Diário da quarentena: Flávia Aranha conta como está se adaptando à nova rotina – Vogue – [Blog da Solange Pereira]

Flávia Aranha conta como está se adaptando à nova rotina (Foto: Divulgação)

Flávia Aranha conta porquê está se adaptando à novidade rotina (Foto: Divulgação)

“Nos primeiros dias, me senti anestesiada. Porquê se estivesse caminhando na neblina. Atenta e observando movimentos que a princípio me pareciam surreais.

A última vez que estive em uma aglomeração foi dia 08 de março, na marcha das mulheres, no meio de São Paulo. Faz exatamente um mês. Foi a última vez que vi minha melhor amiga. No ato, encontrei pessoas queridas que não via há qualquer tempo, porquê minha professora de astromância. Estava escrito nas estrelas?

Processo criativo de Flávia Aranha (Foto: divulgação)

Processo criativo de Flávia Aranha (Foto: divulgação)

A semana seguinte correu com estranhamento. As primeiras notícias reais de que aquele vírus chegava por cá. E na sexta feira, dia 13, comecei a entender que talvez fosse prudente fechar a loja e o ateliê. Na segunda feira, dia 16, todas fomos trabalhar para organizar o processo de fechamento e passar recomendações e informações. Não fazia absoluta teoria do que viria a seguir. A única coisa que sabia era que precisava proteger a integridade física da minha equipe, que em sua maioria depende de transportes públicos lotados para ir e vir do trabalho diariamente.

Eis que hoje completo 23 dias em moradia, com poucas saídas ao mercado e uma visitante ao ateliê.

No início, tive uma grande dificuldade de gerar uma rotina em moradia. Conciliar tarefas domésticas, agenda de reuniões virtuais e espaços de respiro. Também via muita notícia e  sentia muito terror do horizonte. Pensava em porquê conseguiria manter um negócio que depende 100% das vendas de uma loja física, sem ter outra natividade de renda. Me sentia muito tensa e responsável pela minha equipe. Ou por outra, acompanhava as loucuras do presidente da República, o que me deixava ainda mais apreensiva.

Tingimento natural (Foto: divulgação)

Tingimento proveniente (Foto: divulgação)

E, assim, alternando entre o escapismo e a veras, no cimalha do meu privilégio, venho cozinhando, pintando, lendo e chorando nos intervalos do trabalho, que segue se reinventando todos os dias desde portanto. Zero patente. Tudo incerto.

Desde o início, sabia  que era fundamental cuidar da  saúde mental e do corpo. E logo comecei a praticar yoga online. Um ritual que se tornou quotidiano e que me conectou a um silenciamento interno. Deixei de querer ter respostas e me coloquei no papel de observadora. Dos meus próprios sentidos, dos movimentos do mundo, das ações das pessoas próximas. E portanto passei a acessar um lugar parado no tempo, que me permitiu breves e estranhas sensações de liberdade e grandes espaços de reflexão. Reorganizei minha rotina: as intermináveis reuniões no Zoom que duravam 5 horas passaram a ocorrer com mais objetividade e somente às segundas, quartas e sextas. Às terças e quintas pude entrar em contato com um espaço criativo que há muito não acessava: voltei a tingir, a testar com as mãos. E essas atividades estimulavam também a perpetuidade das reflexões sobre a vida, o ateliê e o que está por vir.

Quarentena da Flávia Aranha (Foto: divulgação)

Quarentena da Flávia Aranha (Foto: divulgação)

Começamos a vender online. Estamos aprendendo tardiamente a nos relacionar comercialmente no mundo do dedo. A verdade é que ao longo desses anos construímos uma comunidade muito possante e agora, nesse momento tão quebradiço, temos tido o base e suporte de clientes que podem e querem contribuir para a permanência do nosso projeto.  

Mas não acho que permanecermos iguais. Libido profundamente que essa crise possa romper com o modus operandi atual. O capitalismo não pode nem deve continuar porquê é. Precisamos repensar nossos modos de produção, nossas relações de troca e o nosso consumo.

Pausa para o jornal: curva ascendente e racionalidade em xeque. Consequências mórbidas  da desigualdade social. Panelas.

Pintura da estilista Flávia Aranha (Foto: divulgação)

Pintura da estilista Flávia Aranha (Foto: divulgação)

No dia seguinte, reunião de equipe. Criamos uma campanha de confecção e doação de máscaras a partir dos nossos retalhos em parceria com o Fashion Revolution, instituto Alinha,  Pimp My Carroça  e um coletivo de marcas parceiras. Meu ânimo volta e continuo a planejar o  incerto horizonte do dia seguinte.

É isso. Tenho aprendido a fazer pequenos planos. Tenho conseguido ter a flexibilidade para mudanças e humildade para saber que não tenho porquê controlar zero. Nem minha vida, nem a vida do outro. Mas ainda sim sigo trabalhando para aproveitar as chances de mudanças e transformações que aparecem agora. Reconheço na minha esperança a humanidade que nos habita.

Sinto um libido profundo de que possamos  por fim compreender  que somos todos células do mundo. Um macroorganismo interconectado. Nós, as vegetais, os mares, os animais, o ar e as montanhas.

Home office da estilista (Foto: divulgação)

Home office da estilista (Foto: divulgação)

Entre pensamentos, desenhos, leituras, reuniões, verso e aflições sigo a vida. E sinto saudades.

Hoje, dia 08 de abril, ocorreu o recorde de mortes por corona vírus no Brasil. 133 mortes. Amanhã vai outro dia?”

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Por , em 2020-04-10 09:06:27


Manadeira vogue.orbe.com



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