Crítica | Com Black is King, Beyoncé cria obra vanguardista e necessária – [Blog da Solange Pereira]

LEGENDADO: BLACK IS KING - Trailer (Oficial)

Álbum visual é quando o videoclipe encontra o cinema, com as músicas de um álbum ligadas narrativamente através de um grande clipe que, ao final, torna-se um longa-metragem. Black is King, porquê o álbum visual que é, explora o que há de mais potente em ambas as formas de audiovisual: o cinema permite a geração e expansão de uma narrativa, enquanto o videoclipe não só incorpora a música ao cinema (criando uma peça músico), porquê também permite que se faça um trabalho vanguardista, multíplice e conceitual sem que necessariamente acabe nichado porquê a maioria dos filmes que se arriscam em uma linguagem mais hermética. Aliás, a música é historicamente uma das mais poderosas ferramentas pedagógicas, sobretudo na cultura dita popular e tradicional.

Black is King é o encontro do elitismo cultural e do popular e, pela simples união desses opostos, prova que ambas as categorias são vazias: não é válida essa categorização que leva muitas pessoas a notabilizar entre subida e baixa arte, o letrado versus o popular. Arte é arte e essa tautologia está estampada no trabalho de Beyoncé. E porquê uma boa arte de vanguarda, não está livre de polêmicas.

Imagem: Disney+

Há muito a se discutir sobre Black is King a partir dos mais diversos pontos de vista, e há algumas perspectivas que obviamente não me cabem por motivos de lugar de fala, portanto precisarei me ater às questões mais técnicas de Black is King, que, com ou sem o teor que propõe, já é um dos melhores (se não o melhor) filmes do ano.

Atenção! A partir daqui, a sátira pode sustar spoilers.

A forma

Inspirado na narrativa shakespeariana de Rei Leão, Black is King acompanha a trajetória de Simba, passando pelos momentos mais marcantes da animação, mas sem se ater a questões de fidelidade. Beyoncé interpreta uma figura divina que, justamente por essa quesito, é onipresente e onisciente, o que permite que ela se insira em cena e justifique sua voz na narrativa.

Para relatar essa história, o visual de Black is King é tremendamente influenciado pelo afrofuturismo, que abre espaço para que seja incorporado, seja no figurino ou no envolvente, enfim, em toda a mise-en-scène, elementos de qualquer período histórico. É zero sutil o modo porquê o figurino mistura trajes e adornos tradicionais da cultura africana com subida costura, um encontro perfeito entre o cultural-histórico e a moda-conceitual.

Imagem: Disney+

Mais do que nos filmes de estrutura clássica, Black is King faz uso de toda a potência de libertação das amarras das narrativas padrões ao optar pela linguagem metafórica do videoclipe, que geralmente precisa condensar muito teor em pouquíssimo tempo, o da duração de uma música. Assim, muito do que quer ser dito para além da letra da música precisa estar impresso nos elementos de cena: cenário, direção de arte, retrato (iluminação), disposição dos personagens no quadro, figurino… Isso tudo torna o filme incrivelmente denso e muito mais multíplice e repleto de camadas.

Essa dificuldade toda, potencializada ainda mais pela estética afrofuturista e vanguardista, poderia transformar Black is King em uma obra de difícil chegada e baixíssimo apelo popular, fadada a ser cultuada por um grupo reduzido de cinéfilos, porquê acontece com produções porquê A Serra Sagrada, de Alejandro Jodorowsky. O trajo de ser um resultado artístico de uma diva pop e de o teor das letras ser bastante evidente e direto, por outro lado, cria o estabilidade perfeito para o filme. O encontro da dificuldade com o simples, do cult com o pop, faz de Black is King um marco artístico há muito não visto, uma enunciação de que a arte é democrática e não um resultado para um grupo proporcionalmente minúsculo de supostos especialistas.

As polêmicas

Embora a sátira seja, essencialmente, o compartilhamento de impressões pessoais, em alguns casos essas impressões não têm espaço. Nesta segmento do texto irei me ater a discussões que foram expostas por pessoas com lugar de fala e que me fizeram refletir sobre a forma de Black is King.

Imagem: Disney+

Ao final do filme, Black is King mostra a bandeira dos EUA com sua cores alteradas, o que me fez entender que o filme é direcionado muito mais aos afro-americanos que aos africanos, mas é importante ressaltar que a sátira africana tem indiciado Black is King de apropriação cultural. Aliás, muitos não têm visto com bons olhos a opulência da obra ou mesmo o trajo de ser uma produção Disney.

Esses e outros tantos pontos são de suma influência e merecem todas as discussões honestas que possam ser desenvolvidas. Por outro lado, gostaria de fazer um invitação a todos os espectadores: Black is King precisa ser observado sem condescendência e com um olhar crítico, mas sem deixar que isso atinja o extremo de impedir o reconhecimento do verdadeiro impacto que ele pretexto: representatividade, justiça histórica e empoderamento.

Imagem: Disney+

Uma vez que qualquer obra de vanguarda e que propõe uma mudança do status quo, Black is King é intuito de muitas críticas e, também, elogios. Mas também, pelos mesmos motivos, trata-se de um grande passo revolucionário e capaz de mostrar mais uma vez o poder da arte.

Agradeço aos colegas do Penumbras (Clayton, Sérgio e Naiana), a Jeff Augusto e a Igor Gomes pelos diálogos que ampliaram minhas percepções de Black is King.

*Nascente texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech

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Por , em 2020-08-15 09:20:00


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