Nasce Brasília. Sessenta anos de uma ideia feliz – [Blog da Solange Pereira]

LÚCIO FLÁVIO, DA AGÊNCIA BRASÍLIA

 

Fotos: Registo Público do DF

Foram três longos dias de sarau. E teve de tudo. De dança de gala a corrida de carros em pleno Eixo Monumental. Celebração de missa a cascata de fogos de artifícios, uma novidade para muitos até portanto. Quem presenciou, tem as imagens gravadas na memória porquê se fosse hoje. Estima-se que mais de 200 milénio pessoas acompanharam as solenidades. Grande segmento varou a noite sem pregar os olhos.

A inauguração de Brasília, em 21 de abril de 1960, há exatos 60 anos, foi um caso, embora muitos daqueles que já moravam na cidade, muito porquê segmento do resto do país, não acreditassem que aquela ousadia ou “loucura” do presidente Juscelino Kubistchek, porquê diziam os desafetos, fosse dar evidente. E deu.

Segundo dados do Recenseamento daquele ano, a população da novidade capital girava em torno de 140 milénio pessoas. Desse número, mais de 87 milénio eram homens, em sua maioria, trabalhadores que vieram prestar serviço nas várias obras espalhadas pelo sítio. Tanto quanto as mulheres, estimadas à quadra em 53 milénio, a idade média desses primeiros a chegarem era 22 anos.

“Algumas pessoas não estavam convencidas, nem as que moravam cá”, lembra hoje a coreógrafa Gisèle Santoro, 81 anos. “Tinha algumas construções, mas você olhava para os lados e não tinha zero. Para ir ao Lago Sul, dava-se uma volta danada, porque não tinha a ponte e as mansões pareciam mais distantes”.

Gisèle teve o privilégio de dançar em cima do Congresso Pátrio no dia da sarau. “Eram uns 12 bailarinos, chegamos num avião da FAB, e, porquê tinha chovido, a cidade era só vasa. Dançamos na segmento de cima do Congresso, com a orquestra embaixo, e a iluminação foi um espetáculo.”

E foi mesmo. Podia-se ver o clarão dos efeitos de luzes ao longe. Luzes que anunciavam, metaforicamente, o amanhecer de um novo Brasil. Um Brasil comprometido com o progresso e o desenvolvimento, e tal qual símbolo dessa novidade identidade pátrio recaía exatamente sobre Brasília, a cidade moderna e futurista construída no coração do Planalto Medial, prometendo vincular o país de Setentrião a Sul, do Oiapoque ao Chuí. Daí as lágrimas sinceras e convulsivas derramadas por Juscelino Kubistchek um dia antes, no primeiro dia das celebrações, durante a missa solene celebrada por dom Manuel Gonçalves Cerejeira. Uma cena que despertou atenção do vice João Goulart, sentado ao seu lado, e foi registrada em flagrante marcante.

“Só vi meu pai chorar em duas ocasiões: na morte de familiares e na inauguração de Brasília”, diria mais tarde a filha de JK, Maria Estela.

Era um pranto de conforto, misturado com alegria. Por fim, concretizava-se ali o projeto de toda uma vida, de uma curso, a realização de uma utopia que nasceu de um presidente que desafiou o impossível. A transferência da novidade capital para o coração do país foi encarada por JK em “sua mais importante guerra travada em vida pública”, porquê destacou o jornalista e historiador Ronaldo Costa Couto. “A inauguração da cidade tem profundo significado histórico pelo veste em si e por incluir a transferência simultânea da capital, sinalizar certeza pátrio para dentro e para fora, indicar novos rumos”, escreve Ronaldo no livro Brasília Kubitschek de Oliveira.

Simbologia histórica

As festividades tiveram início, oficialmente, às 16h, numa quarta-feira (20), na Rossio dos Três Poderes, com o presidente da Novacap, Israel Pinho – o varão que comandou operários durantes as obras –, entregando as chaves da cidade ao presidente JK. Com a poder de quem seria, futuramente, o primeiro “prefeito” de Brasília, o macambúzio “Dr. Israel” aproveitou a oportunidade para satirizar opositores: “Brasília é obra do nacionalismo salubre, de otimismo instituidor, de ânimo pioneiro, (…) de iniciativas que rasgam os largos caminhos de um porvir que o Brasil reclama com impaciência, com ímpeto jovem, com lazeira de renovação.  O espírito de Brasília é tudo o que há de contrário ao derrotismo sistemático”.

 

“O espírito de Brasília é tudo o que há de contrário ao derrotismo sistemático”Israel Pinho, presidente da Novacap, durante a primeira solenidade na novidade capital

Marcada para a noite, a celebração religiosa tem caráter simbólico por dois motivos. No altar improvisado armado na Rossio dos Três Poderes, destaca-se uma relíquia vinda de Braga, Portugal: a cruz de metal usada na Missa da Invenção, celebrada por Frei Henrique de Coimbra havia 460 anos, em 26 de abril de 1500, na baía de Porto Seguro, poucos dias depois do descobrimento do Brasil por Pedro Álvares Cabral. A peça sacra passa a teoria de um novo promanação, de batismo renovado. À meia-noite em ponto, na noite calma e reluzente da novidade capital, soa o repique do velho sino que tocou pela morte de Tiradentes em 21 de abril de 1792. O artefato histórico fora trazido de Ouro Preto, cidade historicamente mana de Diamantina, terreno natal de JK.

Ao coração do Brasil

Finalmente chega o dia da inauguração. Os poucos hotéis existentes da cidade estavam apinhados de gente. As pessoas que tinham morada alugavam um quarto, às vezes até o sege da família.  Porquê a mãe era funcionária do Congresso, Gisèle Santoro, a jovem bailarina que dançou sobre as hastes do poder, dormiu num apartamento da 305 Sul. “Os outros dançarinos foram para um alojamento, e, no dia seguinte, todos pegamos o voo da FAB de volta para o Rio de Janeiro”, rebobina a artista.

Há relato de várias aventuras realizadas para se chegar ao coração do Planalto Medial. Depois de 240 dias de viagem dos Pampas até o Obstruído, o gaúcho Francisco Alves chega com a mulher e quatro filhos para a sarau. Meio que simbolizando um ritual de passagem, de entrega da tocha, uma poste de Corpo de Fuzileiros Navais percorre mais de milénio quilômetros. É a intervalo que separa as duas capitais – a antiga, Rio de Janeiro, e a novidade, Brasília. Uma intervalo maior, de quase 3 milénio quilômetros, foi percorrida pelo parelha prateado Mercedes e Hugo Urquiza, que, de jipe, levaram 48 dias para realizar a lendária saga.

“Era o nosso batismo de incêndio para um mundo novo e incógnito. Com o peito apertado, partimos para nunca mais voltar”Mercedes Urquiza, em seu livro de memórias

“Era o nosso batismo de incêndio para um mundo novo e incógnito”, escreveu Mercedes em seu livro de memórias, A Trilha do Onça – Na Alvorada de Brasília, lançado em abril de 2018. “Com o peito apertado, partimos para nunca mais voltar”, narra ela, que participou da recepção de gala oferecida pelo presidente JK, no Palácio do Planalto, posteriormente a sarau popular que aconteceu na Rossio dos Três Poderes.

Entre os três milénio convidados, além do corpo diplomático, ministros de estado e autoridades federais, havia alguns opositores. Logo governador da Bahia, Juracy Magalhães chegou ao Palácio com um presente privativo para JK: uma gravata quadriculada em preto e branco, que trouxera dos Estados Unidos. O enfeite luxuoso era fruto de uma aposta perdida que fizera com o presidente, quando sustentou que o patrão de Estado não entregaria a capital dentro do prazo.

Reza a mito que o estilista Dener Pamplona, pioneiro da voga no país, se encarregou pessoalmente da geração do vestido da primeira-dama, Sarah Kubistchek. Era um protótipo tomara que caia de organza de seda pura branca distribuída em 12 metros de tecido. A cereja do bolo seriam os cinco milénio cristais, vidrilhos e lantejoulas arranjados em bordados florais. Uma pena que toda essa pompa e imponência conferida ao evento tenha se perdido um pouco por conta do lameiro que virou a cidade. “Entre eles [os convidados], naturalmente, [estavam] as maiores socialites do Rio de Janeiro – acompanhadas dos mais famosos cabeleireiros – que, apesar de lamentar a saída da capital, reconheciam a maravilha daquele momento”, escreve Mercedes Urquiza em seu livro.

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Nos braços do povo

Naquela noite, uma frase sincera e pragmática proferida pela mãe de JK, Júlia, à nora, pouco depois de contemplar demoradamente a cidade, encheria o presidente de êxtase e orgulho. “Só o Nonô mesmo seria capaz de fazer tudo isso”, disse a octogenária, no auge de sua sabedoria mineira.

Depois a cerimônia de gala, simples porquê sempre foi, JK se desnudou da ostentação do poder e, descendo a rampa do Palácio do Planalto, se deixou desabar nos braços do povo. Testemunha ocular desse momento, o jornalista e comentador político André Gustavo Stumpf não se esqueceu do que registrou. “Nunca vi zero parecido em termos de alegria. Pessoas humildes se ajoelhavam diante dele. Beijavam-lhe as mãos. E Juscelino ria e abraçava tudo mundo. Não sabia o que fazer. Era a imagem de uma felicidade radiante”, contou, em testemunho publicado no livro Brasília Kubistchek de Oliveira, de Ronaldo Costa Couto.

Por , em 2020-04-21 12:00:00


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