Marcas de alta-costura tiveram milhares de artigos em couro exótico apreendidos – [Blog da Solange Pereira]

Weissgold, por sua vez, diz que, com base em seus quase 25 anos de experiência trabalhando como analista de inteligência em uma agência federal de fiscalização, problemas de documentação são “bastante simbólicos em cenários de fraude em larga escala no setor”.

Quando você associa isso a um sistema judicial dos Estados Unidos que possui altas exigências em termos de apresentação de provas, “os fiscais que trabalham com espécies da flora e fauna selvagens normalmente se deparam com uma remessa e ficam sem saber o que pode ser feito a respeito”, conta Weissgold.

Preocupações com o bem-estar animal

Mesmo quando o comércio de produtos de origem animal para a indústria da moda é legalizado, ainda existem preocupações com o bem-estar animal, afirma Weissgold. Uma investigação de 2016 realizada pela People for the Ethical Treatment of Animals (PETA), uma organização de defesa conhecida por empregar táticas por vezes controversas, concluiu que fazendas vietnamitas que supostamente forneciam peles de crocodilo a um curtume pertencente à LVMH confinavam crocodilos por até 15 meses em pequenos gaiolas de concreto antes de abatê-los para obter as peles. Os investigadores da PETA filmaram trabalhadores do curtume cortando a espinha dos crocodilos — paralisando-os, mas sem matá-los — antes de removerem a pele com os animais ainda vivos.

Questionada sobre a investigação da PETA para esta matéria, a LVMH não contestou as conclusões, mas disse que em 2016, Heng Long, o curtume em questão localizado em Singapura, deixou de adquirir crocodilos das fazendas vietnamitas apresentadas no vídeo da PETA.

Shepherd, do grupo Monitor, diz que o tratamento desumano e o sofrimento são a norma para animais selvagens capturados nos países do sudeste asiático. Outra investigação, também realizada pela PETA, descobriu que geralmente a pele das cobras é removida enquanto ainda estão vivas. Karl Ammann, cineasta investigativo, documentou a “lavagem” em larga escala de répteis capturados na natureza, um processo no qual os fornecedores identificavam incorretamente os animais selvagens como tendo sido criados em cativeiro no Laos, na Malásia e no Vietnã. Ammann também registrou pítons e varanos-malaios sendo atingidos na cabeça por martelos e esfolados vivos na Indonésia. Um relatório de 2013 do Serviço Veterinário Federal Suíço sobre o comércio de pele de répteis concluiu que diversos métodos utilizados para matar os animais — incluindo decapitação, congelamento, aquecimento, asfixia, afogamento e corte de veias jugulares — eram cruéis.

Em 2019, a LVMH lançou um sistema de certificação para fazendas de crocodilos na tentativa de fortalecer sua capacidade de rastrear peles e monitorar o bem-estar animal Outras empresas foram ainda mais longe.

Em 2018, Diane von Furstenberg proibiu o uso de peles exóticas em seus produtos e a Chanel fez o mesmo dois meses depois, citando a dificuldade de obter produtos de origem ética. Jil Sander seguiu o exemplo.

Em vários pareceres, Natusch e outros consideraram as proibições de peles exóticas como bem-intencionadas, mas “muito simplistas” e “não fundamentadas por evidências”. Ele e outros pesquisadores estão trabalhando com empresas como o Grupo Kering, dono da Gucci e de outras marcas de alta-costura, em um esforço para controlar melhor a cadeia de suprimentos. 

Em 2017, o Grupo Kering abriu uma fazenda de pítons na Tailândia para obter uma fonte de peles sustentável e sem métodos cruéis, disse um representante da empresa ao jornal The Guardian na época. O grupo também continua a obter animais da natureza.

Quatro anos antes, o Grupo Kering se uniu ao Grupo Especialista em Jiboias e Pítons da UICN e ao International Trade Center, uma agência multilateral da Organização Mundial do Comércio e das Nações Unidas, para criar um grupo chamado Python Conservation Partnership (Parceria para a Conservação de Pítons). A missão do grupo é ampliar a sustentabilidade do comércio de pítons e promover a transparência, o bem-estar dos animais e os meios de subsistência locais.

O primeiro de vários relatórios encomendados pela Python Conservation Partnership entre 2014 e 2016 recomendou a substituição de todos os métodos empregados no abate das pítons na China, Tailândia e Vietnã — incluindo decapitação, afogamento e obstrução da boca e do ânus das cobras e utilização de um compressor de ar para injetar ar no interior de seus corpos — por práticas menos cruéis. Outro relatório de 2016 do mesmo grupo, referente à Indonésia e Malásia, concluiu que afirmações sobre práticas desumanas de abate de pítons nesses países “não podem ser comprovadas” porque os comerciantes destroem o cérebro das cobras antes de removerem a pele.

Todos os três relatórios concluíram que a captura na natureza e a criação de pítons podem ser sustentáveis e representar meios de subsistência locais, ajudando na conservação, oferecendo às pessoas que capturam pítons na natureza um incentivo para que protejam os répteis e seus habitats.

“Sem a indústria do luxo, muitas das espécies utilizadas estariam em uma situação muito pior”, diz Natusch, coautor dos relatórios da Python Conservation Partnership. “Os benefícios desse comércio superam os pontos negativos.”

O relatório sobre a Indonésia e a Malásia confirmou, no entanto, que as peles de píton são comercializadas ilegalmente entre países do sudeste asiático em escala significativa, e que o uso indevido de autorizações internacionais permite a ‘lavagem’ de animais capturados na natureza, que são identificados com tendo sido “criados em cativeiro”. O estudo constatou que a grande movimentação do comércio ilegal é alimentada pela pobreza e pelo fato de haver populações numerosas de píton na natureza. Os autores também relataram que as cotas comerciais são excessivamente restritivas e sugerem aumentá-las ou eliminá-las.

Jon Paul Rodriguez, presidente da Comissão de Sobrevivência de Espécies da UICN, defende que o financiamento do grupo venha de membros da indústria, uma prática comum na ciência. O uso sustentável de espécies da fauna e da flora selvagens é um dos pilares de sua organização, segundo ele, e os pesquisadores da UICN realizam uma abordagem baseada em evidências, independentemente da origem do financiamento do estudo. “Não é possível comprar a ciência”, diz ele. “Meu mantra como presidente é: evidência em primeiro lugar, sempre.”

Todas as publicações da UICN, inclusive as financiadas pelo Grupo Kering, também passam por uma revisão por pares interna, acrescenta. “Como qualquer artigo científico, [eles estão] disponíveis para que outros possam contestar se tiverem melhores evidências.”

Os críticos afirmam que o foco da UICN no “uso sustentável” foi longe demais, a ponto de que “até o uso de espécies ameaçadas de extinção já foi defendido pela UICN”, diz Mark Auliya, herpetologista do Museu de Pesquisa Zoológica Alexander Koenig, na cidade de Bonn, Alemanha. Auliya é um desses críticos e também membro do Grupo de Especialistas em Jiboias e Pítons da UICN. Ele diz que estudos, incluindo os conduzidos pela UICN, geralmente subestimam a complexidade do comércio de espécies da fauna e da flora selvagens e seus frequentes vínculos com o crime organizado; as constatações sobre o comércio sustentável geralmente não refletem a realidade das espécies.

Os relatórios financiados pela indústria elaborados pelo Grupo de Especialistas em Jiboias e Pítons da UICN, continua Auliya, foram publicados sem consulta prévia de todo o grupo, e Auliya diz que vem criticando essa questão em reuniões internas. “Nem todo cientista com experiência em campo apoiaria as constatações desses estudos”, diz ele.

Nomes de empresas ocultos

O estudo da CUNY não esclarece se as medidas adotadas por Diane von Furstenberg, Chanel, Jil Sander, Grupo Kering e outros reduziram as apreensões relacionadas à indústria da alta-costura nas fronteiras dos Estados Unidos. Isso porque após 2013, o Serviço de Pesca e Vida Selvagem começou a ocultar os nomes dos importadores vinculados a apreensões documentados nos pedidos de registros públicos.

Weissgold, que trabalhava nesse setor quando as restrições entraram em vigor, diz que pediu explicações diversas vezes, mas nunca recebeu uma resposta adequada. Ele suspeita que a decisão tenha sido tomada, pelo menos em parte, devido a reclamações de empresas alegando que os concorrentes poderiam ter acesso a segredos comerciais contidos nos registros de apreensão.

Seja qual for o motivo, a falta de transparência em todos os registros governamentais de importação e exportação de espécies da fauna e da flora selvagens “está impedindo fortemente que as comunidades de conservação e da área criminal possam avaliar dados sobre o comércio”, diz Weissgold.

O Serviço de Pesca e Vida Selvagem e o Departamento do Interior, que supervisiona o serviço, não comentaram sobre o motivo pelo qual o órgão passou a ocultar os nomes das empresas dos registros de apreensões.

Weissgold acrescenta que não tem motivos para acreditar que as importações ilegais ligadas à indústria da alta-costura tenham reduzido desde 2013. Chris Shepherd, da Monitor, também acredita que o problema ainda exista. Para ele, a mensagem para os consumidores é clara: “Comprar produtos de espécies da fauna e da flora selvagens pode estar contribuindo com o declínio de espécies na natureza e com o comércio ilegal. Na dúvida, não compre.”

Sosnowski espera que o estudo ofereça uma oportunidade para maior transparência e melhorias na cadeia de suprimentos e na fiscalização desde origem até o produto acabado. “Queremos que os consumidores vejam que se trata das marcas que todos conhecemos e amamos, para que ajudem o setor a adotar práticas mais sustentáveis”, diz ela.

Por fim, a demanda do consumidor é o que faz as empresas considerarem o bem-estar e a conservação dos animais, diz Weissgold.

“Acho que se os compradores souberem que a pele de píton da bolsa pode ter sido arrancada de um animal vivo, alguns podem se recusar e fugir da marca”, diz ele. “Mas vamos ser sinceros, muitos só a enxergam como uma simples bolsa.”

Por , em 2020-12-28 07:11:31


Fonte www.nationalgeographicbrasil.com



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