HISTÓRIAS DE ADMIRAR: ELA – Giovani José da Silva – [Blog da Solange Pereira]

         24 de dezembro! Para muitos é (apenas) a véspera do Natal, celebração transformada em muitos lugares em um festival de consumismo e de superficialidades. Em minha casa, entretanto, a data sempre foi mais do que isso: trata-se da celebração do aniversário de minha mãe, Gregoria Ramona Torres Silva! Ela nasceu em uma família extensa e humilde, às vésperas da data que se convencionou chamar de “nascimento de Jesus”. Criada na fronteira Brasil-Paraguai, em Porto Murtinho (antigo Sul de Mato Grosso, hoje Mato Grosso do Sul), cresceu sob os cuidados da avó, Evangelista Florentín Torres, a quem ela chamava de mãe! Dona Vangé, como era conhecida minha avó/ bisavó, educou minha mãe e mais 14 filhos (!) ao lado de meu avô/ bisavô Eusébio, um argentino de Corrientes falecido ainda muito jovem… Dona Gregoria, chamada de Kita desde a infância (por causa do gosto pelas chipas “chiquitas”…), viveu em fronteiras desde sempre e aos 13 anos de idade foi para São Paulo, capital, a fim de trabalhar como doméstica e, mais tarde, como costureira (de mão cheia, diga-se de passagem!). Conheceu meu pai aos 15 anos, casou-se com ele aos 19 e enviuvou aos 29 anos de idade. Uma mulher de coragem, que pouco estudou (ela chegou aos estudos da antiga “Admissão”), mas de uma sabedoria enorme: assim é dona Gregoria! Recentemente, estivemos em um programa de televisão juntos (o quadro “Quem quer ser um milionário?”, do Caldeirão do Huck, programa da Rede Globo) e pudemos contar parte de nossa incrível jornada. De origens paraguaias (indígenas) e argentinas (espanhóis), minha mãe fala três línguas (além do Português, o Espanhol e o Guarani) e é uma mulher extremamente religiosa, católica fervorosa. No dia de hoje ela completa 74 anos e sinto que tê-la ainda aqui conosco, me ensinando tantas coisas, compartilhando saberes e fazeres, é um privilégio e, também, uma benção! Ela, a dona Gregoria, soube transmitir a nós três, seus filhos (eu, Giani e Rita de Cássia, todos professores), valores éticos, morais e espirituais, lições de vida que hoje se refletem em nossas posturas diante dos desafios e das possibilidades que surgem em nosso cotidiano. Não sei por quanto tempo mais eu a terei ao meu lado, fisicamente, mas tenho a certeza de que, mesmo quando partir para a aldeia da memória (onde, de acordo com suas crenças, reencontrará meu pai, o “caipira de Sertãozinho”, grande amor de sua vida), ela estará comigo! Sempre! Agora mesmo, enquanto escrevo estas linhas para a coluna Histórias de admirar e enquanto milhões de pessoas ao redor do planeta comemoram o Natal, dona Gregoria dorme em sua rede (ela não costuma repousar em camas…), sonhando, quem sabe, com seu grande amor ou com as pessoas queridas que já se foram, especialmente neste ano de 2020 tão difícil para todos. Ela precisa de meus cuidados e os terá, uma vez que tomei a decisão de permanecer ao seu lado e alimentá-la com todo o amor que houver nessa vida, a fim de que sua velhice seja tranquila e sem sobressaltos. Envelhecer em um país como o Brasil, especialmente para pessoas empobrecidas, pode ser muito duro! A menina cuja família fugiu da Guerra Civil de 1947 (que assolou o Paraguai e provocou a ascensão do ditador Alfredo Stroessner ao poder, alguns anos depois) e se refugiou no Brasil, é hoje uma senhora de longos cabelos brancos, poucas rugas, de modos simples (sem nunca ser simplória), sabedora de sua altivez (sem arrogância ou soberba) como mãe e mulher. Ela criou sozinha três filhos e jamais bateu à porta de algum parente ou amigo para incomodar com seus problemas e dificuldades. Minha mãe não é uma pessoa “perfeita”, mas possui qualidades incríveis e admiráveis, próprias de alguém que soube construir seus caminhos com retidão e honra. Poder contar parte de sua linda trajetória, seja na Televisão ou na Imprensa, é uma forma de lhe agradecer por cada bronca, por cada olhar severo, por cada uma das vezes em que manifestou querer o melhor para mim e para minhas irmãs, ainda que seus desejos fossem incompreensíveis/ indecifráveis para nós. Ela e somente ela pode dizer o que é ficar viúva aos 29 anos, ser expulsa de sua casa juntamente com os filhos pequenos, recomeçar a vida em outras paragens, trabalhando incansavelmente em máquinas de costura, para que não faltasse o básico em nossas vidas. Às 23 horas e 45 minutos do dia 24 de dezembro de 1946 nasceu a mais bela flor da fronteira e, desde então, essa mulher vem cumprindo uma jornada de força, de fé e de superação. Ela é o meu presente de Natal, pelo qual agradeço todos os dias, a cada ano que passa, mesmo os mais terríveis! Ela é a minha mãe!

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Por , em 2020-12-24 22:16:00


Fonte www.opantaneiro.com.br



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