Tony Bellotto sobre Rubem Fonseca: ‘Todos os escritores da minha geração foram influenciados por ele’


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RIO – Em 1975 eu já queria ser redactor e escrevi alguns contos, umas imitações de Gabriel García Márquez, umas tentativas muito ruins de fazer realismo mágico. Eu lembro que li “Feliz Ano Novo”, do Rubem Fonseca, e foi uma vez que uma revelação. Aquele livro era dissemelhante de tudo o que eu tinha que ler na escola, era um livro que falava da vida real de uma maneira muito direta. Acho que a partir daí eu realmente comecei a virar um redactor.

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Eu virei fã do Rubem Fonseca, li a obra toda dele, sempre acompanhando os lançamentos de cada livro, aprendendo com aquela linguagem direta dele, uma coisa única na literatura brasileira. Ele inaugura a literatura urbana no Brasil. Ele tem uma dimensão de ficção policial nos livros dele, o grande detetive brasiliano, o “Mandrake”, jurisconsulto que surge em alguns contos ainda na dezena de 70, que depois também protagoniza “A grande arte”. Todos os outros detetives brasileiros que vieram depois do Mandrake têm alguma coisa do Mandrake no seu DNA. O meu Remo Bellini sem incerteza deve muito ao Mandrake.

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Em 2005 eu fui convidado pelo José Henrique Fonseca, diretor de cinema e meu companheiro, fruto do Rubem, a ajudá-lo a ortografar os roteiros de uma série que ele estava fazendo para a HBO, com esse personagem do Mandrake. A partir daí eu conheci pessoalmente o Rubem Fonseca. Das poucas vezes que o encontrei, porque ele era um varão recluso, eu aprendi muito. Ele sempre me dava algumas dicas muito bem-humoradas sobre ortografar, uma vez que “um livro pode ser tudo, só não pode ser rente”. Ou quando ele me falava da valia da perspicuidade das frases, “as frases podem até ser enigmáticas, mas elas têm que ser claras”.

 

O escritor e guitarrista Tony Bellotto Foto: Chico Cerchiaro / Divulgação
O redactor e guitarrista Tony Bellotto Foto: Chico Cerchiaro / Divulgação

Aprendia muito com ele, era um varão muito espirituoso, muito interessante, curioso e inquieto. É engraçado que a postura de reclusão dele, à voga de grandes escritores uma vez que Thomas Pynchon e J. D. Salinger, de não falar com a prelo e não se deixar fotografar, podia dar a sensação que ele fosse um varão sorumbático, mas não, era um rosto jubiloso, com uma presença de espírito incrível, que gostava de falar de vários assuntos. Era um sujeito erudito e simples também, gostava de falar sobre tudo, entendia de rock e conversava comigo sobre as bandas.

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Estou profundamente impressionado com a morte dele, acho que a obra dele é única na literatura brasileira. Todos os escritores da minha geração foram muito influenciados por essa voz literária e direta dele, que é uma vez que um soco no estômago. Rubem viveu plenamente a vida, mas a morte dele é um tanto que entristece muito a gente. Acho que nesse momento, com o Brasil vivendo essa epidemia, vivendo esse momento cultural tão medíocre com o governo lutando contra a cultura, contra os artistas, contra os escritores, a morte dele parece que deixa a gente um pouco mais órfão. Mas o bonito é que ele deixou essa obra monumental, que há de sobreviver a tudo isso.

Por Tony Bellotto, próprio para O GLOBO , em 2020-04-15 18:04:52


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