Juliette Binoche: “Aos 18 anos entrei num curso de arte dramática, apaixonei-me por um homem, saí de casa” – [Blog da Solange Pereira]

O realizador francês Martin Provost não imaginou aquela escola feminina, perdida algures nas florestas da conservadora Alsácia, quando escreveu o papel de Paulette para Juliette Binoche em “Manual da Boa Esposa”. Destinada a ensinar as ‘boas maneiras’ a meninas que se queriam obedientes e educadas, aquela instituição é só um exemplo de muitas outras écoles ménagères que existiram de facto, tal e qual, um pouco por toda a França, por mais que tal coisa pareça inverosímil nos dias de hoje. Naqueles pensionatos tradicionais, o ensino elementar do francês e da matemática era acompanhado de aulas de cozinha, de costura e de etiqueta; ali se formavam, como o título indica, as ‘boas esposas’ submissas para o futuro do país. Provost não colocou a ação do filme em 1967 por acaso. A França virou a página e mudou de mentalidade com as revoluções de Paris do ano seguinte e das ditas écoles, logo transformadas em liceus normais e definitivamente extintas em 1970, nunca mais se ouviu falar. É por aqui que chegamos à Paulette de tailleur rosa e saltos altos, tutora de um daqueles estabelecimentos de ensino que, em muitos casos, eram negócios de família.

Juliette Binoche entrou pela porta grande do cinema francês dos anos 80 pela mão de cineastas como Godard, Téchiné e Carax, transformou-se depressa num dos expoentes do star system do hexágono, depois veio o êxito internacional, coroado pela conquista do Óscar por “O Paciente Inglês”, em 1996. O tom de comédia ligeira de “Manual da Boa Esposa” — pese embora outras aventuras dela no género e das quais se recorda o doidivanas “Ma Loute”, de Bruno Dumont — não é inédito, mas é menos frequente no seu percurso. Acontece que o filme de Provost trazia uma história de emancipação feminina “à qual eu não podia dizer que não, especialmente nos dias de hoje, por uma questão de sanidade mental”, contou-nos a atriz a partir do último Festival de Zurique (um dos poucos que conseguiu realizar-se em tempos de pandemia), onde foi homenageada no fim de setembro de 2020. “Escolhi este papel porque julgo importante contar de onde vimos e mostrar como foi o passado de tantas mulheres francesas. Após a II Guerra Mundial em que os homens foram forçados a deixar as famílias, as mulheres ficaram responsáveis por elas, assumindo essa posição de poder. E quando eles voltaram, lidaram mal com essa mudança. A ‘vida moderna’ que se promoveu em seguida no pós-guerra e ao longo de toda a década de 50 significou para as mulheres um retrocesso, um novo regresso ao patriarcado. Era o tempo em que os eletrodomésticos começaram a chegar às casas. E quem os manuseava? As mulheres, claro, cercadas entre a cozinha e a educação dos filhos. O filme de Martin fala-nos desse tempo com uma grande subtileza. Com a tal ‘vida moderna’ chegava às nossas vidas todo um pacote perfeito — e a mulher fazia parte do conteúdo. Com isso estava implícito a submissão dela ao marido.”

Por , em 2021-01-09 07:16:00


Fonte expresso.pt



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