Coronavírus muda rituais sagrados indígenas e afeta renda de aldeias do litoral de SP | Vale do Paraíba e Região – [Blog da Solange Pereira]

Mal o sol se põe, os índios da povoado Boa Vista, em Ubatuba no litoral setentrião paulista, vão caminhando para a mansão de reza da comunidade. É hora de agradecer a Tupã, que, na crença deles, é o pai universal. O ritual é sagrado, mas há tapume de um mês ficou restrito e nem todos ali podem participar. Com a pandemia do novo coronavírus, não pode mais ter aglomerações. A rotina ali teve que ser adaptada.

Além de costumes tradicionais, a renda dos índios também foi alterada pela Covid-19: o quantia chegava por meio da venda de artesanatos e de palmito. Mas sem poder receber visitas ou transpor para vender, eles viram a receita praticamente zerar. Passaram, desde logo, a racontar com doações de amigos e da assistência social do município para ter mantimentos porquê arroz e feijoeiro, além de itens de higiene pessoal.

Na povoado Renascer, também em Ubatuba, a situação é semelhante. Os índios de lá não participaram de alguns rituais tradicionais, porquê o de batismo, para evitar o risco da contaminação pelo novo coronavírus. Os moradores que sobrevivem do artesanato também têm dependido de doação de cestas básicas neste período.

Neste domingo (19), Dia do Índio, as duas aldeias passam pela data vivendo uma veras dissemelhante de anos anteriores.

Casa de reza da aldeia durante recepção para visitantes antes da pandemia do Covid-19; culto para Tupã não pode ser registrado — Foto: Wendell Marques/DivulgaçãoCasa de reza da aldeia durante recepção para visitantes antes da pandemia do Covid-19; culto para Tupã não pode ser registrado — Foto: Wendell Marques/Divulgação

Vivenda de reza da povoado durante recepção para visitantes antes da pandemia do Covid-19; literato para Tupã não pode ser registrado — Foto: Wendell Marques/Divulgação

Aldeia indígena Boa Vista, em Ubatuba (SP) — Foto: Wendell Marques/DivulgaçãoAldeia indígena Boa Vista, em Ubatuba (SP) — Foto: Wendell Marques/Divulgação

Povoado indígena Boa Vista, em Ubatuba (SP) — Foto: Wendell Marques/Divulgação

“Somos uma comunidade, vivemos em conjunto. Cá tudo é muito próximo. Costumávamos sempre visitar os vizinhos. Mas isso mudou um pouco. Cada um está mais na sua mansão. Estamos seguindo as recomendações de saúde”, contou Alex Mimbi da Silva, mais sabido porquê Alex Guarani, que trabalha porquê guia em visitas à povoado Boa Vista.

Aldeia Renascer, em Ubatuba (SP) — Foto: Divulgação/Aldeia RenascerAldeia Renascer, em Ubatuba (SP) — Foto: Divulgação/Aldeia Renascer

Povoado Renascer, em Ubatuba (SP) — Foto: Divulgação/Povoado Renascer

Quando surgiram as primeiras recomendações para evitar a proliferação do novo coronavírus no Brasil, cada povoado começou a discutir as medidas que deveriam ser tomadas. A primeira mudança foi uma lei do Governo de São Paulo. As aulas nas escolas que ficam dentro dessas comunidades foram suspensas e as férias foram antecipadas.

Crianças indígenas na aldeia Boa Vista, em Ubatuba (SP) — Foto: Wendell Marques/DivulgaçãoCrianças indígenas na aldeia Boa Vista, em Ubatuba (SP) — Foto: Wendell Marques/Divulgação

Crianças indígenas na povoado Boa Vista, em Ubatuba (SP) — Foto: Wendell Marques/Divulgação

Na povoado Boa Vista, são 200 pessoas divididas em 55 famílias. Na Renascer, são 19 famílias e o totalidade de 100 moradores. Em ambas, os idosos, que fazem segmento do grupo de risco, são minoria. São dez com mais de 60 anos na Boa Vista, e somente uma idosa na Renascer. Os indígenas desse grupo não podem transpor das comunidades. Os únicos que agora podem transpor da povoado são os jovens e, ainda assim, somente quando necessário.

“Quando precisa comprar alguma coisa fora, estamos deixando uma pessoa específica. Daí ela segue todos os procedimentos de higiene, sai com máscara… Nós já vivíamos um pouco mais isolados. Mas agora estamos tomando esses cuidados. A gente ainda não sabe porquê o indígena reagiria a esse vírus. Vimos que começaram alguns casos em aldeias lá de Manaus”, comentou um dos líderes da povoado Renascer, Cristiano de Lima Silva Awá Kiririndju, que também é professor e coordenador pedagógico na escola da povoado.

Cristiano de Lima Silva Awa Kiririndju, líder na aldeia Renascer — Foto: Arquivo pessoal/Cristiano de Lima Silva Awa KiririndjuCristiano de Lima Silva Awa Kiririndju, líder na aldeia Renascer — Foto: Arquivo pessoal/Cristiano de Lima Silva Awa Kiririndju

Cristiano de Lima Silva Awa Kiririndju, líder na povoado Renascer — Foto: Registro pessoal/Cristiano de Lima Silva Awa Kiririndju

Aldeia indígena Boa Vista, em Ubatuba (SP) — Foto: Wendell Marques/DivulgaçãoAldeia indígena Boa Vista, em Ubatuba (SP) — Foto: Wendell Marques/Divulgação

Povoado indígena Boa Vista, em Ubatuba (SP) — Foto: Wendell Marques/Divulgação

Algumas atividades foram suspensas, porquê as reuniões da liderança da povoado Boa Vista e eventos festivos. As comunidades também costumam receber visitas de escolas e grupos interessados em saber a cultura indígena, principalmente no mês de abril por motivo do Dia do Índio. No entanto, as visitas foram canceladas ou reagendadas para daqui alguns meses.

Na Boa Vista, há duas casas de reza, chamadas de Opy’i pelos índios da etnia Guaraní. Além do literato a Tupã, os índios se encontram no sítio para tomar chimarrão juntos. A bebida, quando colocada na cuia, ia passando de mão em mão. “Estamos deixando de lado. É uma bebida sagrada para nós. Dá para fazer em mansão, mas é muito mais aconchegante tomar em grupo. Tivemos que trinchar isso”, disse Alex.

Ritual indígena na aldeia Boa Vista — Foto: Wendell Marques/DivulgaçãoRitual indígena na aldeia Boa Vista — Foto: Wendell Marques/Divulgação

Ritual indígena na povoado Boa Vista — Foto: Wendell Marques/Divulgação

As duas aldeias não têm nem casos suspeitos de Covid-19 entre os moradores. Em ambas, há um posto médico. A Secretaria Privativo de Saúde Indígena (Sesai) passou à povoado a mesma recomendação que os demais órgãos de saúde, porquê evitar contato social e lavar as mãos com frequência.

“Não temos o hábito de pegar na mão quando estamos cumprimentando. Já era mais longe mesmo. Exclusivamente damos o bom dia, boa tarde. Não temos o hábito de abraçar. Mas a higiene mudou. Hoje estamos lavando as mãos todos os dias. Fui para a cidade e, quando voltei, tive que tomar banho”, afirmou Alex Guarani.

Alex, guia da aldeia Boa Vista, pinta criança que visita a comunidade — Foto: Wendell Marques/DivulgaçãoAlex, guia da aldeia Boa Vista, pinta criança que visita a comunidade — Foto: Wendell Marques/Divulgação

Alex, guia da povoado Boa Vista, pinta rapaz que visitante a comunidade — Foto: Wendell Marques/Divulgação

Nesse período de distanciamento social, os índios da povoado Boa Vista continuam produzindo os artesanatos. De congraçamento com o guia do sítio, mais de 90% da comunidade trabalha com artesanato. Com sementes, produzem colares. Utilizam outros materiais para fazer peças para pesca, instrumentos musicais, além de itens de decoração. Mas desde que as recomendações sobre a Covid-19 chegaram, toda a produção tem ficado somente no estoque.

“Porquê quase toda a comunidade trabalha com artesanato, implantamos o turismo de base comunitária para a venda dos artesanatos. É uma manancial de renda. Infelizmente, estamos parados com isso. As principais fontes de renda são o artesanato e o palmito. Nem na feira para vender podemos ir mais. Não estamos nos arriscando. Praticamente zerou [a renda]”, relatou Alex.

Artesanatos produzidos na aldeia não estão sendo vendidos — Foto: Wendell Marques/DivulgaçãoArtesanatos produzidos na aldeia não estão sendo vendidos — Foto: Wendell Marques/Divulgação

Artesanatos produzidos na povoado não estão sendo vendidos — Foto: Wendell Marques/Divulgação

Para encruzar esse período de queda de rendimentos, a povoado tem recebido doações de cestas básicas e itens de higiene pessoal de amigos e da assistência social da Prefeitura de Ubatuba. Há plantação na povoado, mas alguns provisões, porquê arroz e feijoeiro, são comprados fora.

Na povoado Renascer, Cristiano afirma que são somente alguns moradores que sobrevivem do artesanato ou da venda de palmito. Há também os funcionários da escola e do posto médico, que não tiveram a renda afetada. Esses têm ajudado os que estão passando por urgência. “Nós temos um projecto de sustentabilidade cá, logo produzimos para o nosso sustento. Mas quem está precisando, nós ajudamos. A assistente social da prefeitura conseguiu alguns cestas básicas do município para nós”, contou.

De congraçamento com o Recenseamento 2010 do IBGE (Instituto Brasiliano de Geografia e Estatística), a população indígena no país é de 896 milénio. São 305 etnias e 274 idiomas falados. Dos 896 milénio indígenas, 36,2% vivem em espaço urbana e 63,8% na espaço rústico.

Em Ubatuba, são três aldeias. Há a povoado Boa Vista, localizada perto da Cascata do Prumirim, uma ampliação da Boa Vista, em Itamambuca, e a povoado Renascer, que fica no Pico do Corcovado. Essa última ainda está em período de estudos para ser regularizada pela Instalação Vernáculo do Índio (Funai).

Índios da aldeia Boa Vista — Foto: Wendell Marques/DivulgaçãoÍndios da aldeia Boa Vista — Foto: Wendell Marques/Divulgação

Índios da povoado Boa Vista — Foto: Wendell Marques/Divulgação

A povoado Boa Vista é formada por índios da etnia Guaraní, tem pouco mais de 900 hectares e surgiu nos anos 1960, com a chegada do cacique Altino Santos. Segundo conta o guia Alex, Altino e a família vieram de Itanhaém (SP) para trabalhar em uma herdade na espaço que pertencia a um nipónico. Quando o possessor da propriedade voltou ao Japão, ele doou segmento das terras para Altino. Em 1987, a terreno foi demarcada porquê território indígena.

Cacique Altino Santos — Foto: Wendell Marques/DivulgaçãoCacique Altino Santos — Foto: Wendell Marques/Divulgação

Cacique Altino Santos — Foto: Wendell Marques/Divulgação

A povoado Renascer tem índios da etnia Guaraní e Guarani Mbya. Surgiu em 1999, quando foi retomada. De congraçamento com Cristiano de Lima Silva Awá Kiririndju, o sítio já foi ocupado pelo povo Tupi no pretérito. Depois, a terreno passou a ser explorada por uma família japonesa. Em seguida a retomada, foi feito um trabalho para restaurar toda a vegetação. Desde logo, eles tentam dar curso para a demarcação da terreno pelo governo.

Em 13 de março deste ano, a Boa Vista completou 50 anos. Um ano marcante que, ao menos por enquanto, vai passar sem celebrações grandiosas com a chegada do novo coronavírus. Alex Guarani relata porquê os índios mais velhos da povoado enxergam esse momento vivido pela humanidade.

“Eles explicam para nós que essa pandemia que está acontecendo é um efeito nosso mesmo. A gente perdeu totalmente o saudação à natureza, ao próximo. A gente só pensa em ganância, até alguns de nós mesmos. A ganância estraga tudo. A gente destrói tudo, polui as águas, o próprio ar… Que a gente aprenda com isso”, finaliza.

Índio da aldeia Boa Vista — Foto: Wendell Marques/DivulgaçãoÍndio da aldeia Boa Vista — Foto: Wendell Marques/Divulgação

Índio da povoado Boa Vista — Foto: Wendell Marques/Divulgação

Por , em 2020-04-19 08:02:00


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