Livro costura com sutileza racismo e abismo entre ricos e pobres no Brasil – 21/03/2020 – Ilustrada – [Blog da Solange Pereira]



Já adulto, o narrador de “Apátridas” relembra os primeiros anos transcorridos posteriormente o retorno a Mato Grosso, tentando reconstruir o olhar do garoto que foi —que, enquanto procurava se apropriar àquele mundo, buscava uma espécie de consistência que parecia indisponível.

O que se revela no livro é portanto um processo de reconhecimento, de mapeamento de relações de poder, de sondagem de nuances e flutuações.

Em Mato Grosso, de entendimento com o narrador, o “vazio imenso da paisagem se refletia num outro vazio, uma espécie de vazio narrativo”.

Era, ao menos em segmento, um vazio familiar —na puerícia improdutivo na Filadélfia se destacavam “exclusivamente os apelos urgentes e efêmeros do consumo”. O que se via em Mato Grosso era o apelo metódico do numerário. “O numerário exercia alguma função narrativa que eu não entendia muito; era porquê a memória, ou a história.”

O numerário é motivo de vergonha e de orgulho para o narrador. A razão da ambivalência é a riqueza do avô, possuidor de um cartório.

Naquele mundo dos adultos, para usar as palavras do repórter Daniel Galera num observação sobre o livro, “numerário e a burocracia [eram] a matéria-prima das relações afetivas e sociais”. No das crianças, a burocracia era substituída pelo talento no futebol. Já o numerário era calculado pelos meninos a partir do protótipo do carruagem de seus pais.

Ainda que o narrador aprenda com um tio-avô a grafar para escrutinar o próprio lugar no mundo, o que se tem em “Apátridas” não é um romance de formação. O que se delineia é menos o lugar que o narrador ocupa do que alguns meandros ocultos de perceptível cenário, sobretudo o brasiliano.

Há, assim, menos um processo interno de maduração do que um processo que escancara e costura a narrativa rejeitada de um país —sobretudo porque no olhar do narrador se misturam o pertencimento e o estranhamento. Do racismo estrutural ao enorme caimento entre ricos e pobres, está tudo ali.

É enorme a sutileza com que a narrativa de “Apátridas” capta a existência de ambiguidades, inconsistências, pontos cegos, zonas cinzentas. Uma estreia irretocável e espantosa de Alejandro Chacoff e um dos livros imperdíveis de um ano tão brutal.

Por , em 2020-03-21 01:09:31



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