmente anticomunistas no epicentro do governo socialista do presidente João Goulart? Tudo. Em “Um espião silenciado”, obra que mais parece um romance de aventuras, o historiador Raphael Alberti narra a história verídica do jornalista José Nogueira, envolvido nos anos 1960 numa dupla função de repórter e espião do Centro de Informações da Marinha (Cenimar), órgão subordinado às Forças Armadas.

Estreia:José Falero reflete sobre a periferia em “Os supridores”

Talvez nem mesmo John Le Carré, mestre desse gênero no romance, imaginasse uma saga tão mirabolante como a vivida por este cearense de Mundaú, que migrou para o Rio, descrito como um homem inteligente, atlético, um tipo galã, bem articulado, social e politicamente. Para desvendar a vida acidentada e de agente duplo de Nogueira, Alberti trabalhou por quase dez anos até conseguir montar um mosaico de informações e dados que pudesse elucidar —e ainda assim deixando brechas — parte da trajetória desse homem, que numa fatídica noite de 1963 é lançado para a morte da janela do terceiro andar do prédio onde morava, entre a Cinelândia e o Passeio Público.

José Nogueira, jornalista e espião assassinato por grupos da extrema-direita brasileira Foto: Divulgação / Editora Cepe

Pouco se sabe sobre sua infância, família e estudos, apenas que tinha um irmão, sargento da Marinha, e que seu pai fora delegado. Boa parte dos seus amigos, no Rio, era ligada à imprensa. Sobre sua queda, verdadeiro desacerto: a Polícia Civil não realizou qualquer perícia, e Alberti conta que teve negados os laudos cadavéricos da vítima, mesmo de posse de mandado judicial, expedido pelo Ministério Público, com base na Lei de Acesso à Informação.

Para tentar entender a misteriosa morte de José Nogueira, é preciso regredir um pouco. Ele foi uma espécie de faz-tudo de grupos ligados à extrema direita, e de anticomunistas, que tramavam a deposição de João Goulart, desde a renúncia de Jânio Quadros, em 1961. Articulador de diversas frentes, Nogueira fez parte do principal braço desse esquema, o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad), que tinha ramificações, no âmbito civil, com o Instituto de Pesquisa de Estudos Sociais (Ipes) e a Ação Democrática Popular (Abep). Estes, por sua vez, eram ligados de forma ideológica à Cruzada Brasileira Anticomunista (CBA) e ao Comando de Caça aos Comunistas (CCC).

Best-seller:Quem é o autor do livro mais vendido no Brasil em 2020

No campo político-partidário, o Ibad tinha como referência a Ação Democrática Parlamentar (ADP), grupo de políticos que ajudava a eleger, por meio de grosso aporte financeiro obtido clandestinamente entre empresários nacionais e poderoso cartel estrangeiro, ligado ao governo americano, mas chefiado pela CIA.

O livro de Alberti dá a ideia de que Nogueira percebeu, num dado momento de sua militância, que o esquema de que participava era mais criminoso do que imaginava. E quis pular fora, ou passar para o outro lado. Pode estar aí a razão de seu assassinato, especula o autor.

Irmão metralha

Alberti chama a atenção para outro ponto: é por meio das páginas de jornais cariocas, sobretudo o “Diário da Noite” (Nogueira tinha carteira dos Diários Associados), que o repórter passa a denunciar esquemas de corrupção, terrorismo e citar os nomes de envolvidos. Uma semana antes de morrer, teve seu apartamento todo revirado. Segundo declarou a amigos, os invasores estariam atrás de possíveis documentos.

O principal suspeito, inclusive de sua morte, era Joaquim Miguel Vieira Ferreira, o Joaquim Metralha. Envolvido na criação dos principais grupos terroristas, e suspeito do ataque à sede da UNE, em janeiro de 1962, Metralha chegou fundar a Ordem Suprema dos Mantos Negros, cognominada Maçonaria da Noite. Era uma seita nos moldes da Ku Klux Klan americana. O lema, defendido pelo chefe, chamado de “Papa Negro”, embora fosse branco, era de que “dominaremos o inferno”. Os “irmãos”, rigorosamente controlados por ele, eram submetidos a um complicadíssimo ritual de iniciação, que consistia em “prova de coragem, enfrentando um punhal (manejado por mão amiga), um juramento com sangue e por aí afora”, conforme relata o autor em “Um espião silenciado”.

Capa do livro 'Um espião silenciado', de Raphael Alberti Foto: Divulgação
Capa do livro ‘Um espião silenciado’, de Raphael Alberti Foto: Divulgação

O livro abre caminhos para questionamentos provocados pela revelação dessa “micro-história”, que nos conecta com a história maior do país. Além de tudo, “Um espião silenciado” proporciona uma revisita aos bastidores do golpe militar de 1964, seus antecedentes, a atuação dos órgãos de repressão, os seus agentes diretos e indiretos, bem como sobre os demais interessados na tomada de poder no Brasil. Alberti nos faz entender a movimentação de personagens importantes da época, como o governador da Guanabara Carlos Lacerda, Cordeiro de Farias, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, e de Golbery do Couto e Silva, criador e chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI).

O autor nos oferece uma história que instiga e envolve, porque narrada com acuidade e base em documentos e fontes primárias. O “caso José Nogueira”, como ficou conhecido, de fato expõe, ainda hoje, as dolorosas feridas de uma nação que, cúmplice de torturadores, perpetrou seguidos atentados à democracia e ao povo brasileiro.

*Tom Farias é jornalista e escritor

“Um espião silenciado”

Autor: Raphael Alberti. Editora: CEPE. Páginas: 140. Preço: R$ 30. Cotação: Bom

Por Tom Farias* , em 2021-01-09 03:30:30


Fonte oglobo.globo.com

Deixe um comentário