Soul – Uma Aventura com Alma, em análise – [Blog da Solange Pereira]

Com estreia exclusiva no Disney+, “Soul – Uma Aventura com Alma” é um presente de Natal cinematográfico sobre questões que atormentam o ser humano desde a alvorada da consciência. A obra de Pete Docter também está bem posicionada a marcar presença forte nos Óscares de 2021.

A vida tem sentido? Tem propósito? Se sim, qual? São questões que muitos já se perguntaram, desde o mais banal dos pensadores ao mais erudito dos filósofos. Num panorama social e económico moderno, muitos são aqueles que parecem associar sentido a propósito, e propósito a vocação, a trabalho, a emprego e lucro. Contudo, tais ideias parecem demasiado fechadas e focadas na vida enquanto máquina do capital. Enfim, já nos estamos a aventurar por paradigmas da retórica meio inusitados para a análise daquilo que, ao fim do dia, é um filme feito para ser apreciado tanto por miúdos como por graúdos.

Com isso dito, supor que tais questões não são intrínsecas ao mais recente filme da Pixar seria um erro. Há mais de duas décadas que essa companhia de animação afiliada à Disney tem vindo a esticar os limites concetuais da animação ocidental e do entretenimento cartoonesco. Se, no Japão e na Europa de Leste, o cinema desenhado há muito que se libertou do cárcere do mainstream e do público estritamente infantil, o mesmo não se verifica nos EUA de onde provém “Soul – Uma Aventura com Alma”. Tudo isto para dizer que, mesmo sem contar com a execução das suas ideias, temos de aplaudir a ambição desta obra. Ousadia há que sempre ser admirada.

© Disney

De facto, este “Soul” é bem ousado quando visto no contexto dos desenhos-animados blockbusters, até mesmo se nos restringirmos aos últimos poucos anos da Pixar. Temos de recuar até 2015 com “Divertida-Mente” para encontrarmos um trabalho semelhante. Não é, por isso, surpresa que os dois filmes partilhem o mesmo realizador, Pete Docter. De todos os cineastas sob a alçada da Pixar, ele é aquele que sempre mais se interessou sobre divagações metafísicas e sobre as possibilidades trágicas deste tipo de cinema. Neste caso, ele fez uma história sobre a vida e, para abordar o tema, começou por encarar a morte.

“Soul” começa por se centrar num dia na vida de Joe, um professor de música afro-americano e na meia-idade que há muitos anos sonha em fazer carreira enquanto pianista jazz. Os seus entes queridos já se fartaram de o ouvir falar obsessivamente sobre a arte musical, e a mãe, em particular, espera que o filho se empenhe no ofício pedagógico e deixe de arruinar a vida com sonhos desfeitos. No mesmo momento em que o trabalho como professor começa a mostrar vislumbres de sucesso profissional, Joe depara-se com uma oportunidade de fazer parte de uma banda jazz. Infelizmente, depois de uma audição extraordinária, ele sofre um acidente e vai desta para melhor.

Indo buscar inspiração ao clássico “Caso de Vida ou Morte” de Powell e Pressburger, Docter imagina o além como um mistério abstrato em gradações de preto-e-branco, luz e sombra. Ainda nem Joe se apercebeu do que aconteceu e a sua alma já está numa escadaria rumo a uma misteriosa brancura, a claridade ao fundo do túnel cujo destino é incerto. Em pânico e decidido a não perder a vida no momento em que os seus sonhos se iam concretizar, Joe tenta escapulir-se à força dessa existência depois da morte. Só que, ao invés de acabar na Terra, ele vê-se perdido numa espécie de jardim de infância para almas ainda por nascer.

soul critica disney+
© Disney

Fazendo-se passar por outrem, o músico vê-se tornado num mentor para uma alma particularmente problemática. Ela chama-se 22 e nunca conseguiu a última chave para ganhar acesso à vida, uma faísca que poderá ser propósito, ou vocação, um sentido para viver que até agora ficou além do seu alcance. Pela sua parte, 22 está-se bem a borrifar para a vida e contenta-se em existir eternamente naquele limbo. Por isso mesmo, os dois párias unem forças com um objetivo comum – fazer com que a alma de Joe regresse à vida, garantindo, pelo caminho, que 22 nunca terá de nascer em vida terrena. Obviamente, muitos problemas se levantam e, às tantas, acabamos com 22 a possuir o corpo de Joe e a alma dele a habitar um desgraçado felino.

Depois dos dois protagonistas cruzarem caminho, é fácil prever os desenvolvimentos do argumento cuja originalidade fica pela premissa, mas pouco se estende ao desenrolar da ação. Não que isso seja logo um cataclisma insuperável. De facto, “Soul” é um filme que prima mais pela especificidade do seu design, pelos detalhes do milieu sociocultural que dramatiza e pelas conclusões espirituais a que chega. Há grande ternura no modo como o filme encara as personagens, tanto os protagonistas como os mais secundários figurantes, todos eles cheios de vitalidade e histórias para contar num gesto singelo, num olhar, num penteado chamativo ou numa habilidade costureira.

Se há uma ideia que atravessa a totalidade de “Soul” é que a vida não precisa de propósito para valer a pena viver. Só por si, a vida humana é um milagre de preciosidade incalculável e até o mais simples dos prazeres terrenos pode ser algo perfeitamente transcendente. Depois de milénios a ser instruída pelas maiores mentes da Humanidade, o que cativa 22 é o burburinho da rua nova-iorquina, a doçura de um gelado, o calor do sol poente. É uma perspetiva singularmente humanista que vai contra muita da doutrina moderna, que contorna o dogma religioso e a ideia de que é preciso alcançar o sucesso para se ter vivido na plenitude.

Além disso, a forma da obra é exímia. O desenho das personagens do limbo é especialmente interessante, indo para níveis de abstração que a Pixar raramente experimenta. Os trabalhadores desse além são especialmente fascinantes, quais desenhos cubistas que existem num panorama fora das nossas noções tradicionais de espaço e tempo, matéria e solidez. Isso contrasta com a Nova Iorque de “Soul”, um triunfo de animação fotorrealista que não podia ser mais oposto à etérea irrealidade da vida depois a morte e antes do nascimento. A um nível puramente estético, “Soul” é uma máquina bem oleada, sem mácula nem defeito aparente.

O mesmo se pode dizer da sonoridade da fita. Sendo a música uma componente tão importante da narrativa, faz sentido que a banda-sonora seja um elemento central de “Soul”. Trent Reznor e Atticus Ross conceberam a música para o lado etéreo da história, usando amorfias eletrónicas para sugerir algo entre a melodia e o sonho. Em complemento inspirado, Jon Batiste compôs e dirigiu passagens de jazz que informam os movimentos na Terra. Quando os dois se unem, quando o virtuosismo do pianista o leva a transcender a mundanidade, aí a música e o cinema entram em espetacular sinergia. Oxalá todo o filme vivesse nesse píncaro de êxtase.

Tal e qual uma récita de jazz, a história de “Soul” vai-se mostrando aos solavancos de ritmo e arritmia, parecendo meio improvisado, meio desequilibrado. O mais frustrante é que, não obstante a criatividade visual do além, são as cenas entre humanos que mais fascinam. A certa altura, quase que desejamos que Docter tivesse posto de parte a imagética metafísica e se tivesse desafiado a explorar os mesmos temas sem recurso à fantasia, sem recurso a mecanismos meio cansados que já o vimos usar em títulos passados. “Soul” é um filme que tem muito que o recomende, incluindo alguns momentos de transcendência cinematográfica que trazem a lágrima ao olho.

soul critica disney+
© Disney

No entanto, não deixamos de sentir que fica aquém do seu potencial. Em certa medida, é um filme sobre a vida que é como a vida, meio errático, cheio de beleza e com uma estrutura inerentemente antidramática. Como uma taça japonesa partida e remendada a fio de ouro, talvez a máxima maravilha de “Soul” esteja na sua imperfeição, na racha que acentua a qualidade da peça completa. Em 2020, uma celebração da vida, por muito complicada e estranha que ela possa ser, por muito imperfeita que seja, parece-nos apropriado para todo o espetador.



Por , em 2020-12-24 12:58:00


Fonte www.magazine-hd.com



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