Reflexão: a moda pode ser política? – Vogue – [Blog da Solange Pereira]

A moda pode ser política? (Ilustração: Christina Zimpel)

“Há décadas em que nada acontece e há semanas em que décadas acontecem.” A famosa frase de Lenin (1870- 1924) faz mais sentido do que nunca em 2020. Fronteiras estão fechadas, milhões estão desempregados e indústrias inteiras foram dizimadas. E o que tudo isso tema ver com moda? Tudo, na verdade. A moda é um negócio global de US$ 2,5 trilhões e que, antes do coronavírus, empregava cerca de 8 milhões (direta e indiretamente) no Brasil. De acordo com algumas estimativas, a indústria é responsável por até 10% das emissões de carbono mundiais anuais. A moda também invoca sonhos, desafia normas da sociedade e reflete de volta o que acredita sobre si mesma. E ainda a pergunta persiste: a moda pode ser política? Para a qual a resposta adequada deve ser: ela não foi sempre?

Na Idade Média, leis suntuárias proibiam pessoas “comuns” de se vestirem acima de seu nível. Perto de nossa própria era, os Panteras Negras usavam roupas tanto para aproveitar o poder quanto para resistir a ele. “A moda funciona como espelho de nossos tempos, então ela é inerentemente política. Ela sempre foi usada para expressar tendências patrióticas, nacionalistas e propagandistas, além de complexas questões relacionadas a classe, etnia, gênero e sexualidade”, observa Andrew Bolton, curador do Costume Institute do Metropolitan Museum of Art, em Nova York.O que é radical hoje, Bolton faz questão de apontar, é a maneira como a consciência social e preocupações ambientais estão informando a moda: estilistas no mundo todo, sejam startups independentes ou grandes maisons, vêm incorporando políticas em todos os níveis de suas marcas, dos looks que cruzam as passarelas até a parte prática de como as coleções são produzidas. Esses designers não estão apenas fazendo roupas – ao lado de ativistas e organizadores, estão fazendo mudanças. E isso vende.

“Toda escolha que você toma enquanto empresa irá influenciar o mundo. O que e como você faz, como fala sobre o que fez – para mim, tudo é política”, diz a estilista francesa Marine Serre. Para Virgil Abloh, à frente da Off-White e da linha masculina da Louis Vuitton, “a política de suas roupas” pode significar tudo, desde comprar uma camiseta da Off-White com os dizeres “Eu apoio jovens negócios comandados por empreendedores negros” (com o lucro revertido para uma organização antiviolência de Chicago) até não comprar muito de nada, como dedicação à sustentabilidade. A política da moda pode significar assinar à petição #PayUp (que visa melhorar as condições de trabalho dos empregados do setor de confecção); usar um vestido preto para ir ao Globo de Ouro em apoio ao movimento Time’s Up ou se vestir a fim de afirmar uma identidade queer. Tudo isso para dizer: a política da moda está nos olhos de quem vê. Mas ela está lá, seja reconhecida ou não.

Serre, por exemplo, está com o clima em mente. Ao menos 50% dos looks de seus desfiles são upcycled. Já a camiseta Promising Britain, de Martine Rose, é mais direta: estampada com um palhaço de desenho animado emergindo de um círculo de estrelas da bandeira da União Europeia, a peça estreou como parte da coleção de verão 2020 que Rose exibiu enquanto o Reino Unido se movia rapidamente em direção ao Brexit. “Da maneira como vejo”, diz Rose, “a moda na ausência de opinião e argumento é apenas… mercadoria”.

Maria Grazia Chiuri parece concordar. Ao assumir a Dior, em 2016, abriu seu primeiro desfile estampando o título do livro de Chimamanda Ngozi Adichie We Should All Be Feminists em camisetas. “A essa altura, ser feminista deveria ser o padrão”, diz a diretora criativa.

Feminismo, pluralismo, conscientização ecológica e de classe: estilistas como Rose, Serre e Chiuri estão participando de debates cruciais. Para Virgilda Romero Vasquez, no entanto, a interseção de moda e política é uma questão de vida ou morte. Mãe de quatro filhos que começou a trabalhar em confecções em Los Angeles ao chegar da Guatemala 19 anos atrás – e que ainda ganha apenas cerca de US$ 300 por semana –, Romero Vasquez estava, em 29 de julho, aguardando impacientemente o resultado do voto do Comitê de Mão de Obra da Assembleia da Califórnia na SB-1399, uma lei americana que eliminaria o sistema de pagamento por peça, que permite que fábricas paguem aos costureiros um valor inferior ao salário mínimo. Se a preocupação parece remota, Romero Vasquez pode fazer você reavaliar: a fábrica onde ela trabalhava antes produzia quase que exclusivamente para uma popular marca de fast-fashion internacional com embaixadoras-celebridades. Enquanto isso, ela descreve o espaço como infestado de ratos e diz que é comum que os roedores urinem e defequem nas roupas. “Não sei por que as pessoas acham que compram coisas limpas de um lugar sujo”, diz.

“Não importa que roupas você veste, alguém as fez. Você sabe quem? E como? A mais nova forma de moda política é ser capaz de contar essa história”, pergunta Livia Firth, cofundadora e diretora criativa da consultoria de sustentabilidade Eco-Age e ferrenha defensora de uma cadeira de abastecimento mais ética. Uma maneira de garantir que você pode “contar a história” de suas roupas é saber quem as está fazendo.

No livro Fashionopolis: The Price of Fast-Fashion and the Future of Clothes (2019), a escritora Dana Thomas observa que cada americano comprou em média 68 peças de roupas durante o ano de 2018 – mais de um item de vestuário por semana. É uma questão do ovo e da galinha, se as empresas aumentaram a produção para atender o apetite aparentemente insaciável dos consumidores por coisas novas, ou se esse apetite foi instigado pelo enorme aumento de artigos à venda (só a Zara produz cerca de 450 milhões de peças de roupas a cada ano). Mas a pergunta que segue é a mesma: o que iremos fazer com tanta coisa?

O resale é uma resposta. Um relatório de 2019 da McKinsey prevê que o mercado de revenda em uma década poderá ser maior do que o de fast-fashion – uma perspectiva animadora caso você se desespere com os milhões de toneladas de itens jogados nos lixões anualmente.

Honestamente, é um pouco estranho escrever sobre o lado ruim da superprodução e superconsumo enquanto, em meio à pandemia, pedidos foram cancelados, e clientes estão pisando no freio. Mas, em algum momento, a máquina da moda mundial irá começar a girar de novo – e a indústria terá de decidir se precisará girar de modo tão rápido e furioso quanto antes. Muitos estilistas dizem que não: Dries Van Noten, Erdem Moralioglu e Tory Burch estão entre aqueles que assinaram em maio a “Carta Aberta à Indústria da Moda”, manifesto que chama para uma redução coletiva de ritmo, com coleções menores, mais espaçadas e roupas entregues em harmonia com as estações para as quais foram produzidas.

Para os clientes, isso significa menos descontos e economizar mais para comprar – um hábito esquecido que todos podemos reaprender. À medida que estilistas se reorientam em direção a peças com mais propósito e com ciclo de vida mais longo, espere ver a alta-moda continuar o processo que a revolução do streetwear começou, reimaginando de modo criativo itens básicos e dispensando a ideia de que cada coleção nova precisa apagar a anterior. A novidade só pela novidade está em baixa; o que está em alta é fazer uma moda feliz para todos, não importa o tamanho, gênero ou etnia.

Em julho, Olivier Rousteing celebrou o 75º aniversário da Balmain apresentando sua coleção de alta-costura em um barco viajando pelo Sena, que incluiu silhuetas dos arquivos da maison. “Estou mostrando ao público: aqui estou, o primeiro líder negro de uma das primeiras casas de moda francesas. Foi o meu protesto”, conta.

“Mais criadores negros significam mais histórias, mais ideias”, afirma Abloh, explicando por que vem dedicando uma grande parte de seu tempo para arrecadar dinheiro para um fundo de bolsas de estudo que irá mandar alunos negros para importantes escolas de moda. “Enquanto indústria, temos de encontrar maneiras de trazer a bordo pessoas da comunidade.”

Martine Rose acredita que, graça à Covid-19, estamos agora, repentinamente, vivendo com um futuro novamente. “Parece que, depois de tantos anos, algo genuinamente novo pode acontecer.” Ross, da marca A-Cold-Wall, é mais cauteloso. “Não acredito que teremos uma reprogramação total da sociedade, mas a situação criou espaço para fazermos perguntas e escolher caminhar em uma direção mais humana. O que torna esta época animadora para ser estilista, porque você pode ajudar na mudança.” Essa mudança não é trabalho para um ano. Pode nem ser para uma só geração, mas começa hoje. A moda pode usar sua inteligência para criar sonhos, para ajudar as pessoas a imaginarem o que virá em seguida.“Vamos abraçar a mudança”, diz Rousteing. “É assim que se faz uma nova história.”

Tradução: Fabiana Skaf



Por , em 2021-01-03 08:40:27


Fonte vogue.globo.com



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