Comunidades quilombolas lutam pela sobrevivência – [Blog da Solange Pereira]

“Não há uma política do Estado para que as comunidades possam entender esse processo que a doença utiliza. A falta de informação, instrução e saúde é um gargalo. Não existe uma política efetiva para as populações do campo, os cuidados de isolamento, testagem, esse processo de aconselhamento em saúde pública”, ataca Magno Promanação, da Coordenação das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Pará (Malungu). Até a sexta-feira (14), o estado nortista perdeu 43 moradores de comunidades quilombolas em decorrência da covid-19.

As mortes nas comunidades paraenses representam quase um terço de todos os óbitos quilombolas no Brasil. Conforme dados coletados pelos próprios moradores e aglutinados pela Coordenação Vernáculo de Fala das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) — que os cruza com informações do Instituto Brasílico de Geografia e Estatística (IBGE) no portal Quilombo Sem Covid-19 —, são 152 falecimentos nos quilombos brasileiros, com 4.102 infecções. Há 528 localidades no estado, sendo unicamente 65 nas redondezas de qualquer município.

A segunda posição em óbitos quilombolas é do Rio de Janeiro. Apesar da baixa concentração de comunidades — são 116, e 36 delas nas cercanias de áreas urbanas — até a última sexta foram 37 falecimentos dentro dos quilombos por justificação da pandemia.

Término do isolamento

Moradora do Maria Joaquina, nas imediações de Cabo Insensível, na Região dos Lagos fluminense, Rejane Oliveira critica a retomada de atividades não essenciais no município. “Abriram o negócio e permitiram jogos de futebol na cidade. Todo mundo está na rua, não tem mais isolamento”, aponta.

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Membro da Conaq e coordenadora da Associação dos Quilombolas do Rio de Janeiro (Aquilerj), Oliveira mostra que, apesar da proximidade com a cidade, o trajectória até o atendimento em caso de contaminação pelo novo coronavírus é grande. “Fui infectada em junho, mas já estou melhor. São 25 km até o hospital de campanha. Foi uma luta para ser atendida e comprar remédio”, relata a ativista.

Assim uma vez que o colega paraense, ela ataca a pouquidade do Estado durante uma crise sem precedentes. “Até o momento, não há ações do governo, unicamente de ONGs [organizações não governamentais] e ação integrada da população”, queixa-se.

Ela atendeu à reportagem na volta de uma dessas iniciativas. A fala das dez comunidades remanescenes dos quilombos presentes na Região dos Lagos identificou que a mão de obra ociosa das mulheres das redondezas seria crucial para a resguardo dessas comunidades.

“Demos a teoria de costurar as máscaras e entregar nos quilombos, para promover a urgência de proteção contra essa doença”, conta Oliveira. “Cada modista nossa recebe 400 máscaras para repartir e alguns metros de tecido para continuar produzindo”, explica.

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Outros estados

Detrás de Rio de Janeiro e Pará vem o Amapá, com 21 mortes de quilombolas — quase um óbito a cada 3,41 comunidades do gênero. O Maranhão contabilizou 12 falecimentos, e nove foram registrados em Pernambuco. Bahia e Espírito Santo perderam cinco moradores de quilombos cada.

Também registraram vítimas os estados de Goiás, Ceará, Paraíba, Alagoas — terreno do lendário Quilombo dos Palmares —, Rio Grande do Setentrião, Tocantins, Amazonas e Piauí.

Falta de chegada a serviços

A ingressão das comunidades quilombolas no planta da covid-19 foi exponencial. Em 23 de abril, o Jornal de Brasília conversou com Givânia Silva, fundadora da Conaq. À era, eram sete casos de contaminação pelo novo coronavírus, com seis mortes. Agora, são 586 vezes mais infecções e 25 vezes mais mortes, e a situação das comunidades pode piorar.

De concórdia com estudo em parceria de Conaq, quipe de Conservação da Amazônia (Ecam) e outras entidades, 67% da população entrevistada vive com até um salário mínimo por mês, e 63% têm ao menos um parente trabalhando fora da comunidade.

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Pontos de risco

São dois pontos de risco para a saúde dos quilombos. Primeiro, porque o dispêndio com tratamento para a covid-19 é contrastado com a pouca capacidade de compra; depois, ingressão e saída de quilombolas das comunidades abrem portas para a contaminação em tamanho.

“Muitos precisam transpor para trabalhar, e assim se contaminam nas cidades. Quando voltam, trazem o vírus”, comenta Givânia. “É uma precariedade pela falta de ação do Estado. O próprio monitoramento deveria ser feito pelas autoridades, não por nós”, contesta.

Outro ponto crucial na pesquisa versa sobre o chegada a chuva. A urgência de limpeza para combater o novo coronavírus esbarra no parco fornecimento.

Segundo Ecam, Conaq e parceiras, 55% dos quilombolas dependem de poços artesianos, que ainda representam problemas de higiene. “A chuva é captada de qualquer recurso hídrico e não tem tratamento qualquer antes do consumo”, comenta Promanação.

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Esgoto

Com relação a coleta de esgoto, unicamente 0,3% dos entrevistados são beneficiados por esgotamento ambiental. Em contrapartida, 19% convivem com esgotos a firmamento cândido.

Questionado sobre políticas de esteio aos quilombos em meio à pandemia, o Ministério da Cidadania afirmou que essa responsabilidade era do Ministério da Saúde e da Instauração Cultural Palmares (FCP), que não responderam aos contatos da reportagem até o fechamento desta edição.

Não existe um número solene sobre o tamanho da população quilombola brasileira. Fontes não governamentais estimam a existência de 2 milénio a 3 milénio comunidades. O cadastro solene reconhece 1.700.

Saiba Mais

Os quilombos são comunidades surgidas da luta contra a escravidão no país até o século 19.

Grupos de escravos fugiam da cruel situação da escravidão e se abrigavam nesses espaços, onde se organizavam para resistir e viver.

A vocábulo vem do termo kilombo, presente no linguagem bantu, de Angola. Significa “lugar de pouso” ou “acampamento”.

Os atuais quilombolas são descendentes desses escravos que organizaram no pretérito tais localidades.

O mais famoso dos quilombos foi o de Palmares, em Alagoas. Na verdade, Palmares era uma reunião de dez quilombos e chegou a ter uma população de 20 milénio habitantes. Principal líder de Palmares, Zumbi tornou-se um herói preto e é em sua homenagem que é festejado o Dia da Consciência Negra.



Por , em 2020-08-17 06:27:58


Natividade jornaldebrasilia.com.br



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