Em romance, autor francês encarna Albert Camus no difícil século XXI


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RIO — Em exclusivamente 192 páginas, o gálico Tanguy Viel condensa em “Cláusula 353 do Código Penal”, seu 12º livro, as vãs filosofias que permeiam a existência de meio mundo — e justamente aquela secção de caráter insano, que parece ter se proliferado nas últimas décadas. Essa concisão é coisa de um craque que, não por eventualidade, tem colecionado prêmios importantes no exterior, sendo comparado até a Albert Camus (1913-1960), Nobel de Literatura de 1957. É uma baita responsabilidade.

As semelhanças entre Viel, de 46 anos, e o franco-argelino são instigantes mesmo. “Cláusula 353…” é basicamente um diálogo entre um facínora confesso e o juiz primeiro do caso. Impossível não lembrar o julgamento de Mersault, o protagonista do clássico “O estrangeiro” (1941), um dos romances mais populares de Camus, e do solilóquio “A queda” (1956), narrado por um sujeito que se diz “juiz-penitente”. Mas as referências que unem os dois escritores vão muito além da superfície

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Em “Cláusula 353…”, um claro Martial Kermeur conta, logo de faceta, porquê matou o empresário Antoine Lazenec e por que foi para vivenda esperar serenamente pela polícia. Sabia que seria recluso em poucas horas, e parece até que era isso mesmo que estava querendo. Assim porquê Mersault, Kermeur é um sujeito resignado, pronto para enfrentar seu direcção. Por isso, apresenta-se com tranquilidade perante o juiz. Desfiando sua resguardo, ele costura o retrato de uma sociedade às voltas com golpistas travestidos de cidadãos do muito e suas vítimas — que, por sua vez, nem sempre são tão inocentes. Parece o Brasil de sempre, mas é França, anos 1990.

Não há legista ao lado do homicida, e é pela sua voz que vamos saber Antoine Lazenec. A vítima chegara ao balneário onde vive Kermeur prometendo levantar a autoestima da cidade, saída por uma crise econômica. Com a ajudinha do prefeito, lança o projeto de um empreendimento colossal. O negócio é um sucesso, atraindo dezenas de moradores, que despejam ali toda a sua poupança. Kermeur é um deles.

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Só que é tudo pilantragem do Antoine Lazenec. A obra grandiosa mal sai do papel. E o empresário, em vez de sumir no mundo, mantém-se na cidade, fingindo preocupação com o estrago financeiro e prometendo entregar os imóveis aos seus clientes. Fingir que está tudo muito é uma estratégia recorrente entre vigaristas de subida patente.

Pior para Kermeur, cujos problemas pessoais não são poucos. No olho do furacão, o fruto pirou e acabou recluso, e a mulher foi embora, assim porquê a grana. Sua única salvação é manter-se próximo ao pilantra-mor, prestando-lhe serviços menores e alguma companhia.

Essa servidão tão generalidade não será em vão, pois o protagonista é um varão virtuoso. Sabe que, mesmo mergulhado numa miséria de dar palato, pode fazer alguma coisa para melhorar o planeta. Assim, Kermeur se toca de que extirpar Lazenec da sociedade é um bom início de faxina moral. Convicto disso, segue sua consciência, faz o que deve ser feito. Tornar-se facínora não era seu projeto de vida, mas acontece.

O preço a ser pago

Porquê se sabe, e Albert Camus reforçou isso o tempo todo em sua obra, a fidelidade aos próprios princípios sempre exige um preço a ser pago. Sem compunção (o que costuma piorar a situação dos réus), Kermeur está disposto a pagá-lo. É aí que Tanguy Viel dá seu golpe de rabi — e é cá que paramos a descrição, a termo de preservar boas surpresas para quem quiser saber o “Cláusula 353 do Código Penal”. E nem adianta o leitor ousado buscar o tal cláusula no Google, que vai indicar alguma coisa muito dissemelhante do que é citado — e aplicado — no pequeno romance, até porque a Justiça está longe de ser universal…

Visível é que Viel nos entrega um ótimo suspense que subverte a ordem tradicional do velho thriller. Conhecemos o criminoso desde a primeira página, e o que importa, muito além do violação, é a narrativa precisa envolvendo moral, responsabilidade, distinção, culpa, justiça, poder, prepotência. No termo das contas, qual punição é suficiente para um homicídio premeditado?

Toga do livro “Cláusula 353 do Código Penal”, de Tanguy Viel Foto: Divulgação

Ao longo da leitura de “Cláusula 353…”, a propósito, é inevitável correlacionar algumas de suas passagens ao fabulário universal do nosso delírio cotidiano. Um exemplo é o triste incidente do desembargador Eduardo Siqueira esculachando um guarda no cumprimento de sua função, em Santos, mês pretérito. O que Kermeur teria feito com tal magistrado?

Por essas e por outras, entende-se a associação de Viel a Albert Camus. Ambos dão às situações o peso que elas têm, sem maquiagem da retórica. Eles — ou seus personagens — tampouco idealizam o mundo. As coisas são o que são, e não há muitas alternativas. Os absurdos aparecem por si, sem dramas. A vida não é um incidente da “Peppa pig”.

Daí para você filosofar, ainda que tortamente, sobre essas e outras histórias é um pulo. Camus viveu disso. Por mais que sua literatura contenha derramados toques de boas intenções e pureza d’espírito, é difícil o leitor não se render ao seu talento literário. O mesmo acontece com Tanguy Viel. A diferença é que Viel é um tanto mais cínico — até porque, desde que Camus morreu, aprendemos a duras penas que zero do que é sem razão nos é estranho. E isso tem um peso.

Serviço

“Cláusula 353 do Código Penal”Responsável: Tanguy Viel. Editora: Rádio Londres. Tradução: Maria de Fátima Oliva do Coutto. Páginas: 192. Preço: R$ 65,90. Cotação: Ótimo.

Por Nelson Vasconcelos, próprio para O GLOBO , em 2020-08-01 04:30:40


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