Da maca à cova, supostos infectados não têm direito a despedida – 01/04/2020 – Cotidiano – [Blog da Solange Pereira]




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Alícia Choque Salinas só tinha um pedido quando chegou ao Cemitério Vila Formosa, na zona leste de São Paulo, no final da ensolarada manhã de sábado, dia 28.

A quem encontrava, repetia em espanhol: “Por obséquio, déjame ver a mi hijo”. Amparada por uma das filhas, recebia negativa sobre negativa dos funcionários do Serviço Funerário Municipal. Ela não poderia ver o rebento.

Marisol traduzia para a mãe as explicações de que o corpo de qualquer pessoa que possa ter morrido por contaminação do novo coronavírus teria que ser enterrado com o caixão lacrado, sem velório.

Alícia, uma boliviana de 62 anos que chegara de La Tranquilidade pouco mais de duas semanas antes com o rebento, parecia não escutar. “Mi hijo, déjame ver a mi hijo”.

Os sepultadores já se preparavam para levar o corpo a uma cova rasa quando um deles teve pesar de Alícia. Antes de penetrar o pequeno divisão selado por um vidro, avisou: “Ela não vai ver zero, ele tá num saco”.

Alícia se aproximou, viu o plástico azul enrugado onde deveria estar o rosto de Franz Limache Choque, seu rebento de 29 anos, e desabou num pranto angustiado.

Havia sido na segunda-feira, dia 23, que Alícia e Marisol acharam por muito levar Franz para o Hospital da Cidade Tiradentes, também na zona leste de São Paulo. Ele estava com febre, calafrios, tosse e dificuldade para respirar.

“Nos disseram que era uma pneumonia, que ele ia ter que permanecer internado”, conta Marisol. Na própria segunda, ele foi para a UTI. Na quinta, no final da noite, o hospital informou que ele havia morrido. “Não o vimos desde logo, não nos deixaram nem mesmo dar um adeus, disseram que ele podia ter morrido por esse vírus”, diz ela, que trabalha uma vez que modista em uma confecção da região do Brás.

Desde o dia 20 de março, enterros solitários e com nenhuma cerimônia uma vez que o de Franz têm se repetido com cada vez mais frequência pelos cemitérios de São Paulo. De conformidade com uma solução da Secretaria Estadual de Saúde, todas as mortes que tenham qualquer suspeita de estarem relacionadas com a Covid-19 precisam seguir um protocolo rígido para prometer a segurança dos profissionais que lidam com os cadáveres.

A lei prevê que corpos suspeitos de estarem infectados pelo novo coronavírus não devem mais passar por necropsia. Seguem direto dos hospitais para as covas.

Pelas novas regras, esses cadáveres devem ser embalados em sacos plásticos, e os caixões, lacrados.

Antes, todos seguiam para o Serviço de Verificação de Óbito, que concederia o atestado da motivo da morte. Agora não passam nem mesmo pelos serviços funerários de preparação do corpo.

As regras, porém, nem sempre são seguidas à risca —há casos em que chegam ao cemitério enrolados em lençóis, vazando fluidos corporais.

Foi o que aconteceu com o irmão de Luís Rodrigues de Lima, um porteiro de 65 anos morador da Cidade Líder, na zona leste de São Paulo. Antônio Rodrigues de Lima passou mal na quinta (26) e foi levado para o hospital Santa Marcelina, onde morreria no sábado (28).

“Nós achamos que se tratasse de um infarte, mas o boletim de óbito veio uma vez que suspeita de Covid”, diz ele. Ao penetrar janela do caixão para dar adeus ao irmão, viu que o sucumbido estava enrolado em um lençol branco, com manchas na região da cabeça causadas pelos líquidos que o corpo expele naturalmente se não for devidamente prestes.

Segundo um agente funerário que prefere se manter em anonimato, o caso não era o primeiro ali. Ele diz que em alguns lugares está faltando saco para os suspeitos de Covid.

Luís enterrou Antônio escoltado de poucos parentes e um único camarada do irmão, morto aos 70. “É muito triste tudo isso, muito triste não poder ter nem velório”, lamentou. “Mas é mais triste ver meu irmão ser enterrado assim, todo sujo, nem uma roupa deixaram a gente colocar. Esperava que o termo fosse dissemelhante.”

Por , em 2020-04-01 01:10:50


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