Bom trabalho – Patrcia Esprito Santo – [Blog da Solange Pereira]

(foto: Antonio Cruz/Agencia Brasil/Divulgacao )

 

Hoje, dia em que escrevo este texto, estou prestes a finalizar a terceira e a quarta turmas de alunas da oficina de costura que vim implantar em Boa Vista, Roraima, em uma ao conjunta da Fraternidade Sem Fronteiras com a Acnur – agncia da ONU para refugiados. Durante os 12 dias em que aqui estive, observei muitas coisas que podem nos ajudar a entender melhor o outro e por que no a ns mesmos tambm. Algumas refugiadas venezuelanas se mostraram muito ansiosas, mais preocupadas em terminar o que faziam para logo iniciar outra pea. Sempre digo que a costura um exemplo de como levamos a vida. 

 

Se temos muita pressa, pulamos etapas, atropelamos tudo e, no final, a qualidade fica muito comprometida. Para consertar, precisamos desmanchar e fazer novamente, o que acaba causando irritao e frustrao, alm de consumir mais tempo que o previsto. J quando conseguimos seguir as etapas que qualquer situao ou circunstncia nos apresentam, podemos no ficar totalmente satisfeitos com o resultado final, mas saber que fizemos o que estava ao alcance nos conforma e nos impulsiona a seguir adiante. Isso foi o que experimentou outra parcela de alunas. 

 

Ao final, todas ficaram felizes por se ver capazes de produzir algo  a partir de quase nada. A autoestima de um refugiado quase sempre muita baixa, pois o que viveram at chegar nos abrigos, o que tiveram que largar para trs e a incerteza quanto ao futuro puxam qualquer um para o buraco. Poder dizer ” eu consegui” tem um enorme valor no momento e pode influenciar experincias e decises futuras. Interessante tambm o quanto elas se apoiam umas nas outras. 

 

As que esto abrigadas no espao emergencial onde trabalhei tm muitos filhos pequenos, verdadeiras escadinhas, sendo que algumas esto grvidas. Ento, no meio de nossas pernas, sempre tinham crianas de todas as idades e tamanhos. Atrapalha? Sim. Mas quando no se tem quem as olhe, faz-se o que se pode junto delas. Muitas vezes uma segurava o beb da outra para que esta ltima pudesse adiantar a pea de roupa que se props a fazer.

 

No final, como um milagre, parecia que o tempo se estendia e todas conseguiram finalizar ao menos uma bolsa, com forro e zper, e duas peas de roupa. Dei a elas a alternativa de escolher fazer peas para adultos ou para crianas. Poucas optaram por roupas para si mesmas ou para os companheiros. 

“Quero fazer para criana”, foi o que mais ouvi. Que assim seja! Assim o fizeram. Confesso que fiquei muito admirada positivamente com o que a Operao Acolhida tem feito junto aos refugiados venezuelanos na fronteira com o Brasil. J tinha conhecimento de que o Exrcito Brasileiro realiza um belo trabalho em comunidades longnquas, levando vacina, medicamentos e auxlio sade onde normalmente ningum se dispe a ir. Aqui vi uma enorme estrutura montada para receber quem chega procura de refgio. 

 

Em pouco tempo, toda a famlia se cadastra, enviada a um abrigo e no mximo em um ano interiorizada, j com emprego pelo menos para um de seus membros. 

 

No sou a favor do Exrcito no comando de nenhum dos trs poderes – Executivo, Legislativo ou Judicirio. Disso temos  ms lembranas e experincias. Mas no podemos desfazer dessa fora, que muito tem a contribuir e vem mostrando competncia e organizao, como o caso do gerenciamento da ajuda humanitria que nosso pas se props a dar aqui, em conjunto com a Acnur e ONGs parceiras. Disso podemos nos orgulhar.

Por , em 2020-12-20 04:00:00


Fonte www.em.com.br



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