Uma espera ativa – [Blog da Solange Pereira]

Flávia Gomes*

Estamos no tempo do advento. O tempo do advento é a espera pelo Natal, tempo de celebrar o nascimento intensamente aguardado de Jesus e que nos inspira à espera da plenitude do Reino de Deus, a parusia. Lucas descreve no livro dos Atos (1,10) que na ascensão de Jesus os apóstolos olhavam para o céu enquanto Ele ia embora. Mas, foram alertados de que não ficassem estáticos a contemplar o céu, pois Jesus virá do mesmo modo como o viram partir para o céu.

Toda a história narrada em Atos é ação movida pela espera ativa da plenitude do Reino de Deus, à espera da parusia. O Reino não será pleno de um momento para o outro na história, como por um passe de mágica. A plenitude do Reino será fruto do testemunho dos discípulos e discípulas por toda parte. Jesus ressuscitado continua presente e atuante dentro da história através do testemunho dos cristãos emanados pela espera ativa da parusia. Não ficar olhando para o céu aponta para uma espera em nada resignada.

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Dentre tantas histórias descritas no livro dos Atos, que nos inspira à espera da realização definitiva do Reino prometido, encontramos a história da discípula Tabita (9,36-43). Ela é lembrada por seu serviço misericordioso junto às viúvas da comunidade cristã em Jope. Tabita se destaca por mudar sua realidade e de outras mulheres destinadas ao esquecimento social e exclusão total como era o costume daquele tempo para com as mulheres sozinhas, solteiras ou viúvas. Sua narrativa pequena, assim como é pequeno o espaço que Lucas reserva para ela, não condiz com a grandeza dessa mulher. Na verdade, o foco do narrador é mostrar um milagre de Jesus através de Pedro, no entanto, a personalidade de Tabita sobressai e, surge do texto, uma mulher protagonista de sua história e da melhoria da história de outras mulheres. Discípula de Jesus, aprendeu com ele a amar o próximo e por ele dedicar a sua vida.

Tabita é apresentada já morta, rodeada de mulheres que choram a sua morte e pedem socorro a Pedro, apóstolo em exercício, conhecido por realizar milagres. A discípula Tabita, que muito representava para a comunidade de viúvas, onde praticava “obras de misericórdia”, é a única mulher descrita como discípula (mathétria) no Novo Testamento. A prática das “boas obras” na comunidade de viúvas liderada por Tabita é manifestação da misericórdia transformada em diakonia, que tem caráter extremamente profético. Tabita recebeu a missão de salientar a importância das viúvas, demonstrando que o poder do amor comunal transformado em diakonia é mais forte até mesmo que a morte. Ela espera Jesus, o Reino em plenitude, testemunhando dele.

Era uma costureira que vivia totalmente voltada para ajudar as viúvas de seu contexto. Ser viúva para a mulher israelita era terrível, pois não havia nenhuma proteção jurídica que a amparasse. Dentro desse contexto de dor e submissão, a mulher era como se tivesse morrido com o marido, já que se tornava um peso para a sociedade ou alguém invisível. É nesse contexto que Tabita, vendo a situação de tantas viúvas, usa sua aptidão de costureira para ajudar essas mulheres. 

Por essa razão, as mulheres não aceitavam a sua morte e se apegavam na esperança de um milagre. Tabita dava a elas muito mais do que uma ajuda financeira, dava-lhes atenção, esperança e a alegria de sua presença. Isso fica claro, quando essas mulheres em seu velório mostravam os vestidos costurados por Tabita com os quais elas eram presenteadas. 

Tabita tornou-se um símbolo da instituição de obras sociais por parte da igreja. Seu protagonismo estava embasado nos princípios de um Cristo que buscava se doar pelos seres humanos. Essa discípula manifestava esse amor aos que necessitavam de sua ajuda. A comunidade jopeana ficou realmente feliz em recebê-la de volta, da morte para a continuidade de uma vida entregue ao outro, uma vida de testemunho, de uma espera ativa pela nova vinda de Jesus, a plenitude do Reino.

Como verdadeira discípula, Tabita aprendeu com Jesus, servindo (diakonein) e praticando (diakonia) através de suas “obras de misericórdia”. Ela sabia o que era ter um coração generoso e cheio de misericórdia e disso decorreu em uma vida altruísta e de “boas obras”. A narrativa nos informa que ela vive de acordo com os preceitos e comandos do amor ao próximo, auxiliando os que estavam ao seu redor. Através da confecção de túnicas junto às viúvas de sua comunidade, Tabita representou a fé cristã em ação. Sua devoção é registro para todas as gerações a seguir, através dessas palavras simples, mas profundas: “Em Jope havia uma discípula chamada Tabita”. O nome de Tabita representa um chamado para servir, ela nos ensina que a pobreza, a opressão e a exclusão podem ser removidas mediante a prática de boas obras e gestos de misericórdia.

Em Atos 9 temos um exemplo de reconstrução social através da história da discípula (mathétria) Tabita, onde sua atitude para com as viúvas da comunidade de Jope corrobora para uma visão transformadora no caminho para uma sociedade mais justa, delineando um modelo de fé social. É com a práxis da misericórdia (eleemosyne poiein) de Tabita que a diakonia se faz presente, como que sustentando essa comunidade que se organiza reconstruindo de forma solidária uma nova comunhão em Deus, pautada em valores voltados a evitar o descumprimento das promessas e compromissos para o alcance do Reino de Deus.

Podemos inferir que testemunhar Jesus, nos moldes de Tabita, é um servir misericordioso que alcança a todos indiretamente: “Espalhou-se a notícia por toda Jope, e muitos creram no Senhor”. Testemunhar Jesus é servir. E servir é a verificação do amor em ação para fazer cessar a necessidade, o sofrimento e a injustiça. “Servir” é realmente praticar as boas obras de Deus. 

Em última análise, a plenitude do Reino depende da disponibilidade de cada um para viver a fraternidade e a partilha. Enquanto isso não for vivido por todos, a realização definitiva do Reino prometido não acontecerá. Para que a parusia chegue é necessário que a humanidade inteira tome conhecimento, aceite e viva o testemunho de Jesus. Na parusia, Cristo será tudo em todos.

O impulso eficaz do testemunho cristão é a força do Espírito, ou seja, a força do próprio Deus agindo através da abertura e disponibilidade dos cristãos. Na ascensão de Jesus, os apóstolos ficam olhando para o céu, mas são acordados desse torpor e lembrados de que se ficarem olhando para o céu Jesus jamais voltará. A parusia acontecerá através do testemunho da comunidade dos que creem em Jesus. Portanto, a espera do advento, a espera da parusia, deve se transformar em ação e anúncio.

O Reino de Deus, inaugurado e tornado presente em Jesus de Nazaré, ainda não se realizou em plenitude. Entre a páscoa e a parusia abre-se um tempo intermediário, o tempo da Igreja, onde experimentamos os sinais da presença do Reino, mas ainda vivemos na expectativa da sua plena realização. Nesse meio tempo, o ser humano sempre terá a possibilidade de abrir-se ao amor ou manter-se fechado no egoísmo, recusando-se ao influxo da graça de Deus.

Que a espera da parusia nos inste à diligência do testemunho em doação à prática do amor fraterno nos abrindo a vivenciar a lógica do Reino de Deus. Com Tabita aprendemos que a espera por Jesus não deve nos deixar passivos, mas nos levar à missão, pois a nova vinda gloriosa de Jesus se realizará através do testemunho dos discípulos e discípulas. Que estejamos todos, nessa espera ativa, apertados de costura!

*Flávia Gomes é especialista em teologia bíblica, mestre em ciências da religião e graduada em filosofia

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Por , em 2020-12-18 00:00:01


Fonte domtotal.com



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