Um Natal inesquecível – Jornal O Globo


Clique aqui e saiba mais sobre o Super Kit de Moldes + Curso de Costura do Zero – entrando agora ganhe Moldes grátis para imprimir + aula de teste.

Houve um tempo em que as ruas eram enfeitadas para o Natal: umas luzinhas estratégicas aqui e ali, um pinheirinho falso, presépios de gosto duvidoso. Havia uma agência bancária na esquina na Praça Nossa Senhora da Paz que se vestia toda para a ocasião e atraía pequenas multidões, mas esses tempos vão tão distantes que nem o banco existe mais.

Havia a árvore da Lagoa, a cada ano maior, até que não aguentou o próprio peso e se quebrou ainda presa ao cais. A árvore era uma embarcação, e quem ia visita-la subia a bordo; estranhei muito isso, de subir a bordo de uma árvore, mas assim foi. Sinto falta dela e da festa que, todas as noites, transformava a vizinhança numa praça animada, cheia de gente e de vendedores de comidinhas e de badulaques.

Também houve o tempo das janelas enfeitadas, e depois o de prêmios para as mais bonitas, mas isso fez com que elas se multiplicassem de tal maneira que, para alívio geral, o concurso foi descontinuado: o que antes havia sido ingênuo e criativo acabou se tornando um espalhafato ostentoso, cheio de decorações importadas.

Eu me lembro de todos esses natais, embora não saiba apontar nenhum no calendário. Eles iam e vinham com os anos, sempre muito parecidos uns com os outros, e em geral essa semelhança nos transmitia uma ideia de continuidade reconfortante.

Lá em casa nos reuníamos em torno de um excelente cozido de galinha com molho de castanhas, invariável cardápio natalino frequentemente preparado com o produto do nosso próprio jardim. Isso era sempre motivo de grande orgulho para meu pai, que plantou os castanheiros assim que o sítio ficou pronto, e que acompanhava com interesse o seu crescimento.

Hoje vou jantar com minha mãe e minha irmã — elas porque estão fazendo quarentena juntas, eu porque tive Covid e (ainda) estou liberada. Como tanta gente mundo afora, vamos ver o resto da família espalhada nas respectivas casas pelo zoom, e passar um Natal pequeno, esquisito e de certa forma histórico. Mesmo quando estiverem com a idade da bisavó, que já passou dos 90, os meus netos ainda vão se recordar de 2020; e eu, que nunca me lembro de dias e de anos, não vou esquecer essa data.

Carregaremos todos, daqui para a frente, um Natal verdadeiramente inesquecível e inconfundível, que será lembrado em todos os natais futuros, quando celebraremos de novo à moda antiga.

Espero que seja, na medida do possível, um Natal de confraternização e de alegria. A melhor lição que levamos de 2020 é que dividir o mesmo espaço não é a única forma de dar e de demonstrar amor.

* * *

Nicette Bruno foi uma das mulheres mais ternas e gentis que conheci. Era uma força da natureza e uma atriz extraordinária, mas quem a encontrava fora dos palcos logo se esquecia disso: ela tinha o imenso talento de ser antes de tudo gente, uma pessoa interessada em outras pessoas, sempre cheia do mais autêntico e genuíno afeto.

Meu melhor carinho para a família tão querida que deixou.

Por Cora Rónai , em 2020-12-24 03:30:04


Fonte oglobo.globo.com

Deixe um comentário