Nos alagados de Manaus, preocupação com coronavírus esbarra em condições precárias e desemprego – 06/04/2020 – Cotidiano – [Blog da Solange Pereira]




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Ao convocar a reportagem para entrar na moradia, Maria das Dores Maciel, 63, se apressa em transfixar as duas janelas da sala “pra espancar um ventinho”. Em ambas, a vista esbarra nas paredes sem reboco da moradia vizinha, a menos de meio metro de intervalo. Não chega uma brisa sequer.

A dona de moradia vive com o marido, três filhos e três netos na palafita de quatro cômodos sobre o igarapé Educandos, região médio de Manaus. Desde a chegada do novo coronavírus à cidade, a família faz o que pode para minimizar o impacto da pandemia na saúde e na renda em meio ao calor e ao aperto.

“Mano, do jeito que está, tem de melhorar. Nem todo dia é suficiente pra comprar todo o manjar”, diz Maciel. Dois dos filhos que moram com ela, um canoeiro e o outro soldador, praticamente não trabalharam nas últimas semanas.

“Ele carrega o pessoal que quer levar peixe [da feira Panair]. Diminuiu muito. Tem noite que ele vai, não dá zero e volta. E pouca gente está pedindo serviço pro meu rebento soldador. Ele faz portão, grade. As lojas para comprar material não estão abrindo. Hoje, por exemplo, ele está parado.”

Por enquanto, o numerário da comida vem do salário de professora da filha, mas, porquê ela está sem trabalhar, Maciel teme que ela deixe de receber num horizonte próximo.

A família também se preocupa com a saúde, mas as condições precárias de moradia impõem limites. Na gíria manauara, eles moram em um bodozal, termo pejorativo para as favelas de palafita de cidade. É uma referência ao bodó, espécie de bagre capaz de sobreviver até na limo.

Todos os dias, falta chuva nas torneiras da moradia, a última de uma escada íngreme. Ironicamente, na idade da enxurrada, geralmente em junho, a chuva fétida do igarapé costuma chegar até o piso, obrigando o marido, Sidinei, a edificar e instalar marombas —um piso saliente, porquê se fosse um palco de leito, posto sobre o soalho inundado.

Não se trata de um caso só. Levantamento recente da Resguardo Social em parceria com o Serviço Geológico do Brasil (CPRM) contabilizou 58 milénio famílias em áreas de risco em Manaus. Usando a média de pessoas por família, trata-se de uma universo de 232 milénio, ou 10% dos moradores da sétima cidade mais populosa do Brasil.

Dentro dos limites, a família mudou a rotina. Para evitar transpor de moradia, Maciel deixou de ir à feira comprar comida, tarefa delegada aos filhos. Outra medida foi encomendar a uma mana, modista, dez máscaras de tecido. “Estão dizendo que todo mundo tem de usar na rua.”

As ruas e becos do bairro Educandos estão muito mais vazias depois que o governo estadual fechou escolas e o negócio não precípuo. Ambulantes, poucos e só de comida. Pelos becos, marcados pelas iniciais CV (Comando Vermelho), as casas estão mais cheias por culpa dos alunos sem lição e dos pais sem trabalho.

“A maioria são autônomos vendem fruta, peixe, lavam carros, são diaristas. Sem poderem estar na rua, é difícil”, afirma Liliane Tavares de Moura, 44, coordenadora da Pastoral Social Luz do Saber Capela Sagrada Família.

Nos últimos dias, Moura, nascida e criada em Educandos, ajudou a partilhar comida doada pelo governo estadual e conseguiu negociar para que uma família não fosse despejada por falta de pagamento de aluguel, entre outros negócios.

“O problema não é nem falta de informação, são as condições de vida”, diz Moura. “Em vez de máscara e álcool em gel, estão gastando numerário para comprar comida.”

Por , em 2020-04-06 08:05:00


Nascente www1.folha.uol.com.br



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