Já pensou em receber a visita dos reis magos? Em Campo Alegre, isso é tradição – [Blog da Solange Pereira]

Há mais de 60 anos, os reis visitam os campo-alegrenses relembrando sua participação na história bíblica; neste ano, costume foi interrompido pela pandemia

Já imaginou ver três pessoas vestidas de reis andando pela sua rua? E ainda mais, abrir as portas da sua casa para recebê-las? Isso pode parecer estranho para quem mora na cidade grande, mas em Campo Alegre, município do Planalto Norte de Santa Catarina, essa é uma tradição antiga, com mais de 60 anos.

Diversos grupos de reis fazem parte da tradição em Campo Alegre – Foto: Ana Claudia Zeszotko/Arquivo pessoal

A história é conhecida: a Bíblia conta que Melchior, Baltasar e Gaspar, mais conhecidos como os três reis magos, foram visitar o menino Jesus, que havia acabado de nascer. Durante todo o trajeto, que demorou dias (por isso, o dia de Reis é comemorado em 6 de janeiro), eles foram guiados por uma estrela. Chegando ao local, presentearam o recém-nascido com ouro, incenso e mirra.

A participação dos três reis na história do nascimento de Jesus é conhecida pelos cristãos, tanto é que muitos presépios usados no Natal contam com a figura deles. Mas em Campo Alegre, a tradição vai um pouco mais longe. “Quando os imigrantes poloneses chegaram aqui, trouxeram consigo todas as tradições de sua terra. E lá na terra deles, era costume os três reis vestidos com trajes típicos, com anjos e uma porção de figuras bíblicas”.

Quem conta a história é Eulália Dziedicz. Aos 90 anos, a professora aposentada mantém viva a tradição dos reis, ajudando os grupos no cuidado com os trajes e com outras atividades. “Havia uma época em que eles cantavam em polonês, já que não sabiam o português. Até que em 1970 um jovem que saía como rei e sabia tanto polonês como português traduziu o hino dos reis”, relembra Eulália. Esse jovem que traduziu o hino era o irmão dela. Foi a partir da influência dele que Eulália passou a se interessar pela tradição e, até hoje, participa dos cuidados referentes ao costume. 

Eulália tem 90 anos e segue cuidando das roupas dos reis magos – Foto: Rosa Dziedicz/Arquivo pessoalEulália tem 90 anos e segue cuidando das roupas dos reis magos – Foto: Rosa Dziedicz/Arquivo pessoal

Durante a visita às casas, os três reis usam uma capa e muitas joias. “Nós nunca vimos um rei vestido de verdade. Nós vestimos eles conforme a gente vê nas fotos, cada vez melhores. Qualquer costureira faz a capa e esse camisolão. Depois, é só colocar um cinturão de rei e bastante material dourado, como correntes, colares e pulseiras”, conta Eulália, que reforça que as joias não são verdadeiras, mas como ela diz, “tudo de noite brilha”.

Hoje, o distrito de Bateias de Baixo, onde Eulália mora, tem roupas para servir até dez grupos de reis da comunidade. “Eu cuido dos reis há 60 anos. Por isso, a gente foi arrumando as roupinhas como dava e as velhas ficaram para trás. No começo, eles andavam a pé, hoje já andam de carro”, destaca.

Do radinho de fita para a gaita e o violão

“Sair de rei” já faz parte da vida do aposentado Estanislau Blaszkowsky há mais de 30 anos. Conhecido na comunidade como Lau, ele se veste de rei todos os anos e visita as famílias do distrito durante as noites de 26 de dezembro a 6 de janeiro. Segundo ele, os três reis passam por uma média de 800 casas durante o período.

Vestidos a caráter, eles vão de casa em casa, onde são recebidos pelos moradores que ouvem o hino cantando por eles. Em cada residência, os três reis recebem dinheiro para custear os gastos com a atividade e ajudar instituições beneficentes. “No hino, diz que Jesus mandou com muito gosto oferecer esse dinheiro aos pobres. Então é o que eles fazem, ajudam o operário que leva eles até as casas com combustível e ainda doam para entidades”, conta Eulália.

Lau (de vermelho) participa da tradição há 35 anos – Foto: Jane Estefani/Arquivo pessoalLau (de vermelho) participa da tradição há 35 anos – Foto: Jane Estefani/Arquivo pessoal

Orgulhoso, Lau conta das mudanças que a tradição sofreu durante os anos, como a mudança do hino de polonês para o português e do radinho de fita para o canto ao vivo. “No começo, era um radinho de fita com a música gravada só que, de repente, acabava a pilha e a gente tinha que ir pra casa. Era preocupante para nós. Hoje nós saímos com gaita e violão e cantamos ao vivo”, fala. Já sobre o hino em polonês, ele até arrisca algumas frases, mas não se recorda de toda a letra.

Tradição interrompida pela pandemia

A tradição de mais de 60 anos foi interrompida neste ano por causa da pandemia do coronavírus. “Nós nem saímos a trabalho, não teve como, foi pesado para nós. Evitamos sair para não contagiar e a comunidade aceitou. Não tinha como receber e cumprimentar os reis, então ia ficar um jeitão estranho”, lamenta Lau.

Moradores recebem os reis e doam gorjetas para custear as atividades e doar a entidades – Foto: Estela Augustin/Arquivo pessoalMoradores recebem os reis e doam gorjetas para custear as atividades e doar a entidades – Foto: Estela Augustin/Arquivo pessoal

“Neste ano, ninguém tirou o traje do armário porque nós não devemos nos aglomerar. Então, os reis não tinham nada que andar de casa em casa”, destaca Eulália.

Segundo Eulália, foram poucas as vezes em que os reis deixaram de sair. Uma delas ocorreu quando o idioma alemão estava proibido no Brasil, durante a campanha de nacionalização do governo Vargas. Com medo de que alguém confundisse o polonês com o alemão, os reis preferiram não arriscar.

Ainda triste por não poder sair como rei neste ano, Lau pretende continuar a tradição por muitos anos e trazer os jovens para o costume também.  “No ano que vem vamos voltar com força total”, avisa.



Por , em 2021-01-08 14:50:00


Fonte ndmais.com.br



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