‘Sinto saudade dos abraços’: baianos se isolam em casa para evitar coronavírus – Jornal CORREIO – [Blog da Solange Pereira]



Dona Adelaide vê o mundo unicamente pelas janelas e varanda do apartamento onde mora sozinha, em Salvador, ou pelo celular. “Me protegendo, eu protejo os outros”, explicou ela, que adotou o auto-isolamento para se resguardar e evitar, ainda, ser mais uma manadeira provável de propagação do novo coronavírus. Há duas semanas, não pisa os pés fora de lar. Porquê ela, outros baianos têm optado pelo isolamento social, sem transpor, nem receber visitante, desde pouco depois do primeiro caso da doença, no dia 6 de março.

A aposentada Adelaide Carrozzo, 80 anos, divide o dia entre as tarefas domésticas, porquê limpar a poeira e esquentar as refeições, os bordados e os filmes. Não recebe sequer os filhos desde 8 de março. Oficialmente, não há nenhuma mandamento, na Bahia, para que pessoas saudáveis façam isolamento. As iniciativas são voluntárias. 

Dona Adelaide vê o mundo pela janela do apartamento (Foto: Betto Jr./CORREIO)

O confinamento é obrigatório, explicou o secretário de Saúdo do Estado, Fábio Villas-Boas, ao CORREIO, unicamente para pessoas infectadas ou que tenham chegado de São Paulo ou do exterior. Manter uma intervalo de pelo menos um metro de outras pessoas é recomendado. 

Pela idade, Adelaide faz secção do grupo de risco do coronavírus, já que o sistema imunológico fica mais fragilizado para combatê-lo, junto a portadores de doenças crônicas e respiratórias. A Organização Mundial da Saúde (OMS) sugere a quem está em lar, e tem o privilégio de permanecer, que assim permaneça. 

“Não transpor é a única maneira de não aumentar essa esfera de neve. Quem pode permanecer em lar, deve permanecer. Mas acho que estão dormindo”, acredita Adelaide. 

No sofá ou na leito, ela atualiza as últimas mensagens enviadas por parentes da Itália e da Suíça, de onde saiu com dois meses de vida com os pais para Salvador. Lá, estão todos isolados por mandamento federalista e precisam ir ao mercado e farmácias em horários alternados e, às vezes, com urgência de marcação. Não houve nenhum caso de coronavírus entre os parentes estrangeiros. 

Depois de tanto seguir o progresso do vírus, decidiu se isolar. Vez ou outra recebia amigas, filhos e netos. Todas as manhãs, descia a pé para um banho de mar no Porto da Barra. Na semana passada, cancelou até uma cirurgia para colocar uma prótese no joelho recta. A diarista, que trabalhava quinzenalmente no apartamento, foi liberada. A despensa de comida está abastecida.

Ao longo das semanas, Adelaide tenta fabricar novas distrações. Passou a ver a um filme por dia e engatar seriados. “Sinto saudade do contato com meus filhos, meus netos, e meus banhos de mar. Às vezes de ir à feira, comprar verduras…”, relatou, no nono dia confinada. A essa profundidade, até os pontos mais movimentados de Salvador – porquê a Estação da Lapa e a Avenida Tancredo Neves – estavam esvaziados mesmo nos horários de pico. 

O CORREIO conversou com infectologistas, sociólogos, psicólogos e psiquiatras sobre casos de auto-isolamento. Enfim, qual pode ser a prestígio do isolamento social e quanto custa a nós, seres sociais, um prazo ainda indefinido de reclusão?  

‘Sinto saudade dos abraços’
No décimo dia de isolamento da mãe, o fruto mais novo de Adelaide rompeu seu próprio confinamento e esteve no condomínio onde ela mora, na Barra, para um meneio. Ela da varanda do segundo marchar e ele debaixo, na espaço da piscina. “Foi uma surpresa linda. Mas sinto saudade dos abraços”, contou à reportagem no dia seguinte, por telefone. A imagem que ilustra a reportagem foi feita do mesmo ângulo, a pedido da aposentada. 

O infectologista Fábio Amorim, do Instituto Couto Maia, onde está concentrado o núcleo de tratamento da doença em Salvador, defende o isolamento porquê forma de prevenção. “Se eu pudesse, até eu ficaria solitário [risos]. Não é que a gente vai expor que estamos completamente protegidos, mas o objetivo é reduzir risco de exposição e o isolamento é a forma mais barata e efetiva de fazer isso”, explica. A transmissão do vírus é aérea – quando uma pessoa contaminada fala ou tosse próxima de você, por exemplo – e por contato direto com fluídos. 

Mesmo defendido por secção da comunidade científica, o isolamento pode ter custos. Principalmente sociais e psicológicos, explica o sociólogo Alan Mocellim, professor da Universidade Federalista da Bahia (Ufba). “Uma prova de altruísmo muitas vezes”, pontuou. Cada ser humano depende do contato com o outro, seja qual for, para definir quem será.

Inicialmente, no caso da moço pequena, Mocellim define uma socialização primária, quando as relações familiares guiarão nossas primeiras ações e reações, porquê nos sentiremos em relação ao outro e assim por diante. Depois, começa a socialização secundária.

O bebê agora é uma moço no escola, nas primeiras descobertas, um jovem adulto na faculdade ou um idoso jogando dominó na rossio com os amigos. Portanto, todo isolamento tem um dispêndio, pois representa um rompimento de rotina. A Sociologia nunca encontrou provas de que tenhámos, em qualquer momento, vivido isolados. 

“A gente sempre viveu em conexão e a conexão estrutura nossas rotinas, na rua, no escola, na faculdade. A grande questão do isolamento são as quebras dos nossos elementos constitutivos, porquê nossos contatos pessoais, e as rupturas de rotina, que é um parâmetro de orientação”, explicou.

Daí a saudade de Adelaide ao ver o fruto bracear sem poder convidá-lo para um amplexo e uma rodada de spätzle, receita de tamanho geral na Suíça. Os vídeos de italianos cantando, juntos, na varanda, e de senhoras numa conversa, aos gritos para serem ouvidas à intervalo, em Wuhan, na China, onde começou a pandemia do coronavírus, mostram porquê, o tempo todo, buscamos nos conectar uns aos outros. 

Uma novidade forma de viver
Numa planilha online, Renato Saraiva, 48, organiza as atividades. Tudo é feito dentro de lar, das refeições ao trabalho porquê gestor e consultor nas áreas de instrução, cultura e sustentabilidade. “É um privilégio. Por isso, não estou solitário pensando só na minha saúde, mas na dos outros também”, disse. Desde o último sábado (14), ele circula unicamente pelos 60 metros quadrados do imóvel. Antes de iniciar o confinamento, foi ao mercado, porquê fizeram tantos outros que, senão isolados, pretendem transpor o mínimo provável de lar. 

Ele convenceu até uma amiga, que viria de Berlim, onde mora, para Salvador, a cancelar a viagem. De faceta, ela achou excesso. “Convenci que não era. A transmissão ocorre para todos”, ponderou. No último final de semana, dispensou teatro, barzinho e uma ida à praia. A diarista da lar onde Renato mora com um companheiro foi liberada. Os dois mantiveram o pagamento da doméstica. “Nem todos podem parar, é importante que um pense no outro”, disse, no terceiro dia confinado. 

Seu companheiro de lar não pode se isolar, mas só tem ido do trabalho para lar. Quando chega, já separa a roupa suja e toma banho. No quinto dia de isolamento, a reportagem falou novamente com Renato. “É quinto? Parece o décimo”, respondeu ele, quando perguntei sobre porquê se sentia passada quase uma semana. A lar estava completamente organizada. “Já vejo na lar outra formatação. Sujou, limpou”, argumentou, sobre o tempo livre.

Varão observa a rua escoltado do cachorro (Foto: Betto Jr./CORREIO)

As novas formas de habitar a própria lar já fazem secção da vida de quem for solitário. Isoladas, as pessoas podem permanecer mais ansiosas e buscar outras formas de habitar e se relacionar. O professor da Faculdade de Psicologia da Ufba Tiago Ferreira acredita que “nossa cultura é muito do toque, de pegar, mas mesmo assim podemos ser flexíveis”. 

“Talvez a maior preocupação seja a sensação de não transpor de um mesmo contexto, de dentro de lar. A questão não é só sofreguidão, porque já estamos ansiosos há tempos. Agora, podemos mudar a maneira com que a gente lida com isso, tentando resolver algumas coisas”, comenta.

No apartamento de Débora Leite, 36, ela, a mãe e a filha de quatro anos estão isoladas desde terça (17). Antes, a personal trainer acordava às 6h e retornava para lar às 21h. Por dois dias na semana, não chegava a tempo de encontrar a filha, Maia. Agora, precisa inventar formas de distrair a moça, ter tempo parar meditar e arrumar aquela gaveta desorganizada.

“Tem séculos que eu queria arrumar. Próxima semana será um baú de documentos. Acho que será um momento para autorefletir bastante”, comentou. 

O isolamento das três foi adotado depois de um contato da educadora física com uma colega de trabalho que auxiliou, na ateneu onde as duas trabalham, uma paciente com coronavírus. A mulher retornou da Itália, epicentro da pandemia na Europa, sem executar isolamento. Três dias posteriormente o susto, o resultado do teste deu negativo. “Mas continuaremos isolados”, frisou Débora.

Ela e a filha têm asma, enquanto a mãe tem mais de 60 anos e é hipertensa. Ou seja, estão no grupo considerado de risco.

Continuaremos conectados 
As interações sociais ativam uma espaço do cérebro chamada amigdala, que reativa sensações e memórias afetivas. O resultado é a liberações de hormônios ligados ao prazer e bem-estar, porquê a dopamina, por exemplo. Mas o psiquiatra Antônio Freire, doutor em Medicina e Saúde Humana, explica que o isolamento voluntário pode, também, despertar sensações, porquê o siso de pertencimento. Até porque, isolamento não é sinônimo de desconexão – principalmente devido às redes sociais.

Na opinião do médicos, o isolamento voluntário pode até ser uma quebra de rotina e potencializar sensações de sofreguidão. Ocorre que até o confinamento, neste momento, é vivido em grupo. “Esse também é um comportamento de grupo, porque todos estão se esforçando para um mesmo término. É porquê se fossemos todos bombeiros que, juntos, estão apagando um grande incêndio”, metaforizou.

O esforço, agora, será recriar rotinas habituais dentro de lar. “É difícil enxergar o lado positivo, mas vamos fazer aquelas coisas que não tínhamos tempo antes, entreter com nossos filhos, vincular para pessoas próximas”, listou. Ligações de áudio e vídeo, inclusive, ativam ainda mais conexões cerebrais. Checar as informações antes de repassar para amigos e parentes, nesses contatos, é fundamental. 

Ao término do dia, o resultado não será o mesmo que a resposta das amigdalas cerebrais para um toque, um amplexo, um ósculo. Há um estudo, cita o psiquiatra, em que os macaquinhos afagados pela mãe se provam mais tranquilos que aqueles sem carinho.

“Mas é para um muito maior. O isolamento social, nesse caso, passa a ter uma prestígio na manutenção da vida”, pontuou.

A reportagem conversou com Dona Adelaide, no dia do fechamento da material, na última sexta (20), quando completou 13 dias da reclusão. Ela disse estar muito, mas triste em ver pessoas, ainda hoje, nas praias. A principal sofreguidão é que os dias sozinha acabem e ela convide a família para manducar spätzle com molho de músculos no almoço. Todos estarão juntos e, aí sim, abraçados. 

Por , em 2020-03-21 06:27:38



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