O Chile, o Equador e a América do Sul: O ato falho (?) da comentarista, por Rômulo Moreira – [Blog da Solange Pereira]



O Chile, o Equador e a América do Sul: O ato falho (?) da comentarista

por Rômulo de Andrade Moreira

Na última quinta-feira, 19, viralizou rapidamente nas redes sociais (certamente) um ato falho (?) cometido pela comentarista Basília Rodrigues, diante das câmeras da CNN Brasil. Disse ela: “Não fazem secção da América do Sul, mas é bom que a gente possa ressaltar que Chile e Equador — que não fazem secção da América do Sul — também fecharam suas fronteiras há alguns dias aos brasileiros.” Obviamente, ela queria expor que Chile e Equador não faziam fronteira com o Brasil.

Em nossa vida cotidiana, e sem que necessariamente percebamos, cometemos determinados lapsos que passam uma vez que um tanto insignificante e sem qualquer valimento do ponto de vista psíquico. É até mesmo verosímil que assim o sejam – sem relevância nenhuma -, mas o contrário também pode se dá.

Sempre sengo às nossas reações físicas – das mais importantes às mais comezinhas -, Sigmund Freud, em 1916, apresentou um estudo sobre o que ele denominou de “atos falhos”, consistentes em “certos fenômenos muito frequentes, muito conhecidos e muito pouco estudados, os quais zero têm a ver com enfermidades, uma vez que podem ser observados em toda pessoa saudável.”[1]

Para facilitar a compreensão de suas ideias, ele dividiu os atos falhos em tipos, sempre afirmando que “são de natureza desimportante, e a maioria possui duração bastante fugaz, sem grande significado na vida das pessoas.

Inicialmente, tratou dos lapsos verbais ocorrentes “quando alguém, pretendendo expor uma vocábulo, diz outra em seu lugar, ou quando isso lhe acontece ao redigir, podendo a pessoa notar ou não o equívoco.” Em seguida, labareda atenção para os lapsos de leitura, “quando, em um texto impresso ou manuscrito, lemos um tanto dissemelhante do que está escrito.” Também se referiu ao lapso de audição, “em que se ouve um tanto dissemelhante do que foi dito, sem que, é simples, se possa atribuir o equívoco a um distúrbio orgânico da capacidade auditiva.

Há ainda, segundo ele, os lapsos de memória, consistentes em “um esquecimento que não é permanente, mas temporário, uma vez que quando alguém não consegue se lembrar de um nome, que conhece e geralmente torna a reconhecer, ou quando se esquece de pôr em prática uma intenção, dela se lembrando posteriormente, ou seja, depois de a ter esquecido unicamente em determinado momento.”

Alguns desses atos falhos, porém, não têm o caráter temporário, característico dos anteriores, “uma vez que é o caso, por exemplo, do extravio, que ocorre quando alguém guarda um objeto em determinado lugar e, depois, não logra reencontrá-lo, ou, um tanto análogo, a perda do objeto.” Estes casos, normalmente, e ao contrário dos outros “esquecimentos”, “provoca perplexidade ou irritação”, mormente por não serem compreensíveis uma vez que os anteriores o são.

Entre os lapsos de memória, há ainda lugar para “certos equívocos, nos quais também está presente o caráter temporário – por qualquer tempo, acreditamos em um tanto que, sabíamos antes e sabemos depois, não é o que pensávamos.

Freud fez questão de enfatizar, mais de uma vez, que tais fenômenos – “aparentemente tão insignificantes” -, unicamente raramente adquirem “certa valimento prática, uma vez que na perda de objetos. Por isso, eles não chamam muita atenção, despertam somente pequenos afetos e assim por diante.” De toda maneira, a psicanálise não subestima supostas “ninharias” (uma vez que ele próprio diz), tampouco abandona “os pequenos indícios; a partir deles, talvez seja verosímil encontrar a pista de coisa maior.

Quanto ao lapso verbal – objeto maior de sua atenção, por ser o mais “tempestivo dos atos falhos” – pode, efetivamente, ser fruto de um tanto orgânico, fisiológico ou mesmo psicofisiológico, uma vez que o cansaço físico, os distúrbios circulatórios, a indisposição, uma dor de cabeça, uma enxaqueca, a desordem, a distração, a falta de concentração, ou “quando outras coisas demandam fortemente a atenção.” Com efeito, tais fatores podem ocasionar “toda sorte de atos involuntários.”

Acontece que tais atos falhos, segundo a experiência comprova, também “ocorrem em pessoas que não estejam cansadas, distraídas ou nervosas, e sim em seu estado inteiramente normal.” Assim, “a teoria da falta de atenção não dá conta de explicar todas as pequenas características dos atos falhos. Mas isso não significa que ela esteja errada. Talvez lhe falte um tanto, qualquer complemento que venha a torná-la plenamente satisfatória.”

Freud mostrou que o ato falho – mormente o lapso verbal – trata-se de um “ato psíquico pleno, munido de objetivo próprio, devendo, assim, ser entendido uma vez que uma sintoma dotada de teor e significado.” A maioria deles “possui um sentido”, razão pela qual “poderemos deixar de lado todos os fatores fisiológicos e psicofisiológicos e nos destinar à investigação puramente psicológica do sentido, isto é, do significado, da intenção contida no ato falho.

Ele, logo, dá um exemplo de lapso verbal ocorrido na Câmara de Deputados da Áustria, quando o seu Presidente, ao perfurar a sessão, disse, solenemente: “Senhores deputados, constato um número suficiente de membros na moradia e declaro, portanto, encerrada, a sessão.” O traje ocorreu! À luz da psicanálise, o Presidente da Câmara dos Deputados não “esperava zero de proveitoso da sessão e ficaria feliz se pudesse encerrá-la de súbito.” Ele, “ao expor o oposto do que pretendia, deixa simples que deseja perfurar a sessão, mas deixa também simples que gostaria de encerrá-la. Isso é tão evidente que zero resta aí a interpretar.”

Para Freud, “em certos casos, os atos falhos parecem revelar sentido próprio”, não sendo mera “obra do contingência, mas atos psíquicos sérios; possuem um sentido e nascem da conjunção – ou melhor, do confronto de duas intenções diferentes.” Negar tal traje, é ter a “ilusão de uma liberdade psíquica à qual não desejamos renunciar.

Mormente em relação aos lapsos verbais – mas também nos demais -, a psicanálise explica-os a partir da existência de intenções ou tendências opostas, umas ditas “perturbadoras” e outras que são por aquelas “perturbadas”, sem prejuízo, em um caso e no outro, de eventuais causas diversas (de natureza psicofisiológica), visto que “o lapso verbal é também verosímil em um estado de saúde perfeito e de pleno bem-estar.

Dá-se, portanto, uma “interferência mútua de duas intenções diversas, das quais uma é a que sofreu perturbação, ao passo que a outra é a perturbadora”, ambas, evidentemente opostas, e o ato falho é exatamente “a representação do conflito entre duas inclinações incompatíveis.” Conclui-se, portanto, “que a repressão da intenção de expor um tanto é quesito imprescindível para que o lapso verbal ocorra.” Deve uma dessas intenções “testar perceptível rechaço para que, mediante a perturbação da outra, possa manifestar-se.” Trata-se, destarte, “de um jogo de forças na psique, uma vez que sintoma de tendências dotadas de metas, que trabalham em consonância ou dissonância umas com as outras.

Freud adverte ser fundamental “levar em consideração que a vida psíquica é terreiro e campo de guerra para tendências opostas”, compondo-se “de contradições e pares de oposições.”

Naquele caso do Presidente da Câmara dos Deputados, logo, “´declaro a sessão ensejo, mas preferiria já tê-la encerrado` é o sentido do lapso verbal cometido por ele.”

Vejam levante outro exemplo, muito interessante e ilustrativo, narrado por “uma senhora sabidamente enérgica: ´meu marido perguntou ao doutor que dieta seguir. Mas o doutor respondeu que ele não precisava de dieta nenhuma, que pode ingerir e consumir o que eu quiser`.” Neste caso, ela queria, na verdade, expor: “meu marido pode consumir e ingerir o que quiser, mas, o senhor sabe, eu não tolero que ele queira alguma coisa.”

Já em outros tipos de atos falhos, “quando alguém esquece um nome que lhe é divulgado ou tem muita dificuldade em guardá-lo, por mais que se esforce, é procedente supormos que essa pessoa tem alguma coisa contra o portador do nome em questão e, por isso, não gosta de lembrá-lo.”

Conta Freud que Carl Gustav Jung (seu discípulo que mais tarde romperia com o Rabi[2]), contou-lhe o seguinte caso: “Um perceptível senhor Y apaixonou-se perdidamente por uma senhora que, logo a seguir, se casou com um senhor X. Embora conheça o senhor X há muito tempo, tendo com ele inclusive uma relação de negócios, o senhor Y vivia esquecendo seu nome. Muitas vezes, quando queria redigir ao senhor X, precisava perguntar seu nome a outras pessoas. O senhor Y claramente não quer saber coisa nenhuma de seu feliz rival. ´Melhor é nem lembrar dele.`

Um outro colega de Freud, Abraham Arden Brill narrou-lhe-lhe o seguinte: “Uma senhora pergunta ao médico sobre uma conhecida generalidade, mas a labareda pelo nome de solteira. Do sobrenome adotado em seguida o conúbio, ela se esqueceu. Confessa, logo, ter ficado bastante insatisfeita com aquele conúbio e não suportar o marido da amiga.”

Em outro caso, agora relatado pelo psiquiatra suíço Alphonse Maeder, “uma senhora, na véspera do conúbio, esqueceu-se de ir testar o vestido de prometida, dele se lembrando unicamente ao anoitecer, para desespero da modista. A esse esquecimento ele vincula o traje de, pouco depois, a senhora possuir se separado do marido.”

Freud agora volta a sua atenção para um tipo de ato falho “particularmente rico em significados e inescrutável: aqueles casos em que perdemos um objeto ou não sabemos onde o guardamos.” Nestes casos, muito possivelmente, o objeto é “casualmente” perdido “depois de nos indispor com a pessoa que o deu a nós, da qual não queremos mais nos lembrar; ou, logo, quando deixamos de gostar do objeto em si e passamos a procurar um pretexto para substituí-lo por outro melhor. Com essa mesma predisposição contra o objeto, nós o deixamos desabar, quebramos ou destruímos.” Os exemplos são vários e todos “produzem sempre o mesmo resultado: tornam provável que atos falhos possuam um sentido e mostram uma vez que depreender ou confirmar esse sentido a partir das circunstâncias que o acompanham”, pois “o ser humano abriga tendências capazes de entrar em ação sem que ele saiba da existência delas.”

No que diz reverência ao lapso de escrita, ele se “assemelha ao verbal que dele não nos cabe esperar obter novas perspectivas.” Os exemplos dados pelo responsável (muito longos) reforçam esta sua asseveração.

Já no lapso de leitura, “encontramos uma situação psíquica que claramente difere daquela verificada nos lapsos da fala e da escrita.” Cá, “substitui-se a vocábulo a ser lida por outra, sem que isso implique necessariamente uma relação de teor entre o texto e o resultado do lapso, que em universal se assenta em alguma semelhança de palavras.” Assim, “tendo lido um tanto indesejado, a pessoa se convence, por meio da estudo, de que o responsável pelas modificação do que foi lido é um libido intenso de rejeitá-lo.

Freud também procura averiguar o porquê do “esquecimento de nomes próprios e de nomes estrangeiros, assim uma vez que o de palavras estrangeiras.” Também se revela nestes fenômenos “uma intenção contrária, a qual direta ou indiretamente se volta contra o nome em tarifa” e, mais especificamente, “uma aversão da memória a se lembrar de coisas vinculadas a sentimentos de desprazer, sentimentos estes que a recordação poderia reavivar. Essa intenção de evitar o desprazer provocado pela memória ou por outros atos psíquicos, essa fuga psíquica do desprazer, nós podemos identificá-la uma vez que motivação última e eficiente não unicamente do esquecimento de nomes, mas também de muitos outros atos falhos, uma vez que, por exemplo, as omissões e os equívocos.”

Dá-se o mesmo no esquecimento de impressões e experiências vividas, onde também atua essa “tendência a distanciar da memória o que é repugnante.” Porquê exemplo, Freud cita Darwin que, consciente dessa possibilidade de ato falho, “adotou uma vez que ´regra de ouro` registrar com peculiar zelo observações que pareciam desfavoráveis a sua teoria, porque estava convicto de que justamente essas não queriam se fixar em sua memória.”

Por último, analisa-se “a perda e o extravio de objetos”; trata-se de fenômenos de múltiplos significados, havendo neles sempre uma tendência generalidade a todos os casos: “o libido de perder o objeto.” Assim, “perdemos uma coisa quando ela se danificou, quando temos a intenção de substituí-la por outra melhor, quando deixamos de gostar dela, quando proveio de alguém com quem nossas relações se deterioraram ou quando foi adquirida em circunstâncias que não desejamos mais recordar.” O mesmo pode ocorrer quando esquecemos alguma coisa em qualquer lugar, danificamos a coisa ou a quebramos.

Encerrando o seu trabalho, e em seguida comportar que estava “longe de ser tudo que haveria a expor sobre os atos falhos”, sendo necessária ainda muita pesquisa e muita discussão, Freud encerra afirmando que “o grande valor dos atos falhos reside no traje de serem eles fenômenos bastante frequentes, facilmente observáveis em nós mesmos e cuja ocorrência não pressupõe de modo qualquer que estejamos doentes.”

Rômulo de Andrade Moreira – Procurador de Justiça no Ministério Público do Estado da Bahia e Professor de Recta Processual Penal na Faculdade de Recta da Universidade Salvador – UNIFACS

[1] O texto consta do Volume 13 das Obras Completas de Sigmund Freud – “Conferências Introdutórias à Psicanálise”, publicadas no Brasil pela Editora Companhia das Letras, em 2014. O texto, na 1ª. reimpressão da coleção, consta às fls. 19 a 108.

[2] “Em 1912, o conflito entre Freud e Jung se tornou evidente, quando Jung preparou a publicação de ´Metamorfoses da espírito e seus símbolos`, que teria muitas reedições. A discordância foi completa a reverência da teoria da libido. Mas a pinga d`chuva foi um facto menor. Freud foi visitar Ludwig Binswanger (um reputado psiquiatra suíço), operado de um tumor maligno e não passou por Küsnacht (uma comuna suíça onde residia Jung), que ficava unicamente a cinquenta quilômetros de Kreuzlingen (outra comuna suíça e onde se encontrava o colega doente de Freud). Jung interpretou esse gesto uma vez que uma ofensa. Depois de várias disputas, durante as quais Jung tentou convencer Freud da premência de dessexualizar sua teoria (nem que fosse, disse ele, para que ela fosse mais muito acolhida), a ruptura se consumou em 1913. Freud tomou a iniciativa de romper, depois de uma síncope durante o jantar do Congresso da International Psychoanalytical Association (IPA). Em 1919, Jung elaborou a noção de arquétipo, oriunda da noção de imago”, afastando-se “radicalmente do universalismo freudiano.” (ROUDINESCO, Elisabeth e PLON, Michel. Léxico de Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, páginas 422 e 423).

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Por , em 2020-03-22 08:11:30



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