Blog da Moda – Ovar com pânico nas compras, calma em casa e falta de informação na rua


Com 70 postos de controlo fronteiriço nos limites desse município do província de Aveiro com os concelhos contíguos de Espinho, Santa Maria da Feira, Oliveira de Azeméis e Estarreja, as filas de carros sucedem-se e muro de 90 agentes da GNR questionam os automobilistas sobre os motivos da sua movimento.

António Pereira foi um dos que ficou chateado por ter visto barrada a sua saída e, por telefone, explica à Lusa: “O meu pai vive em Santa Maria da Feira, tem Alzheimer e está com seguimento domiciliário até às 16:00, mas depois dessa hora era eu que ficava com ele e a polícia não me deixa passar. Portanto isto do seguimento de familiares idosos não era uma das exceções?”.

Na rua, António vê as vizinhas a fazer caminhadas, avisa-as que as instruções das autoridades são para que todos fiquem em moradia e ouve de resposta que “isso era o que faltava”. Daí a sua perspetiva irritada de que “as pessoas não sabem o que fazer, não têm informação suficiente e preocupam-se sobretudo é com os supermercados” – onde as filas são enormes “e está toda a gente assustada, em pânico, com susto de não ter o que comprar para se manter em moradia tempo suficiente”.

Fernanda Castro também está desiludida com a desorganização da quarentena” e explica: “Eu sou cozinheira num lar de idosos da Feira e achava que tinha recta a ir trabalhar, porque ser uma superfície relacionada com a Saúde e assistência a pessoas vulneráveis, mas não me deixaram passar”.

A entidade patronal pediu-lhe que fosse à Junta de Freguesia de Esmoriz, em Ovar, solicitar “um documento que a autorizasse a passar”, mas não surtiu efeito: “Simples que a Junta me disse que não tem poder para isso. O que é que eles sabem da minha vida? Entretanto os meus chefes ficaram de me enviar um email a expressar que funções exerço e que precisam de mim, mas a GNR já me avisou que isso tanto pode funcionar porquê não valer de zero”.

Um agente da GNR faz o controlo de entradas e saídas na área geográfica de Ovar após ter sido declarado o estado de calamidade pública e decretada a quarentena abrangendo toda a população de Ovar devido ao surto de coronavírus (Covid-19), esta manhã em Ovar, 18 de março de 2020. ESTELA SILVA/LUSA

Um agente da GNR faz o controlo de entradas e saídas na superfície geográfica de Ovar em seguida ter sido enunciado o estado de calamidade pública e decretada a quarentena abrangendo toda a população de Ovar devido ao surto de coronavírus (Covid-19), esta manhã em Ovar, 18 de março de 2020. ESTELA SILVA/LUSA

Andreia Silva está mais serena e, embora fechada há alguns dias com mercearia suficiente na despensa, voltou a substanciar o fornecimento esta terça-feira, quando soube que a quarentena obrigatória e o controlo de fronteira iam ser implementados.

Está a dar aulas pela internet e explica que a decisão surgiu logo em seguida a informação de que dezenas de funcionários da empresa Yazaki Saltano Ovar estavam em quarentena: “Uma vez que temos muitos alunos que trabalham lá, decidimos logo passar as aulas para oriente formato e, tirando algumas dificuldades na segunda-feira durante o pico de utilização da plataforma [de ensino à distância utilizada], tem tudo corrido muito muito, em direto”.

Se a professora opta por lecionar a partir do escritório do marido, a poucos metros de moradia, para não ser interrompida pelo fruto de quatro anos, o mesmo não acontece com os seus alunos. “Deste lado, estou eu sozinha, mas, do lado de lá, eles estão com os filhos à volta e às vezes chega a ser engraçado”.

Nem todos os docentes que trabalham com Andreia optaram pelo mesmo registo de ensino remoto porque “não se sentem tão familiarizados com a plataforma online”, mas, para ela, a situação tem sido “tranquila” e não se adivinham atritos familiares motivados por excesso de convívio domiciliária.

“Até tem sido uma alegria. O meu fruto está todo contente por ter os pais em moradia com ele o dia inteiro e todas as noites diz que gosta muito de nós, só por estar a passar tanto tempo connosco”, confessa, divertida.

O que mais a preocupa nesta situação toda é que a quarentena imposta pelo Governo não esteja a ser cumpria por todos, já que a enunciação de calamidade pública impõe o fechamento de toda a atividade económica que não seja considerada de primeira premência “e há muitas fábricas no concelho que hoje ainda estão a trabalhar”, presumivelmente com muita gente lá dentro “a prejudicar-se”.

Ana Oliveira mostra-se apreensiva por razões semelhantes. Vive em Avanca, no concelho de Estarreja e já na sexta-feira fechou o seu meio de estudos em Válega, Ovar, “para não sujeitar as crianças a riscos” e também não reparar contra si própria, enquanto doente crónica com Diabetes de tipo 1 e, portanto, mais vulnerável ao novo coronavírus.

“Eu tomei todas as cautelas, mas ainda hoje vi montes de gente de Válega a vir tomar moca cá a Avanca [em Estarreja] porquê se zero fosse, o que quer expressar que o controlo na fronteira não está a funcionar”, afirma. “Estão na esplanada com máscaras e luvas, ok, mas continuam a circunvalar de um lado para o outro muito descontraídas”, acrescenta.

EPA/ESTELA SILVA

EPA/ESTELA SILVA

Também por telefone ao início da tarde, o irmão dessa educadora contribui com mais um pormenor para o retrato: “Ainda agora vi o presidente da Junta de Freguesia de Válega a passar de trator cá em Avanca, que já é concelho de Estarreja”.

Quanto à sua situação porquê empresária, Ana começa por avisar que a sua opinião “não é simpática” e depois declara: “Vivo fora de Ovar, mas tenho lá o meu negócio e o facto é que ainda não fui contactada por absolutamente ninguém para ser informada das medidas a tomar. Acho que o presidente da câmara se tem esquecido um naco dos pequenos empresários que não votam no concelho dele”.

Pedro Cunha, que vive em Souto, na Feira, e tem em Ovar uma oficina veículo, também vê a sua situação empresarial mal paragem: “Estou preocupado porque, de sexta-feira até ontem, terça-feira, notou-se uma quebra muito grande a nível de pessoas a entrarem na oficina, a fazerem os pagamentos à traço de crédito que lá temos, etc.”.

Otimismo, sem cedências, é exclusivamente o de Célia Gomes, que hoje apreciava as operações policiais na fronteira entre Rio Meão, na Feira, e Esmoriz, no concelho sob quarentena. Os guardas não a deixaram seguir viagem para a fábrica de confeção têxtil onde trabalha e a modista já avisou o patrão que até dia 04 estará retida em moradia.

Receios quanto ao seu posto laboral, no entanto, não tem: “Não é por 15 dias que nós vamos percorrer o risco de perder o tarefa. E eu acho que isto vai permanecer resolvido em 15 dias”.

O número de infetados pelo novo coronavírus subiu para 642, mais 194 do que os contabilizados na terça-feira, anunciou hoje a Direção-Universal da Saúde (DGS).

Segundo o presidente da Câmara de Ovar, Salvador Malheiro, no concelho foram registados 35 infetados até terça-feira.




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