Couture Renaissance: a importância da Alta-Costura – [Blog da Solange Pereira]




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São porquê aves do paraíso no meio da selva urbana. As coleções de Subida-Costura, que duas vezes por ano destroem a teoria de que o mundo é um lugar de cínicos, são o que sobra de uma quimera chamada Tendência. Mesmo quando tudo o resto colapsa, elas mantêm-se porquê prova viva de que a originalidade, e a vantagem, não se regem pela pressa do século XXI. 

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© Getty Images

“A Subida-Costura é a instauração desta vivenda, por isso é meu obrigação criativo e visionário trazer a couture de volta. Para mim, a Subida-Costura é uma forma inexplorada de liberdade criativa e uma plataforma de inovação. Ela não só oferece outro espectro de possibilidades na alfaiataria, mas também traz a visão moderna da Balenciaga de volta às suas fontes de origem.” As palavras de Demna Gvasalia, habitualmente associado a looks mais streetwear, evocam um libido há muito anunciado: o volta da maison fundada por Cristóbal Balenciaga à redondel grande da Tendência. 

A Balenciaga não produz nenhuma coleção haute couture desde que o seu fundador fechou as portas do ateliê, em 1968, precisamente quando a revolução de costumes começou a privilegiar a rapidez do prêt-à-porter. Neste renascimento, que coincide com uma procura cada vez maior da roupa feita à mão, por medida e sem prazo de validade, a marca terá uma equipa de artesãos dedicada unicamente à Subida-Costura, sediada no histórico número 10 da Avenue George V. 

“Nascente projeto foi provável devido ao sucesso da visão criativa de Demna Gvasalia, muito porquê aos resultados excecionais da Balenciaga nos últimos anos”, afirmou Cedric Charbit, presidente e CEO da vivenda fundada em 1919 em San Sebástian, Espanha, citado pela Vogue Runway. “Já temos pedidos para [peças] couture, por isso sabemos que existe um cliente”, acrescentou. E, longe de fugir à pergunta de um milhão de dólares (o que leva alguém a investir seis dígitos num vestido?), explicou em que ponto é que levante volta alinha com os tempos que correm, e que encaminha a Tendência, e o mundo, em torno da sustentabilidade. 

“O que acho ótimo acerca da Subida-Costura atual é a sua abordagem sustentável. Nós não fazemos coisas que não sejam guardadas para sempre. Também é sustentável na forma porquê nos relacionamos. Sinto que a maioria das marcas de luxo, hoje, se tornaram exclusivamente marcas, e não são mais casas. Eu paladar do concepção de maison. Quando és uma maison, és uma família.” Porquê referia Nicole Phelps, jornalista que assina o item da Vogue Runway, “o proclamação da Balenciaga chega num momento crucial para a Subida-Costura.” Poucos dias antes, Jean-Paul Gaultier tinha anunciado que o seu desfile primavera/verão seria o último. E se em circunstâncias normais isso “poderia ter despertado preocupação com o lugar de vestidos e saias extravagantemente caros num mundo de fast fashion”, agora parecemos estar perante um momento de couture renaissance: a Balmain apresentou a sua primeira coleção de Subida-Costura em 16 anos, em 2019, e a Celine, pela mão de Hedi Slimane, também já garantiu que vai tornar ao calendário solene.

Couture is dead. Long live couture. 

A teoria de que a Subida-Costura está em declínio não podia estar mais longe da verdade. Karl Lagerfeld explicou isso mesmo depois o desfile primavera/ verão de Subida-Costura da Chanel, em 2018: “Quando as pessoas dizem que a haute couture está morta… talvez esteja para elas, mas não para nós.” O kaiser poderia ser um interlocutor suspeito, mas a verdade é que não são exclusivamente as maisons centenárias que insistem em apostar nesta categoria. Nomes porquê Richard Quinn, Mary Katrantzou e Marine Serre têm explorado, recorrentemente, a teoria de demi couture. Foi o próprio presidente da Fédération de la Haute Couture e da Chambre Syndicale de la Haute Couture, Ralph Toledano, quem explicou o momentum: “A Subida-Costura é um mercado em propagação; as marcas de Tendência continuam a aumentar as vendas neste ramo, e a clientela está a expandir-se e a diversificar-se.” Ela sempre foi, “e continua a ser, uma terreno de livre frase para designers, uma terreno onde a originalidade se encontra com a tradição e a inovação.” 

De convenção com Toledano, as novas tecnologias ajudam a “expandir fronteiras e possibilidades com materiais, técnicas e abordagens” (basta pensarmos no trabalho da holandesa Iris van Harpen para corroborar tal certeza) e a despertar o interesse de novos públicos, porquê os millennials. “Enquanto existirem pessoas a procurar o excecional, vai possuir Subida-Costura”, determinava Toledano. Até porque o que era, antigamente, um grupo fechado, tornou-se, com o passar dos anos, numa espécie de lounge vip. Em 1997, a Fédération decidiu gerar o regimento de “membro convidado”, o que permitiu alargar o leque de marcas que apresentam durante a exclusiva Couture Week – casos de Guo Pei e da Vetements, em 2016. Estas, no entanto, não podem usar o título “haute couture”, ficando limitadas ao mais prosaico (mas também etéreo) “couture”. 

É cá que se separa o trigo do joio e o trivial do fabuloso. Para que uma peça seja considerada Subida-Costura deverá ser produzida à mão e por medida, num ateliê com um mínimo de 20 funcionários, por uma marca/designer que mostre as suas coleções (daytime e eveningwear) duas vezes por ano, em Paris. Isso faz com que exista uma enorme pressão para manter o título: a Versace retirou-se do calendário solene durante oito anos, regressou em 2012, e, atualmente, aposta em “apresentações personalizadas”; Christian Lacroix abandonou-o em 2009. Basta pensarmos que a própria designação de “alta-costura” está protegida, é revista anualmente pelo Ministério da Indústria galicismo, e restringe-se a 16 marcas (15, se pensarmos que Jean-Paul Gaultier fez o seu último desfile em janeiro), entre as quais a Chanel, a Christian Dior e a Schiapparelli, para compreender a dimensão deste microcosmo paralelo. 

Por volta de 1947, existiam, em todo o mundo, tapume de 47 milénio clientes de Subida-Costura. Atualmente, esse número ronda os dois milénio, três milénio, especula-se. É um negócio dispendioso, que se paga dispendioso. Em 2014, o jornal inglês The Guardian questionava-se: “Os preços são tão extravagantes porquê os vestidos: um ball gown pode facilmente custar o mesmo que um Rolls-Royce, uma blusa pode ser tão rostro porquê um apartamento em Madrid. O que nos leva à questão: partindo do princípio que poucas pessoas podem gastar seis dígitos num vestido, qual é o sentido da Subida-Costura?” De facto, o que leva alguém a entregar o cartão de crédito em troca de uma toga de chiffon com brilhantes incrustados que demorou 400 horas a permanecer pronta? Resposta provável: um cliente couture (que se situam em latitudes tão distintas porquê a Rússia, a China ou o Médio Oriente) não conhece limites; há quem encomende coleções inteiras – tapume de 30 vestidos por temporada. É isso que dá força ao comeback de casas porquê a Balenciaga.

“Somos uma vivenda francesa, pertencemos a Paris. Temos de fazer o nosso trabalho para que a Subida-Costura de Paris, o artesanato, as pessoas, as casas… temos de manter isso vivo.” Foi também com levante argumento que Cedric Charbit justificou a decisão da marca. E nem as acusações de arrogância, que encaram o negócio da haute couture porquê um tanto desnecessário num planeta em estável ebulição, conseguem destruir o mito que sustenta a geração de vestidos com caudas de dois metros, intrincadamente bordados à mão, num ofício que se assemelha à produção de arte. “Seríamos os mesmos sem esses coordenados incandescentes, que passam ao longe, nesse universo paralelo de centenas, de milhares de euros, onde o último ponto não é oferecido pela pressa, mas pelo toque? Provavelmente, sim. E, no entanto, seríamos infinitamente mais pobres porque a Subida-Costura, porquê o cinema, é um escape para o que nos rodeia”, concluiu a Vogue há três anos. 

“Precisamos da Subida-Costura porque precisamos do sonho.” 

De convenção com os registos, o uso do termo Subida-Costura foi inicialmente aplicado ao trabalho do inglês Charles Frederick Worth, que realizou o primeiro desfile de Tendência de que há relato, em meados do século XIX, em Paris. Mas, os traços de haute couture perdem-se na História, particularmente nos trajes ricamente trabalhados dos membros da realeza. Seria, aliás, Rose Bertin, modista da rainha Maria Antonieta, a trazer para a capital francesa a noção de “tendências”, ainda no século XVIII. E a cidade, que já era um fervoroso meio cultural, tornou-se referência para curiosos de todo o mundo, que copiavam os maravilhosos looks expostos nas vitrines das suas lojas. 

Fast-forward para o trambolhão civilizacional proporcionado pela revolução industrial e estavam criadas as condições perfeitas para a emergência de génios porquê Jean Patou, Paul Poiret, Madeleine Vionnet ou Jeanne Lanvin. E se, nos dias que correm, a Subida-Costura parece mais próxima do geral mortal – quando mais não seja pelo entrada repentino às imagens dos desfiles – ela continua a ser sinónimo de libido, magnificência e savoir faire, tanto nos looks imaginados por Viktor & Rolf em 2017 com a coleção Boulevard of Broken Dreams, onde os vestidos eram feitos de material “reciclado” (e imediatamente vendidos online a quem estivesse disposto a desembolsar 20 milénio euros), porquê na couture rock and roll de Alexandre Vauthier, que nos faz suspirar perante a sensualidade meio desenvergonhada dos seus ball gowns. E, nas suas múltiplas encarnações, da rigidez feminista de Virginie Viard, sucessora de Karl Lagerfeld na Chanel, aos metros e metros de tule coloridos de Giambattista Valli e à teatralidade refinada de Clare Waight Keller, na Givenchy, mantém ensejo a porta para o impossível, onde a delicadeza se cruza com o romance, o espetáculo e a magia. 

“Esqueça a verdade, a Subida-Costura é pura fantasia”, escrevemos em 2017. “Precisamos da Subida-Costura porque precisamos do sonho.” 

Cláusula originalmente publicado na edição de março de 2020 da Vogue Portugal. 



Por , em 2020-03-30 08:12:59


Natividade www.vogue.pt



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