Antonio Fagundes lança livro com dicas literárias: ‘Meu gênero favorito é livro bom’


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SÃO PAULO — No livro “O último leitor”, o argentino Ricardo Piglia (1941-2017) descreve os tipos de bibliomaníacos que apareceram junto com a modernidade. Há aquele leitor, quase sempre celibatário e insone, que se comporta como um detetive e tenta desvendar o mistério oculto nas entrelinhas, nos sentidos das palavras. Há o leitor mais parecido com Che Guevara (o argentino arrumava tempo para ler no meio da guerrilha cubana), que parte da leitura solitária para a ação coletiva. E há também aquele leitor que, como Emma Bovary, a adúltera mais famosa do século XIX, que lê a ponto de delirar e toma a literatura como uma régua para medir a própria vida. Antonio Fagundes faz um tipo não catalogado por Piglia: o leitor ator, que, dependendo do que lê, sabe ser detetive, revolucionário ou bovarista.

— Como sou ator, sirvo a cada um desses leitores. Viro um detetive quando leio uma história policial e me envolvo quando leio um romance. Tanto o ator quando o leitor tem intimidade com a palavra — diz Fagundes por telefone. — Uma das coisas magníficas da leitura é estimular a compaixão, ensinar a gente a se colocar no lugar do outro.

 

Depois de viver Alberto, o editor meio rabugento que conversava sobre livros com a neta Sofia (Valentina Vieira) e com Paloma (Grazi Massafera) — de Conceição Evaristo a Dostoiévski — na novela “Bom sucesso”, Fagundes tomou gosto por indicar leituras. Apresentou o podcast “Clube do livro” (parceria com o GShow) e lança, nesta sexta-feira (4), um título de sua própria lavra: “Tem um livro aqui que você vai gostar”, no qual indica mais de 150 títulos (todos já lidos por ele, é bom insistir), dos mais diversos gêneros, da novíssima literatura brasileira à não ficção interessada em discussões contemporâneas como o feminismo. O que Fagundes indica vende. Segundo um levantamento de outubro de 2019, encomendado pelo jornal “Extra” e feito pela plataforma de comércio eletrônico Zoom, a procura pelos títulos mencionados na novela cresceu em até 15%.

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— Brinco que o meu gênero favorito é o livro bom — diz Fagundes, que está lendo “A república das milícias”, de Bruno Paes Manso, e “Sete breves lições de física”, de Carlo Rovelli. — O livro do Bruno é importantíssimo para entender o que está acontecendo hoje. E o do Rovelli é interessantíssimo, explica física quântica e teoria da relatividade para imbecis como eu. O importante é escolher um livro que interesse, não importa se é de sociologia, ficção científica ou policial.

‘Analfabyte’

Fagundes teve mononucleose quando menino e aproveitou o repouso para devorar gibis. Naquela época, havia quem torcesse o nariz para histórias em quadrinhos, mas a mãe dele não ligava e abastecia o filho com revistinhas. Veio da mãe uma das indicações que Fagundes mais costuma dar: “A cidadela”, do escocês A.J. Cronin, publicado em 1937. É a história de um jovem médico idealista numa cidade mineradora no interior da Inglaterra.

— Minha mãe falava sempre com muito carinho desse livro, mas eu me recusava a ler, por achar que talvez fosse um livro do tempo da minha mãe (risos) — conta. — Li finalmente há uns 40 anos e encontrei um livro fabuloso, uma linda história de amor e um painel da Inglaterra do começo do século XX. Até hoje guardo cenas inteiras do livro na memória. Principalmente do final, que não vou te contar para não dar spoiler (risos).

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Fagundes lê dois ou três livros por semana. Ele se descreve como um “analfabyte”. O tempo que não perde no celular, ele gasta lendo, entre uma cena e outra, no teatro ou na TV. Ele também anda falando de livros no Instagram. No último fim de semana, desafiou seus seguidores a passar 48 horas longe do celular e aproveitar esse tempo para ler, mas ficou decepcionado ao ver que muita gente desistia antes de tentar. Além ler e atuar, Fagundes também já narrou alguns audiolivros, como “Sapiens”, de Yuval Noah Harari, e “A via crucis do corpo”, de Clarice Lispector.

— Nos anos 80, me voluntariei para ler no Instituto de Cegos (Padre Chico), em São Paulo, onde havia um gravador enorme. Lembro que li crônicas do Rubem Braga e romances — conta.

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Um leitor mais atento talvez perceba que faltam indicações de um certo gênero em “Tem um livro aqui que você vai gostar”: teatro. Há ali uma sugestão das peças de Shakespeare e só. Perguntado se tinha algum texto dramatúrgico a indicar, Fagundes perguntou: “Quando tempo você tem?”. E emendou uma lista de autores: Molière, Ionesco…

—Deixei o teatro de fora pela dificuldade de achar, por exemplo, as peças do Brecht editadas. E pode ser difícil para quem não tem o hábito — justifica.

De olho no streaming

Além de ler ainda mais, o ator tem aproveitado o confinamento para ver o que os companheiros do teatro andam aprontando no streaming. Não dispensa participar de alguma apresentação virtual, mas afirma: streaming não é teatro.

— O teatro depende dessa coisa mágica que é a aglomeração, da reunião de pessoas desconhecidas, no escuro, observando atores desenvolver ideias no palco. Nenhum veículo consegue transmitir essa energia linda que faz o teatro um espetáculo único — diz.

Fagundes pensa em retomar seu podcast e, apesar de sempre repetir ter mais talento para a leitura do que para a escrita, não afasta a possibilidade de publicar mais um livro.

— A ver o que acontece.

Dicas do Fagundes

Confira algumas recomendações feitas pelo ator em “Tem um livro aqui que você vai gostar”:

“O tribunal da quinta-feira”, de Michel Laub

“Uma história muito interessante e moderna que fala dos problemas que a internet causa na relação entre pessoas.”

“A noite dos tempos”, de René Barjavel

“Poucas pessoas conhecem essa fantástica história de amor e ficção científica. Esse livro, para mim, não envelhece.”

“Carmen”, de Ruy Castro

“A vida de uma das nossas maiores estrelas, pouco conhecida hoje. E o humor e a sabedoria do Ruy Castro só têm a acrescentar.”

“Ela disse”, de Jodi Kantor e Megan Twohey

“São duas jornalistas que começaram a investigar histórias sobre um famoso produtor de cinema, Harvey Weinstein.”

“Os robôs e o futuro do emprego”, de Martin For

“Para todos nós que vivemos essa era de transição em que o futuro chega cada vez mais rápido.”

“História da solidão e dos solitários”, de Georges Minois

“Uma análise profunda sobre o tema, que me interessou bastante.”

Capa de "Tem um livro aqui que você vai gostar", de Antonio Fagundes Foto: Reprodução / Divulgação
Capa de “Tem um livro aqui que você vai gostar”, de Antonio Fagundes Foto: Reprodução / Divulgação

Serviço:

“Tem um livro aqui que você vai gostar”

Autor: Antonio Fagundes. Editora: Sextante. Páginas: 240. Preço: R$ 49,90.

Por Ruan de Sousa Gabriel , em 2020-12-04 03:30:35


Fonte oglobo.globo.com

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