‘Sou amiga da rua. Mas agora é cada um cuidar de si’, diz Leny Andrade sobre a nova rotina na Casa dos Artistas – [Blog da Solange Pereira]

Até a pandemia esvaziar as ruas da cidade, elas eram idosas ativas, que driblavam as limitações da vida dentro de uma morada de protecção. A cantora Leny Andrade, da Moradia dos Artistas, e a artesã Terezinha da Conceição, do Abrigo Cristo Redentor (maior unidade de idosos do Rio), foram obrigadas a trocar a curso profissional externa pelo recolhimento forçado em seus aposentos, onde o companheiro ordenado passou a ser o susto de estar num dos lugares mais vulneráveis à pandemia – devido à concentração de idosos, a maioria com comorbidades, no mesmo envolvente.

No início do isolamento social, ambas lamentaram a mudança brusca na rotina. Aos 76 anos, os último deles vivido na Moradia dos Artistas, Leny Andrade teve de cancelar todos os shows previstos para as próximas semanas, além dos ensaios com o pianista e maestro Gilson Peranzetta, com quem dividia o palco. Já Terezinha da Conceição, de 79 anos, foi dispensada temporariamente do trabalho em um dos Núcleo de Referência de Assistência Social (CRAS) da Prefeitura, onde produzia artesanato e ajudava no atendimento.

Na medida em que surgiram as notícias de casos de Covid-19 em instituições de longa permanência de idosos (ILPIs), uma vez que são chamadas as casas de protecção, a tortura mudou de foco. Preservar a saúde passou a ser a maior das prioridades:

— Fiquei chateada por não poder mais fustigar perna. Sou muito de rua. Sou amiga da rua. Mas agora é cada um cuidar de si. Fazer a sua secção. Estou fazendo a minha. Me recolhi, tomo todos os cuidados, principalmente lavar muito as mãos. Aprendi cedo. Mamãe me ensinou. Estou viciada em lavar a mão — disse Leny.

Dona Terezinha teve que dar um tempo na venda de seu artesanato
Dona Terezinha teve que dar um tempo na venda de seu artesanato Foto: Sucursal O Orbe

A Moradia dos Artistas, em Jacarepaguá, e o Abrigo Cristo Redentor, em Bonsucesso, integram a rede de 434 ILPIs do Rio de Janeiro. No totalidade, 11.890 idosos são atendidos por essas unidades em todo o Estado. Alguns deles, por apresentar sanidade mental, são autorizados a trespassar às ruas. É o caso de Terezinha da Conceição, cuja habilidade manual e a disposição para o trabalho a transformaram em “agente experiente” do CRAS Professora Ismênia Lima Martins, no Núcleo do Rio.

— Quero voltar a trabalhar. Dizem que o isolamento vai terminar no dia 30. Não sei se é verdade. Não palato de permanecer paragem. Fico indócil. Estou sentindo muita falta de conviver com as pessoas. Muitas chegam no portão (do abrigo) e perguntam por mim. Era bom conversar, vender o meu artesanato – lamenta Terezinha.

Com mais de 60 anos de curso, marcada por uma versão uno de jazz e de bossa novidade, Leny Andrade admite que “perdeu muita agenda”, mas espera que os shows sejam retomados ainda esse ano, porque a rotina músico é um “trique trique trique bom demais”. Para ela, o impacto será grande no mundo artístico, mas zero comparado à prelecção que a pandemia deixará para a humanidade:

— Vai mudar um pouco as pessoas. Tem muita gente com o nariz para cima, donas do pedaço. Pessoas vão penetrar melhor os olhos.

Recolhida a uma pequena morada de dois quartos, onde os únicos visitantes são duas cuidadoras que se revezam, preocupadas principalmente pelo problema de artrose nos dois joelhos da cantora, e funcionários do Abrigo, Leny disse que é fundamental para os idosos, em tempos de isolamento, manter o corpo e a mente ativos.

— Leiam, se exercitem. Remexam o braço, o antebraço. Coisas que podemos fazer sozinhas. Fica na ponta do pé, que facilita muito na postura – recomenda.

‘Porto seguro’

A cantora disse que, uma vez que já aconteceu em ocasiões anteriores, as autoridades locais demoraram a reagir ao surto. Ao comentar que esperaram a petardo explodir para fazer alguma coisa, Leny usa a potência da voz para imitar uma explosão e, sem seguida, conclui o raciocínio: “Só depois saem 15 gatos pingados, correndo, com as calças na mão, para tentar resolver as coisas, o que mais difícil”, ironiza.

Na Moradia do Artista, vivem tapume de 60 residentes. No Abrigo Cristo Redentor, 230. Ainda que não se conheçam e vivam em ambientes distintos, Leny e Terezinha se combinam no estilo de vida. Ambas encontraram nas suas instituições um porto seguro para dar um basta aos seus sofrimentos. Leny, com muitas dívidas, foi levada por um parelha de amigos para a Moradia do Artista. Terezinha foi conduzida para o Abrigo depois que a Resguardo Social condenou o lugar onde ela vivia, sobre um valão de esgotos que ameaçava a sua segurança.

— Quando eu cheguei cá, tive surpresa muito deleitável. Porque pensava que os artistas vinham pra cá para deitar nas leito deles e esperar a morte chegar. Não foi o que eu encontrei. Na hora da comida, é uma sarau. Todo mundo com a bundinha na parede, pratinho na mão Muito engraçado – descreve Leny.

— Sou feliz cá porque tenho seis refeições diárias, convivo muito muito com os outros residentes e tenho recta a trespassar, trabalhar, produzir os meus artesanatos, fazer aulas de dança — explica Terezinha.

Para ambas, a pandemia não é exclusivamente uma ameaço à sobrevivência, mormente dos mais vulneráveis. É um risco real para a felicidade coletiva que a vida nas instituições proporcionou.



Por , em 2020-04-18 04:47:45


Nascente extra.orbe.com



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