Diário da quarentena: para OsGemeos, é hora de pensar no outro – [Blog da Solange Pereira]

“Antes de a Pinacoteca paralisar suas atividades, em 16 de março, já estávamos apreensivos. A exposição OSGEMEOS: Segredos estava 60% pronta. A exórdio aconteceria no dia 28, mas sabíamos que cedo ou tarde iríamos parar. Temos muitos amigos fora do Brasil, em Novidade York, Hong Kong, e começamos a sentir, pelas conversas, que a coisa estava pegando. Todo mundo vai ter problemas. Nossa agenda é feita com um ano de antecedência, mas é importantíssimo que quem puder fique em moradia e se adapte. É uma tempo para pensar nos amigos, na família e em pessoas que não conhecemos, mas que precisam de ajuda agora. Estamos isolados. Tem hora que bate um desespero, mas não temos vontade de trespassar. Ter uma moradia, família, condições de comprar comida é um privilégio. Temos de valorizar isso e cuidar agora de quem só tem a rua porquê moradia.

Moramos no bairro de Santa Cecília, em apartamentos separados, a duas quadras de intervalo um do outro. Nossa mãe (Margarida Kanciukaitis) mora sozinha e também não está saindo. Vamos fazer compras para ela. Nossos irmãos (Adriana e Arnaldo) também fazem isso. Só vamos ao ateliê (no Cambuci) quando é extremamente necessário. Não tem ninguém lá, todos os funcionários estão se resguardando. Não dispensamos nenhum deles, continuamos pagando a todos. De uma forma triste, todo mundo desacelerou. Estamos revendo o nosso ritmo, temos mais tempo para estudar, traçar, ouvir música.

Esboço na parede do ateliê, no Cambuci: autorretrato duplo

Esboço na parede do ateliê, no Cambuci: autorretrato duplo (Alexandre Battibugli/Veja SP)

Eu, Gustavo,acho estranha essa situação. Ninguém tem resposta para muita coisa. Não se sabe quanto tempo mais vai perseverar o distanciamento social, não se tem certeza também sobre porquê remediar as pessoas. Não sei… Esse vírus ataca os pulmões, e durante esta pandemia a Terreno surpreendentemente está conseguindo respirar melhor. Os rios e o ar estão mais limpos. Você viu o firmamento de São Paulo? Há tempos a gente vivia um sufocamento. Já estávamos sendo alertados contra terremotos e tsunamis, mas não ouvimos zero. Agora, veio dessa forma. Estou refletindo sobre isso e dando vazão a coisas que não fazia. Está sendo interessante. Pintei, com a minha namorada(a designer Jade Marangolo),um pequeno mural com vegetais, um pouco que não estou habituado a fazer. E também em um estilo que não é normalmente o nosso. Tem sido bom testar. A arte, nessas horas, tem uma vantagem: por natureza, ela é imersiva. Logo permanecer em moradia possibilita reprofundar em novas ideias e apurar projetos que já estão em curso. Por exemplo, agora foquei mais no material educativo que vai ser usado na exposição da Pinacoteca. Está mais estruturado. Outra coisa boa é que estou viciado em uma receita de tapioca. Foi a Jade que me ensinou. Leva abacate e queijo brie, fica muito bom.

Eu, Otávio, e o Gu temos um montão de música muito grande, portanto meu tempo livre tem sido para organizá-lo. Também estou pesquisando muito no YouTube sobre hip-hop old school, feito nos anos 70 e 80. Já zerei séries na Netflix, vi muitos filmes. Não tenho muita rotina, mas até as 9 estou de pé. Neste período, eu e a Gi (a atriz Giselle Batista, namorada do artista) começamos a pensar mais na nossa alimento. Estamos preocupados com a nossa isenção e com o risco de pegar uma gripe. De manhã, ainda em jejum, tomamos um copo de chuva com um pouco de limão. Já não porquê mesocarpo. Agora temos investido ainda mais em frutas e legumes. Não temos muitas preferências, gostamos de tudo. Uma novidade é que ela me deu um tapetinho e me ensinou a fazer ioga. Nunca tinha feito, achei lítico. A convívio, com certeza, também nos fez crescer porquê parelha. Namorar é uma coisa, ela está no Rio e eu em São Paulo. Mas permanecer assim, porquê a gente está na quarentena, é muito dissemelhante. Nessa hora, você tem de ter muito desvelo com a privacidade de cada um. Também tem de tentar entender em que momentos os dois querem permanecer juntos e quando desejam permanecer sozinhos.

A limpeza das nossas casas também está por nossa conta. Desde pequenos, aprendemos a lavar banheiro, passar tecido, mas agora estamos fazendo mais. Na hora de manducar, preferimos fazer em moradia a pedir delivery. Sabemos fazer arroz, feijoeiro. Cozinhar é parecido com pintar. Não adianta, você tem de testar e se aventurar a misturar uma coisa com a outra. Tem também de gostar. Se não tiver paciência, não vai trespassar recta. O prato mais dissemelhante que a gente fez é típico da Lituânia, de onde nosso avô materno veio. Labareda-se zeppelin, igual àqueles dirigíveis, sabe?

Obra De Lá para Cá (2014): submersão e originalidade

Obra De Lá para Cá (2014): submersão e originalidade (Eduardo Ortega/Divulgação)

Do mesmo jeito que tratamos o pessoal do ateliê, também fizemos com as nossas funcionárias domésticas. Pedimos que ficassem com suas famílias e adiantamos o pagamento. Muitas famílias estão em dificuldades e precisamos fazer a nossa secção! O paixão salva vidas!”

Publicado em VEJA SÃO PAULO de 22 de abril de 2020, edição nº 2683.

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Por , em 2020-04-17 06:00:54


Natividade vejasp.abril.com.br



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