Blog da Moda – Posso ter fugido da morte no Rio para morrer na Europa – 17/03/2020 – Anderson França


E pensar que posso ter fugido de morrer no Rio pra morrer na Europa.

Paladar de rir da teoria. Enfim, se for isso mesmo, quero morrer rindo de mim mesmo. A gente morre, né. De alguma coisa, a gente vai morrer.

Fiquei olhando pela janela na manhã de hoje uma Lisboa vazia. Espanha, com quase 300 novos casos hoje, segunda (16). A União Europeia determinou o fechamento das fronteiras do continente por 30 dias, um pouco que não se via talvez desde a Segunda Grande Guerra.

Nós estamos vendo a história em convulsão. Se eu fosse reimprimir meu livro, seria isso, “História em Shamas”, e não mais Rio. Nem seria Brasil, ou Europa, ou mundo. História mesmo. Porque não são exclusivamente fatos geográficos, biológicos, econômicos e políticos. São todos esses, e a cabeça das pessoas que estão em chamas. Pessoas realmente acreditando que a Terreno é plana. Pessoas realmente acreditando que fazer revelação contra o “vírus da depravação’, presidente da República descendo a rampa do Planalto pra apoucar a mão de todo mundo, se filar, se lambuzar, porquê fez no último domingo (15), quando a Europa decreta fechamento de todas as fronteiras por 30 dias, a Argentina e o Paraguai também fecham (sabiamente pensando que o vírus pode vir pelo Brasil), ou seja, NÓS É QUE ESTAMOS SENDO ISOLADOS do resto da América Latina.

Jornalistas com anos de profissão chorando em frente as câmeras. Guga Chacra, Ilze Scamparini. Fora os que conseguem se segurar. Fora eu, você.

O nosso pranto já nem é só pelos mortos do Covid-19. É por tudo. A desesperança, o desânimo, as coisas que acontecem todos os dias, que nos fazem pensar que o mundo já deve ter terminado e não nos avisaram. Veja, não é exclusivamente o vírus o problema. ANTES, já tínhamos uma crise econômica e política, um presidente que se dirige a uma jornalista dizendo de maneira grotesca que ela queria “dar o furo”, ministros de Estado destruindo conquistas populares, praticando ofensas pessoais diretas a pessoas que dedicam suas vidas para solidariedade coletiva, caso do Drauzio, gravemente ofendido pelo ministro da Instrução.

Que tempos de violência são esses?

Um país dividido, polarizado. Nunca poderemos ser porquê os portugueses, que aplaudiram no último sábado (14) os paramédicos, profissionais da saúde que estão arriscando suas vidas num momento crítico? Eu tenho dificuldade, confesso, de aplaudir qualquer funcionário público no Brasil. Qualquer um, mesmo os que merecem, e acreditem, temos muitos. Mas são tantos anos de desprezo e descaso do Estado, que no término, eu penso que eles não fizeram mais que a obrigação. E eu não deveria ser assim.

Ontem, fiz uma live com pessoas do mundo todo sobre porquê eles estão enfrentando o isolamento. Cá, em Lisboa, já é real. Não podemos ir às ruas se não for para comprar comida, remédios e máscaras.

Escolas fechadas, supermercados com horários controlados. Mesmo assim, há empresas que obrigam empregados e funcionários a trabalharem, caso de vendedoras de cosméticos, perfumes e acessórios no Meio Mercantil Colombo, que protestaram com cartazes onde se lia “não queremos estar cá”, no melhor estilo “help me” que uma modista chinesa escravizada mandou numa peça de roupa de marca, anos detrás.

E empregadas que estão sendo liberadas não estão recebendo por isso. Os empresários estão “descontando” das horas extras que elas fizeram pra usar dentro de sua liberdade, ou pior, vários empresários estão simplesmente liberando empregados para depois, quando voltarem ao trabalho, “pagarem” os dias que ficaram em moradia, ou seja, trabalharão sem receber os dias que PRECISARAM, por força de lei, permanecer em moradia, para portanto, sabe-se lá quando, poderem receber normalmente os dias de trabalho.

Não é só isso. Empregadores obrigam pessoas a assinarem licenças não-remuneradas ou mesmo a pedirem destituição. E eu sei disso, porque muitos desses empregados e empregadas são brasileiros e imigrantes. Gente altamente qualificada, mas que não se emprega em suas áreas numa Europa xenófoba.

Mães que estão com as crianças em moradia. Escolas fechadas, mães presas. E quando as famílias dependem da alimento dada na escola, o cenário piora. É uma reação em ergástulo. A escola libera crianças, as mães precisam faltar o trabalho, o salário fica comprometido, o consumo das famílias cai, a economia freia, a crise econômica cresce, o desemprego, o caos, sem hora pra concluir. Porque não sabemos, não há uma data segura, não há um dia em que possamos expressar: neste dia tal, acabou. Podemos voltar pras ruas.

Não está sendo assim na Espanha, Itália, Alemanha, França, Suíça e em breve no Oeste inteiro. Merkel decretando quarentena e fechamento de fronteiras, Macron decretando o mesmo, imagine uma Europa que é uma cidade-fantasma.

Enquanto isso, o Bolsonaro volta da Lar Branca com 12 infectados, mente sobre sua exigência pra Fox News, condena a mídia pelas mentiras do próprio fruto, convoca revelação que pede fechamento de Congresso, desmente, diz pra ninguém ir numa mão, e com outra, dispara mensagens pro povo ir. Ele mesmo portanto vai, e minimiza a situação. Fazendo com que você, que me lê, continue sem confiar no que vai ocorrer.

A gente não acredita no vírus porque via de regra somos muito vira-latas. Terrorista e vírus não se criam num lugar onde a PM (Polícia Militar) mata todo dia. Mas e se esse navio virar? Já parou pra pensar que as periferias vão suportar mais? Porque não há leitos nos hospitais públicos pra todo mundo. O que vamos enfrentar no Brasil é dissemelhante da China, da Itália, de o escambau, porque na China e na Europa não tem favela porquê cá no Brasil. Só no Rio são 1.024 favelas. Esse vírus é um só, e em cada país ele pega o ponto fraco sítio.

Na Itália e na Europa, ele ataca a população adulta e mais velha. E Europa é uma vila. Pequena, suja, antiga. Lugar ideal pra ter umas pestes. A visão que temos da Europa é muito equivocada. Isso cá é uma fragilidade só, companheiro. Eu moro num prédio que dia sim, dia não, o esgoto sobe pelo tubo, e não dá pra ter uma cafeteira e um forno ligado que a luz cai. Uma vergonha, tudo macróbio.

Mas lembre-se: foi uma pessoa que levou, da Itália, o vírus pra São Paulo. E se o vírus que foi pra São Paulo se espalhar a ponto de fazer o que aconteceu em Milão, companheiro, se prepara.

Irresponsável o posicionamento do Olivier Anquier, chef gente boa, palato dele pra caramba, tenho maior tesão em gálico. Acho que todo gálico é brasiliano. Mas achei irresponsável um post dele dizendo, em resumo: “eu me recuso a ficar em casa, vou pra rua, são só 200 casos num país de 200 milhões”. Portanto, Olivier, é verdade. Mas é verdade assim, na teoria.

Na prática, são 200 casos, a maior secção em São Paulo e Rio, cidades onde você mora e trabalha. Não existem “200 milhões de pessoas”, existe o Méier, Santa Cecília. E o problema é aí. Na sarau da Pugliesi. Todo mundo achando que essa doença ia rolar no Dança da Novidade Holanda, pimba. Foi na sarau dos pleiba.

As lora, os loro, tudo com pulseira da UPA (Unidade de Pronto Atendimento).

Marco Feliciano e Edir Macedo dizendo que esse vírus é uma palhaçada, um excesso, uma fita de Satanás e da mídia. Enquanto isso, o reverendo Ed René Kivitz, da Igreja Batista no bairro de Chuva Branca, São Paulo, fez um literato diante de uma igreja vazia, com 3.000 lugares vazios, e transmitiu pela internet. Erudito com reza, músicos e sermão, porque, segundo ele: “fé nos labareda para a responsabilidade”. Para com o outro, para com nós mesmos.

Nós estamos pensando que o Covid-19 é um vento que vai passar, pra depois a gente continuar a porradaria política. Na verdade, essa crise pode ser uma curva na esquina que nós não prevíamos. A história é assim. Por isso os jornalistas choram. Porque chegamos a um limite da nossa barbárie.

Esse momento vai testar em muitos de nós a nossa humanidade.

E se não restou nenhuma?

Se aqueles que celebram a morte de Marielle, de Bebianno, de crianças negras com tiros nas costas na favela da Maré, já não se importam nem com a própria vida, a ponto de irem pra passeata, expondo-se à morte, que humanidade podemos esperar nos próximos meses?

Crianças no Brasil que comem a merenda dada na escola. Mães que trabalham e precisam largar o tarefa pra cuidar dos filhos. Patrões que obrigam as domésticas a ficarem no serviço, adoecendo com eles.

O que restará depois de 2020?

Temos que jogar a pergunta lá na frente.

Porque precisamos amadurecer porquê povo. Uma vez que raça humana.

Eu acho que a taça das nossas maldades chegou ao limite.

E precisamos, nessa hora, ter calma e refletir. Levante mundo não é nosso.

O poder é uma ilusão. A vida é um sopro. E o corpo é frágil.

Onde estão nossos amores? Nossos afetos? O que, de trajo, tem valor agora?

No término, vamos todos morrer. A questão é: porquê.

Em tranquilidade, ou surtados uns com os outros?

Eu mesmo corro risco cá. Escrevo hoje sentado no pavimento do banheiro de moradia. Lugar onde pus uma música e pude me desligar do mundo.

Posso ter saído do Rio pra morrer cá. E, acredite, eu estou falando sério. Posso rir disso dentro do caixão, mas é sério.

Mesmo no Rio, quando cobri violência policial, não houve um único dia em que 348 pessoas morressem de projéctil perdida, ou de qualquer coisa, num único lugar, num único dia. E isso aconteceu na Itália, ontem. E lá, onde os marcos civilizatórios ainda são mantidos, isso foi um massacre que remeteu a Segunda Guerra.

Procure ajudar pessoas.

Procure um jeito de passar por leste momento da história sentindo que, se chegar a hora, você vai. Em tranquilidade.

E se sobreviver, e se não for zero tão dramático pra você, saiba, leste que vos escreve tá vendo uma paragem que nunca imaginou ver. E eu já vi muita merda na vida. Mas nunca imaginei que seria proibido de transpor da minha moradia. E gente morrendo a rodo, logo ali.

Daqui, deste lado do mundo, eu peço: se cuide. Cuide dos seus.

[ad_2]

Fonte

Deixe um comentário