Quarentena interrompe ritual seguido por minha famlia na semana santa – Anna Marina – [Blog da Solange Pereira]




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Famlias que guardam tradies esto sofrendo nesta semana santa. Trancadas dentro de morada, ameaadas por todas as pragas da segurana e sade, no podem participar de uma tradio que potente lao familiar e liga todos f em Cristo. Desde que me lembro, a data to importante na rito do cristianismo era seguida pelos Teixeira da Costa. Volto, perdoem os leitores, s tradies luzienses. E para Santa Luzia se dirigiam todos os parentes que viviam na capital e em outras cidades, no s para rezar na matriz, mas para participar das lautas refeies servidas entre um luminar e outro. Tive um primo, muito guloso, que comeava sua comilana na morada da minha av e ia descendo pela Rua Direita, filando comidas diferentes em todas as casas. Que no eram poucas. Ns, crianas, espervamos pelas raras mas que chegam em caixas de madeira, embrulhadas em papel de seda azul.

 

Rijeza maior era o Sermo das Sete Palavras, que virava o dia. Uma de minhas primas, que morava no casaro em frente igreja, passava secção do dia confortavelmente sentada nos degraus da porta de ingresso, escutando o padre pregar. Volta e meia, cheirando o rap que retirava da caixinha de prata que guardava na cintura, que, hoje, poderia ser confundida com uma caixinha de p.

 

Herdei de minha prima querida Nan Gabrich, que j se foi e era muito catlica, o recta de participar da tradio de vestir o sepulcro Senhor Morto. Eram duas verses: a primeira no meio da igreja, durante toda a tarde, para ser reverenciada pelos cristos; a segunda no caixo que seria levado pela cidade, depois do descendimento da cruz. Nan plantava em sua quinta muito rosmaninho, que era desagregado na sexta-feira santa, com ramos espalhados por toda a igreja. Ao serem pisados pelos visitantes, perfumavam tudo com um cheiro que no esqueo nunca.

 

Foi Nan quem me levou para participar da ambientao do caixo, que ficava na sacristia e, posteriormente, receberia as partes de Cristo que iam sendo retiradas da cruz, colocada em frente igreja. A tradio, que acredito ter comeado com a baronesa de Santa Luzia, destinava esse trabalho s s mulheres da famlia. Quando a idade dava foras, subia a Rua Direita, levando lenis de fronhas e linho bordados – encomendados por Nan para forrar o caixo. No era fcil, existia todo um ritual para que depois, quando recebessem o corpo de Cristo, os lenis no o escondessem.

 

Ela seguia uma tradio, algumas vezes fui convocada a restaurar algumas peas do tempo da baronesa: um véu de fil todo bordado com figuras de prata peruana e uma colcha de seda roxa, tecida com seda e fios de ouro, o mesmo ouro usado nas rendas em torno da pea. As preciosidades eram revezadas sobre a figura do Cristo morto. Depois que Nan se foi, continuei participando junto com as outras primas desse trabalho, que nos ltimos anos usava uma infinidade de orqudeas, tambm fornecidas por minha famlia.

 

Depois que vi o padre encarregado da matriz entrar na sacristia usando regata, bermuda e chinelo, abri mo da tradio. Mas o padre foi transferido. No ano pretérito, voltei, para encontrar o novo padre, Felipe, realmente digno de ocupar posto de tanta tradio. Ele nos ajudava em tudo, at arrastando bancos da nave principal para dar caminho aos visitantes do Cristo que ficava no sepulcro montado no meio da igreja.

 

Leste ano, a tradio familiar no ser mantida. Espero, se continuar viva, participar, no prximo ano, dessa bela ocupao que nos d foras para enfrentar as vicissitudes da vida. E tambm enfrentar o coronavrus.

Por , em 2020-04-10 04:00:00


Natividade www.em.com.br



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