Tribuna do Norte – Ponta Negra, Meu Amor – [Blog da Solange Pereira]

Muriu Mesquita
Jornalista

Ponta Negra é uma garota bronzeada, que vive à beira mar, no coração visual e social de Natal. Para saciar a sede, ela bebe água de coco. E se exercita pela areia ou no balanço das ondas, com  manobras iradas de surfe, frescobol, caminhadas e mergulho:

– Tchibum, dentro d’água!     

Ainda na primeira infância, eu e tantos outros meninos e meninas tivemos a sorte de desfrutar dessa garota fantástica no auge da beleza. Brincávamos ali, de pés descalços, vigiados pelo imponente Morro do Careca. Para o almoço, ginga com tapioca, peixe frito, pirão, macaxeira, e cocada de sobremesa. Era comum os pais levarem as crianças para o batismo nas águas e o “desmame” com caldinho de peixe, camarão  e ostra das antigas barracas, como `Dona` Rosa, Raimunda, Nazareno, João Muniz, `Barraca Azul`, entre outras.

Bastava descer as escadarias e lá estava a nossa garota sedutora, um amor de praia, brinde excelso de Iemanjá. Belo e gratuito parque de diversões natural, com castelos de areia, algas e conchas, rede de vôlei, jangadas, peladas de futebol, alto astral, e o inigualável calor humano e natural do Rio Grande do Norte.

Alguns moradores levantavam cedo para acompanhar os pescadores puxando as redes. E, para quem ajudava no arrasto, a recompensa vinha em forma de pequenos peixes. As piabas eram fritas com farinha, e tinham sabor fresco de água do mar.

– Tira a mão do camarão aí, menino! Tá doido! Isso vale `ouro` – resmungava o pescador atento.

E, para consolar o pequeno ajudante, jogava um siri ou peixe bagre, que não tinham valor comercial.

Hoje, a pesca artesanal em Black Point foi praticamente extinta. Restam poucos trabalhadores do mar, que desafiam o tempo e a degradação do meio ambiente. As jangadas remanescentes seguem enfileiradas perto do morro; dão um charme à paisagem e ainda sustentam dezenas de bravas famílias. Parecem mais uma lembrança viva da época em que não havia calçadão nem restaurantes, e os pescadores, barraqueiros, “farofeiros” e ambulantes mandavam no pedaço:

– Olha o picolé, `olhai`, óh!

– Tem ‘de que’, rapaz?

– Hoje, tem de tudo: Chiclete, goiaba, leite moça, biscoito, cajá, mangaba, coco queimado e amendoim.

Em nome do progresso, prédios enormes foram erguidos ao redor da orla. E, felizmente, os necessários hotéis e pousadas se instalaram aos montes na região, que depende economicamente do Turismo. Porém, sem planejamento urbano e com raras ações públicas efetivas com foco em desenvolvimento sustentável e acessibilidade.

De vez em quando, o som do vento e o marulhar das ondas é quebrado pelos passantes:

  – Olha a castanha de caju! Compre uma e leve três! Quer provar, meu patrão?

– Vai passando a toalha de mesa bordada  à mão de Caicó! Uma é cem, três por duzentos.

– Tu é de Caicó, `boy`?

– Não, `mainha` costura aqui na Vila mesmo. Perto do campo do Botafogo.

Ponta Negra, garota esperta! Milhares de anos de praia. Aprendeu com o universo a se reinventar sempre que o sol nasce e o vento leva embora o que deu errado. Seja a maré baixa ou alta, a nossa eterna garota da pele tostada pelo sol trava uma batalha diária para esconder os  maus-tratos do bicho homem, talvez nas profundezas do oceano Atlântico. Na manhã seguinte, acorda  radiante, energizada, pronta para receber os potiguares e turistas do mundo inteiro.

– E  aí, `bora` pra praia?!

Por , em 2020-12-19 12:27:17


Fonte www.tribunadonorte.com.br



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